O governador do sorriso fácil

O destino sempre sorriu para Alberto Pinto Coelho. Ou foi ele quem sempre sorriu para o destino?

por André Lamounier e Sergiovanne Amaral 07/04/2014 11:40

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Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
Para agradar ao novo governador de Minas Gerais, Alberto Pinto Coelho Júnior, convide-o para uma boa prosa sobre política. Isso ele adora. Forjado na escola de José Aparecido de Oliveira (ex-ministro da Cultura de José Sarney e homem de confiança do ex-presidente Itamar Franco, que o nomeou embaixador em Portugal), Alberto é um político simples e extremamente dedicado aos seus objetivos. Faz política à moda antiga: conversa daqui para lá, de lá para cá, sabe ouvir e raramente parte para o confronto. Aos 68 anos, numa manhã de quinta-feira, conversamos com ele em seu modesto apartamento no bairro Sion, onde vive com Célia, sua mulher do segundo casamento, com quem está há 27 anos. A decoração da sala é simples. Fotos da família estão espalhadas por todos os cantos: das mais antigas, coladas a um álbum organizado pela mulher, às mais recentes, dos três netinhos (um deles com a camisa do Galo), sobre uma mesinha contígua à mesa de jantar. Na ponta da sala, um bar de meia altura, onde ele gosta de "bebericar e conversar com os filhos".

Ao assumir o mais alto cargo no estado, Alberto Pinto Coelho está radiante mas tranquilo. Conversa fácil e sorri todo o tempo (uma de suas marcas). Conta histórias e relembra memórias de família. Por exemplo, quando conheceu sua atual mulher. Ele fora para inauguração de um comitê jovem, durante a campanha de Itamar Franco ao governo de Minas, em 1986. Célia trabalhava como secretária no local. Assim que ele a viu, impressionou-se com a beleza da moça. Tímido mas galanteador, decidiu sacar do bolso um cartão de visita, em cujo verso escreveu: "Se você quer ser a ‘Garota do Fantástico’, me telefone". Na frente do cartão, além do nome completo e dos contatos, a logomarca da empresa em que trabalhava, Dentel, e o título de diretor. Dentel era a sigla para Departamento Nacional de Telecomunicações, uma espécie de agência estatal de regulamentação do setor à época. Escolhido por Itamar, era Alberto quem dava as cartas por ali. Tinha, portanto, ótima relação com a mídia, o que lhe conferia legimitidade para a oferta que fez à beldade, de 22 anos, e 17 mais jovem que ele.

Arquivo Pessoal
Com a mãe, dona Abigail Lima, mineira de São Domingos do Prata: professora primária, ela teve, além do governador, outros quatro filhos (foto: Arquivo Pessoal)
Célia, claro, achou a cantada barata (põe barata nisso), cortou a do moço e não lhe deu corda. Mas ele era renitente. Com paciência e estratégia, pôs-se a conquistá-la. Passou a frequentar o tal comitê com rara disciplina. Sempre galante e bem vestido, cumprimentava a moça e se descortinava em elogios. Ao final, convidava-a para jantar. Nada. Ele percebia, porém, que ela gostava dos elogios. Com jeitinho, persistiu, até que Célia cedeu. Começava ali um enlace, que resultaria em casamento apenas seis meses depois e em gravidez logo em seguida. "Foi uma paixão muito intensa e avassaladora", diz Célia. Mas, como nem tudo são flores, havia ali uma oposição. O pai de Célia, João Gonçalves, fazendeiro do tipo coronel, colocou-se francamente contra o romance. Chamou o pretendente e logo disse: "Homem que larga uma, larga duas. Não criei minha filha para se casar com sujeito desquitado e muito mais velho". João teve sete filhos, parte deles nascidos na cidade de São Francisco, Norte de Minas, onde ficavam suas terras (Célia nasceu lá); e parte nasceu em Uberlândia, para onde se mudou para melhor criar e educar os filhos. Célia veio sozinha para a capital a fim de cursar pedagogia e se tornar professora. Morava num pensionato e trabalhava para ajudar nas "despesas".

