"Não há glamour em governar"

Candidato ao Senado, ele deixa o governo de Minas como um dos gestores mais bem avaliados do país e com a certeza de que é grande puxador de votos

por Sergiovanne Amaral e André Lamounier 07/04/2014 13:27

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Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)
Aos 52 anos, Antonio Anastasia deixa o Palácio Tiradentes antes do fim do seu mandato para coordenar a campanha do senador Aécio Neves, pré-candidato à Presidência da República, e a sua própria campanha rumo ao Senado. Deverá ser eleito com maciça votação. E não mudou. Continua cultivando hábitos simples, como andar pela cidade sem seguranças.  E acha que governar é uma função como tantas outras: "Estou aqui para atender às pessoas". Prova de que a imagem de personalidade política e grande puxador de votos, que conquistou,  não lhe subiu à cabeça. Segundo a mais recente pesquisa de opinião, realizada em dezembro de 2013, que avaliou o desempenho dos governadores brasileiros, Anastasia tem a aprovação de 63% dos mineiros, ficando entre os cinco mais bem avaliados do país. "Minas é o estado que tem a melhor administração do Brasil", diz Anastasia. "Quem afirma isso não sou eu, é o Banco Mundial e o Banco Interamericano." Há 12 anos sem tirar férias longas, ele pretende descansar por algumas semanas, antes de mergulhar de vez nos novos desafios. "Fiz o melhor que pude", diz. "Mas o título de professor é o que mais me honra."

Encontro - O senhor é um político fora do padrão: pontual, atende todo mundo, dispensa seguranças. Acha que está criando um jeito novo de fazer política no Brasil? 
Antonio Anastasia - Seria muito pretensioso se achasse isso. Cada um tem um estilo e o aplica em suas atividades profissionais. Não é um estilo novo, é a minha personalidade. Como eu, há outros nessa linha. Cortesia, atenção, educação e responsabilidade decorrem da minha formação de servidor. Sei que estou aqui para atender as pessoas e resguardar o interesse público. 

O senhor tem dificuldade em dizer não? 
Pelo contrário. Digo com tranquilidade. Quem exerce um cargo público com a responsabilidade que eu tenho tem de dizer não. Mas dizer de maneira elegante, cortês. Isso também é fundamental. 

Quando o senhor assumiu o governo, era chamado de "professor Anastasia", tendo em vista seu perfil técnico. Hoje, é respeitado como uma grande liderança política e todos se referem ao senhor como "governador Anastasia". Trata-se apenas de uma troca semântica ou a percepção das pessoas realmente mudou?
Minha origem é acadêmica. Acabei exercendo funções políticas muito cedo, como secretário de Estado e, depois, em Brasília, no governo federal. A distinção que fizeram no começo entre político e técnico, na verdade, não existe. Quem está em um cargo político precisa ter conhecimento técnico e, para exercer funções técnicas, precisa ser político. Nossa paciência e boa vontade em ouvir a sociedade e parlamentares consolidaram a imagem de uma personalidade política. Deixo o governo com a consciência tranquila. Fiz o melhor que pude. Apesar das dificuldades financeiras na União, a situação em Minas é relativamente boa. Independentemente disso, o título de professor é o que mais me honra.

Mas em que medida ter sido governador influenciou no seu jeito de ser? 
Do ponto de vista prático, fiquei mais inibido, porque, mesmo sem querer, minha presença acaba constrangendo as pessoas. Vou a uma festa como Antonio Augusto, mas as pessoas enxergam o governador do estado. Outro dia, fui almoçar em um restaurante com amigos e, na mesa ao lado, havia uma senhora muito distinta. Ela veio até mim: "Desculpe incomodar, mas queria dar os parabéns por ver o senhor aqui almoçando como uma pessoa comum, sem seguranças’" Na medida do possível, tento levar isso adiante. Quem é governador, prefeito ou ministro tem de dar o exemplo. Portanto, tem de policiar suas atitudes permanentemente. 
Não há glamour em governar.