A resistência de João não significou para Alberto uma grande dificuldade, e ele decidiu partir para a conquista – e não para o confronto. Esperou a hora certa para agir. Percebeu que o nascimento do primogênito do casal, Daniel, hoje com 26 anos, era o momento ideal. Aproximou-se do sogro e passou a puxar conversa. Ficava horas de prosa com o "seu João". Ouvia tudo o que ele dizia – e todos os seus conselhos. "Ele (Alberto) é muito calmo e dessa forma foi cativando meu pai", diz Célia. Seu João faleceu há sete anos. Ele e Alberto tornaram-se amigos e afetuosamente ligados. "Meu pai sempre foi um homem reservado e mais seco", afirma a filha Célia. "A convivência com Bebeto (assim ela chama o marido) e com os netos tornou-o mais doce e amoroso." A sogra de Alberto, Célia Veloso Silva, continua morando em Uberlândia. É, hoje, uma senhora de 73 anos de idade que esbanja simpatia e educação. Conversamos com ela. "Eu tenho o Bebeto como um filho", diz a sogra. "Ele é muito amoroso e constante. Foi assim que conquistou a mim e a meu marido."

Eugênio Gurgel
Alberto e a primeira-dama Célia Pinto Coelho, com quem é casado há 27 anos e a quem ele chama de 'neném': "Bebeto é um cavalheiro, do tipo que abre a porta do carro e manda flores", diz ela (foto: Eugênio Gurgel)
Nas proximidades das eleições de 1990, José Aparecido de Oliveira (com quem Alberto tinha parentesco – a irmã dele casou-se com o irmão de José Aparecido) começou a dar alento ao grande sonho de Alberto Pinto Coelho Júnior: tornar-se político, assim como fora seu pai, Alberto Pinto Coelho, que foi deputado constituinte e presidente da Assembleia Legislativa de Goiás. Alberto Júnior nasceu em 1945, em Rio Verde, Goiás. Mudou-se para Belo Horizonte aos 3 anos, de onde nunca mais saiu, e aos 12 anos perdeu o pai. A intenção do mentor José Aparecido (morto em 2007) era a de lançar Alberto candidato a deputado estadual naquele pleito. Alberto estava esfusiante com a possibilidade e logo se filiou ao PRN, partido de Fernando Collor de Mello, com quem Itamar compunha chapa para disputar – e vencer – as eleições presidenciais de 1990. Alberto só pensava nisso e tinha pleno apoio da mulher, Célia. Mas logo cedo ele aprendeu que política é como nuvem: hoje é de um jeito; amanhã, de outro. Numa tarde ensolarada do início do outono daquele ano, José Aparecido chamou Alberto num canto e lhe disse: "Meu filho, você vai ter de esperar mais um pouco". Aparecido contou-lhe que tinha aceitado o convite para ser candidato a vice-governador de Minas na chapa encabeçada por Hélio Costa. Alberto precisava declinar da candidatura própria para se tornar coordenador da campanha."Não era o meu desejo, mas soube me resignar e aguardar a minha hora", disse Alberto. A experiência como coordenador também foi valiosa. "Éramos francos favoritos, mas acabamos derrotados pela nossa própria arrogância." As eleições foram vencidas por outro Hélio, o Garcia, velha raposa da política estadual. Fortuna dos tempos. Durante essa mesma campanha, um jovem professor da Faculdade de Direito da UFMG fez uma exposição sobre a nova Constituição Federal (de 1988) e suas implicações na administração pública para o então candidato Hélio Garcia. Estupefato, Garcia indagou ao fim da explanação: "Quem é esse menino que sabe tanto?". Era Antonio Augusto Junio Anastasia. Eleito, Hélio Garcia levou o menino para a política e fez dele seu secretário adjunto de Planejamento. Anastasia nunca mais deixou a política, mas seu caminho só veio a se encontrar com o de Alberto Pinto Coelho muitos anos mais tarde, por conta e obra de Aécio Neves. Mas essa é outra história.
 
Durante os quatro anos seguintes, Alberto se preparou para finalmente se lançar candidato em 1994, agora pelo PP, Partido Progressista. A essa altura a família já havia crescido. Depois de Daniel, ele e Célia tiveram uma menina, Paula, a única mulher dos quatro filhos de Alberto (do primeiro casamento, com a escritora de livros infantis Santuza Abras, vieram dois filhos, Alberto Neto e Alexandre). Foi eleito com cerca de 30 mil votos, mais do que suficiente para a época. No parlamento, encontrou-se profissionalmente. Em pouco tempo de casa, já era respeitado e conhecido pelos pares. Foi reeleito em 1998, quando Itamar Franco se tornava governador do estado. Tornou-se líder de bancada e, depois, líder do governo, a despeito de sua curta trajetória no parlamento. Acumulava amigos com seu sorisso fácil e conciliador. Contudo, diferentemente de seu líder na Assembleia, o governador Itamar Franco, conhecido pelo gênio difícil e temperamental, vivia às turras com os deputados, inclusive com o presidente da casa, Anderson Adauto, do mesmo partido de Itamar, o PMDB. Alberto era o ponto de diálogo entre governo e deputados. "Eu nunca o vi fazendo outro gesto que não o de estender a mão, até mesmo aos adversários", afirma o também deputado Gil Pereira, eleito para seu primeiro mandato no mesmo ano em que Alberto, 1994. Perto de terminar seu período como líder do governo, em 2000, Alberto foi chamado por Itamar. "Precisamos definir quem será seu sucessor na liderança de meu governo", disse o governador. "Estou pensando no deputado Tadeu Leite, o que você acha?", perguntou Itamar. "Depende do que o senhor deseja, governador", respondeu-lhe Alberto. "Se quiser um líder beligerante, para brigar, ele é o nome. Mas, se quiser alguém conciliador, capaz de dialogar com todos, sugiro Toninho Andrade (ex-ministro da Agricultura do governo Dilma Rousseff)". Itamar seguiu o conselho e fez de Toninho Andrade sua nova liderança.

Eugênio Gurgel
"Deus soube me retribuir: Acho que fui um bom vice para o governador Aécio e, por isso, recebi um excelente", disse Antonio Anastasia sobre Alberto Pinto Coelho (foto: Eugênio Gurgel)
Era chegada a hora de Alberto dar um passo adiante. A ordem natural dos fatos apontava-o como candidato a um posto de direção da Assembleia mineira, fosse o de presidente, fosse, no mínimo, o de vice-presidente da casa. Acertou com seu partido (e com os colegas) que seria o primeiro vice-presidente da casa. No entanto, como uma nuvem, os planos mudaram. O partido optou por lançar outro parlamentar para o posto. Dessa vez, Alberto reagiu com firmeza. Lançou seu nome como candidato avulso, independente. "Foi um susto", diz o filho Alexandre, que o assessorava no período. "Ninguém esperava por isso, destoava de seu estilo." Mas Alberto estava resoluto. Procurou, um a um, os deputados e pediu apoio. Acabou sendo o escolhido por maioria absoluta dos pares. A despeito da batalha, Alberto contornou o ambiente interno, e o clima com seu partido e adversários não ficou pesado. "Eu cheguei ao parlamento muito cedo, e políticos de primeiros mandatos, em geral, ocupam posição coadjuvante", diz o deputado Dinis Pinheiro, que também inaugurou sua trajetória parlamentar em 1994. "O Alberto era uma exceção. Desde o início, ele já era protagonista dos principais episódios da casa." Mas, por que razão? – perguntamos. "Ele é dotado de um espírito conciliatório fabuloso", afirma Dinis.  

A partir de 2003, voltou a ser líder de governo, agora sob a batuta de Aécio Neves, e em 2007, finalmente, Alberto Pinto Coelho alcançava o posto que almejava: presidente da Assembleia Legislativa mineira, fruto de suas habilidades. Se Alberto conseguia destacar-se num ambiente difícil, tenso, que diria em momentos serenos e de pujança. Durante o governo de Aécio Neves (2003-2010), Minas viveu um período de glórias e de absoluta tranquilidade política. Alberto cresceu junto. Foi um presidente exemplar e, praticamente, sem opositores. A Assembleia sobressaiu-se e ele foi reeleito. Era apontado em 2010 como "a bola da vez" ou a "noiva cobiçada" para compor chapa com os postulantes ao Palácio Tiradentes, sede do governo. Concorriam Antonio Augusto Anastasia e, vejam só, Hélio Costa, tido como favorito. Arlen Santiago, outro deputado, do PTB, disse à época: "O caminho que ele tomar será seguido por 60 parlamentares e dezenas de prefeitos do interior". Alberto estava com tudo. Ele sorria. Não teve dúvidas, seguiu junto a Aécio e Anastasia, contrariando o que apontavam as pesquisas, que davam amplo favoritismo a Hélio Costa. "Ele nunca perdeu uma eleição, não será desta vez", afirmou Célia Pinto Coelho, na ocasião. De fato, Alberto elegeu-se sucessivamente deputado, com crescente votação. Foi novamente vitorioso em 2010. 

Logo que assumiu o posto de vice-governador, um fato inusitado aconteceu na vida dele. Sua primeira mulher, Santuza, com quem nutre ótima relação, telefonou-lhe: "Precisamos conversar. Quero visitar-lhe no Palácio", disse ela. Alberto a recebeu como de costume, serenamente. Ela estava acompanhada dos dois filhos do casal, Alberto Neto e Alexandre. Sentaram-se no sofá e ela começou a exposição: "Andei pensando, Alberto, e cheguei à conclusão de que não preciso mais receber sua pensão", disse. "Você sempre foi um ótimo pai e excelente ex-marido. Nunca deixou faltar nada nem a mim nem a seus filhos. Hoje eu trabalho (ela é vice-reitora da Uemg) e posso me sustentar." Alberto não esperava por isso. Emocionou-se com o discurso da ex. Insistiu para que ela mantivesse os proventos da pensão, mas Santuza estava determinada. Entregou-lhe uma carta assinada e escrita de próprio punho, abdicando do benefício. "Ele encheu os olhos de lágrimas", lembra Santuza, uma mulher forte e independente que conversou conosco enquanto se recupera de um problema de saúde.

Divulgação
Durante campanha ao governo de Minas, em 2002: o partido, do qual Alberto é presidente regional, foi fundamental na coligação que elegeu Aécio Neves ao governo de Minas (foto: Divulgação)
A relação de Santuza e Alberto é outro fato pitoresco e que bem simboliza o estilo Alberto de ser. Ele a conheceu jovem, ambos adolescentes. Ela estava andando de bicicleta na rua, ele viu a menina e a abordou, meio sem jeito (próprio dos tímidos) . "Posso dar uma volta na sua bicicleta?", disse, sem nunca antes ter conversado com a moça. Ela deixou, ele mal pedalou e engatou uma conversa (ah, essas conversas… o que ele não consegue com isso...). Terminou em casamento. Hoje, Santuza só tem elogios ao ex-marido. "Ele sempre foi muito cuidadoso", diz ela. Prova disso é que Santuza votou em Alberto em todas as eleições que ele disputou. "Não apenas votei, faço campanha com o santinho dele no mercado", afirma. "Eu me considero a segunda mãe dos outros dois filhos dele e tenho ótima relação com a Célia, de quem gosto." Mas, Santuza, como isso é possível? – perguntamos. "Com equilíbrio", diz ela. "E isso o Alberto tem de sobra."

Como vice-governador, Alberto foi, acima de tudo, leal ao titular Anastasia. "Digo sempre que fui retribuído por Deus", disse Anastasia. "Acho que fui um bom vice para o governador Aécio e, por isso, recebi um excelente, que é o Alberto." Perguntamos qual o maior aprendizado que ele teve com o "professor" Anastasia. "Aprendi muito", afirma. "Mas é reconfortante ver como Anastasia não se deixa influenciar por nenhuma relação pessoal ou de amizade quando se trata do interesse público", diz.  Na fila da política mineira, era de Alberto o primeiro lugar quando se tratava da sucessão de Anastasia. Mês após mês, seu nome vinha se fortalecendo nos bastidores. Faltava, ainda, a bênção do grande líder, Aécio Neves. Seu partido, o PP, caminhava em direção a Aécio, embora formalmente ainda componha a base de apoio da presidente Dilma Rousseff, do PT. Se o PP rompesse com Dilma e se declarasse formalmente pró-Aécio, o caminho de Alberto estaria pavimentado. Isso não aconteceu e Aécio Neves foi buscar uma conhecida liderança de seu partido, o PSDB, para encabeçar a chapa de sucessão ao governo mineiro: Pimenta da Veiga, ex-prefeito de BH e ex-ministro das Comunicações de Fernando Henrique Cardoso. Alberto foi chamado para uma tarefa gloriosa, mas difícil para um político de carreira. Tornar-se-ia governador por nove meses, sucedendo Anastasia, que se desincompatibilizou para concorrer ao Senado, mas teria de abrir mão de disputar as eleições e, portanto, tornar incerto o seu futuro. Alberto lembrou-se de uma frase que seu mentor José Aparecido sempre lhe disse: "Um político não pode abrir mão de seu companheiro". Quando ouviu isso, Alberto respondeu: "Meu companheiro é você". Aparecido replicou: "Nada disso. O companheiro de um político é o mandato. Nunca abra mão de concorrer a um mandato".

JC Martins
Paula Pinto Coelho, filha caçula, e o melhor conselho dado pelo pai: "Não procure dinheiro, busque a felicidade" (foto: JC Martins)
Dessa vez, contudo, Alberto optou por contrariar seu mestre. Num primeiro momento, sentiu o golpe. Não era o que ele queria. Mas soube se resignar e aceitar a missão que lhe foi conferida. "Sou uma pessoa de grupo", disse Alberto. "Se este é o melhor caminho para o nosso grupo, contem comigo." Foi assim que ele respondeu ao chamado de Aécio Neves. Mais uma vez, Alberto era instado a esperar e, pacientemente, abrir mão de seus projetos pessoais. "Esse episódio demonstra o caráter dele", diz o secretário de Estado de Governo, Danilo de Castro, um dos mais frequentes interlocutores e amigo pessoal de Alberto. "Ele foi a primeira pessoa a absorver o fato e a embarcar de vez de na candidatura de Pimenta da Veiga", diz Danilo. "Foi um momento angustiante", disse a mulher Célia. "Mas ele logo superou." 

Num primeiro contato, Alberto Pinto Coelho dá a impressao de ser formal, sério. Ele se veste de maneira elegante e está sempre com os cabelos, já grisalhos, bem penteados. É, de fato, protocolar nos contatos formais. Já superou há muito a timidez, mas ainda é retraído e austero com interlocutores iniciais. Com os amigos, com quem goza de intimidade, é completamente diferente. Brincalhão, adora contar piadinhas. Ultimamente, exultante com o fato de se tornar governador, anda particularmente alegre e não poupa assessores e pessoas próximas de uma brincadeira. "Alberto é amigo e alegre. E essas características o acompanham na sua atividade política", diz o deputado federal Gabriel Guimarães (PT), uma das mais expressivas lideranças jovens do estado e ligadíssimo à presidente Dilma. Portanto, adversário político de Aécio e Alberto. O traço mais marcante da personalidade de Alberto Pinto Coelho é, sem dúvida, a fidelidade aos amigos e colaboradores. O novo governador de Minas tem entre sua equipe as secretárias Ana Flávia Generoso e Regina Campelo. A primeira acompanha Alberto há 20 anos; e Regina, há 42. "Trabalhar com ele é muito fácil", diz Regina. "Sabe reconhecer seus limites e respeitar o outro." A chefe de gabinete do novo governador é Denyse Costa. Trabalham juntos desde 1995. "Alberto é humano e confia nos assessores", diz ela.

JC Martins
Educação em terras estrangeiras: assim como a irmã, Paula, Daniel Pinto Coelho optou por jogar tênis e estudar em uma universidade nos Estados Unidos (foto: JC Martins)
Nossa conversa já dura quase duas horas. A mesa de café continuava intacta. Mas a prosa… corria solta. Sentamos à mesa, tão farta quanto as memórias de Alberto. Enquanto provamos os quitutes servidos (broa de milho, bolo, queijo canastra e frutas), ele se resume a uma xícara de café. "Não vai comer, governador?", perguntamos. "Pela manhã, sou frugal." Mas ele não resiste e lança mão de um pedaço de bolo. Desde que se tornou vice-governador, engordou cerca de dez quilos. Largou o personal trainer, deixou a esteira de lado, mas anda preocupado com a saúde. "Tenho de voltar", diz. Ele garante que foi esportista na adolescência (apesar de o físico atual teimar em desmenti-lo): "Fui atleta do futsal e do basquete". Aproveitamos para falar de futebol, viagens e outras frivolidades. Mas nenhum desses assuntos rende com Alberto. Os olhos brilham mesmo quando a conversa é sobre política. "É isso o que gosto", diz. "Penso em política 24 horas por dia." Pela manhã, logo que acorda (por volta das 7h), vai ávido em busca dos jornais. Prefere o meio físico. "Não sou dado a leitura eletrônica", diz. Não chega a ser avesso à internet, mas está longe de ser um nerd. Prefere que sua secretária receba e despache seus e-mails. Não usa, em caráter pessoal, nem Twitter nem Facebook. Depois de se arrumar impecavelmente, costuma separar de duas a três gravatas, a fim de submeter ao gosto da mulher. Célia decide: "Vai com essa". É religioso, mas não praticante. Suas crenças e supertições, contudo, estão sempre presentes. Nunca sai de casa sem antes dirigir-se à imagem de Nossa Senhora de Fátima que comprou em uma loja em Portugal e que está abrigada na sua sala de ginástica. De olho na santa, faz o sinal da cruz e ruma para o elevador. Almoça quase sempre no Palácio Tiradentes, em seu gabinete, quando aproveita para despachar com interlocutores. O almoço é leve, em geral, peixe, e fruta de sobremesa. Mas o jantar… "A atividade política nos leva a discutir assuntos em torno de uma mesa", diz. É apreciador de carnes e bons vinhos. É comum encontrá-lo nos fins de semana almoçando nas principais casas de carne da capital. "Eu gosto de tudo o que engorda."

Com a vida dedicada às atividades políticas, Alberto nem sempre conseguiu acompanhar o desenvolvimento dos filhos. Os dois mais novos, Daniel e Paula, decidiram fazer faculdade nos EUA. "Minha mãe é quem ficava preocupada, ligando a todo instante", diz Paula. "Mas ele era o conselheiro. Na angústia, recorria sempre a ele." Dos conselhos que ouviu, Paula gravou consigo um deles: "Ele me dizia: ‘Minha filha, não procure dinheiro; busque a felicidade’". Também na política, Alberto tem aqueles que o ouvem. O atual presidente da Assembleia e candidato a vice-governador, Dinis Pinheiro (PP), é um deles: "Ele é meu conselheiro permanente".

Arquivo Pessoal
Santuza Abras, mulher do primeiro casamento, com os filhos do casal Alberto Neto e Alexandre: "eu não só voto nele, como sempre fiz campanha no mercado",diz a ex-mulher (foto: Arquivo Pessoal)
Desde o início deste mês, Alberto Pinto Coelho é o governador de Minas Gerais. Ele inaugura um momento histórico. Será o primeiro presidente do parlamento mineiro que ascende ao cargo máximo do governo. "Ele deu importância à classe política", diz o dirigente da classe empresarial Olavo Machado, presidente de Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas). A gestão de Alberto no governo deve ser pautada por momentos tensos: são esperadas manifestações durante a Copa, e o período eleitoral, como se sabe, traz sempre surpresas. Isso, contudo, não o aflige. "Sou especialista em dialogar", diz. "Quem respeitar o bem público e a população também será respeitado." Cuidadoso ao falar, é raro ver o atual governador dirigir palavras ásperas até mesmo aos adversários. Mas ele não poupa a presidente Dilma. "Eu ponho em dúvida a capacidade técnica que ela afirma ter", diz.

De repente, o celular do governador, deixado no silencioso junto ao álbum de fotografias, em cima do aparador da sala, começa a piscar incessantemente. Era sua secretária, Ana Flávia. Ele faz uma pausa e pede um minuto para atender. Levanta-se da mesa – que continua com o café da manhã servido – e pergunta as horas. Eram 13h40. "O QUÊ?!, UMA?!", reagiu ele. "Perdi meu almoço", afirmou.
 
Atende o celular. "Flávia, ligue lá e peça desculpas. Veja se ainda dá tempo", disse, com certo apavoramento. Ele anda de um lado para o outro, com o telefone em mãos. 
O visor pisca. Flávia fala: "Dá sim, estão te esperando". "Ufa!", ele sorri aliviado. "Gente, me desculpe, preciso me trocar", diz, antes de ir apressado para o quarto. Volta em cinco minutos, vestido com sapatos e terno pretos, camisa branca e gravata vermelha de listras. "Nossa Senhora... Ficamos quase três horas e nem vi o tempo passar", diz ele. 
 
Mas, governador, ainda não falamos sobre o Pimenta da Veiga. "Ele será um governador brilhante: é muito preparado. Mas vamos marcar outra conversa", diz ele. "Essa foi tão boa." E abre aquele sorriso.
 
Editoria de Arte
Clique para ampliar (foto: Editoria de Arte)
 

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