Qual foi o maior feito do seu governo? 
Os resultados na educação. Ocupar, por duas edições consecutivas (2011 e 2013), o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Brasil é algo muito expressivo, em um estado que ainda tem, lamentavelmente, muitas desigualdades regionais. Rio de Janeiro e São Paulo têm maior homogeneidade interna, mas, de todos os estados brasileiros, Minas Gerais tem, de longe, a melhor administração do Brasil. Quem diz isso é o Banco Mundial, o Banco Interamericano, os outros governadores. 

Como cidadão, o senhor teria receio de andar pelas ruas de Belo Horizonte com relógio no pulso? 
Todo cidadão, hoje, tem receio. A sensação subjetiva de segurança é muito baixa. Fui secretário de Defesa Social e, mesmo que as estatísticas melhorem ou piorem, o sentimento das pessoas é maior. Dos 27 estados, Minas é o quarto com menor índice de homicídios, mas um caso, por si só, já é lamentável. Enquanto não resolvermos o problema das drogas, vamos ter muitas dificuldades. E isso é responsabilidade do governo federal. O Brasil não produz cocaína. Ela entra no país por falta de efetivo nas fronteiras. 

Por isso tem dito que a segurança pública é a área que mais o preocupa? 
A área de segurança acaba tendo fatores que são exógenos ao governo. Há a questão da droga, que afeta o comportamento das pessoas, e a própria sociedade brasileira, que é violenta. O grande tema das eleições de 2014 será segurança pública. Ainda assim, os investimentos cresceram mais que três vezes no meu governo. Minas é, hoje, segundo o Ministério da Justiça, o estado que mais investe na segurança pública em relação ao seu orçamento.

O senhor relutou em aceitar a convocação do senador Aécio Neves para se lançar candidato ao Senado e manifestou desejo de se dedicar a questões pessoais e à iniciativa privada? 
Não, isso é uma lenda. Venho de uma família que, pelo lado do meu pai, é da área comercial, mas, pelo lado da minha mãe, é de servidores. Tenho vocação para o serviço público. Advoguei por um tempo, mas nunca me senti completo. Gosto das funções da administração. Não enriquece as pessoas, mas tem me dado uma condição razoável de vida. Nunca imaginei que pudesse ser político com mandato. 

Há quatro anos, o senhor definiu a presidente Dilma como uma pessoa dedicada e competitiva. Ainda acha isso?
Tenho com a presidente um relacionamento pessoal harmonioso, cordial e respeitoso. Sob o ponto de vista político, temos visões e estilos diferentes. O que lamento é que o governo federal fica devendo em relação às grandes obras estruturantes de Minas Gerais, que são de responsabilidade dele. Costumo dizer que, enquanto fizemos a Linha Verde, a Infraero não conseguiu trocar a escada rolante do aeroporto de Confins. O governo federal tem grandes lacunas de eficiência.

Quais características mais chamam a atenção no atual governador Alberto Pinto Coelho? 
É uma pessoa muito dedicada. Ficou ao meu lado esse tempo todo, administramos o estado conjuntamente. Tivemos aqui reuniões semanais de governança e ele participou de todas as decisões, de todos os projetos. É muito leal, extremamente paciente, equilibrado e experimentado na vida política e profissional.  

O candidato do PSDB à sucessão, Pimenta da Veiga, é um dos políticos mais tradicionais. Por outro lado, muitos dizem que é pouco conhecido da nova geração. O senhor acha isso uma incoerência? 
Pelo contrário. Política são circunstâncias. Quando fui vice de Aécio, as circunstâncias me levaram a ser escolhido mesmo sem experiência parlamentar. Agora, as circunstâncias são outras. Não sei se seria o mais adequado repetir agora, nesta sucessão, o mesmo perfil que o meu. 

Quando assumiu o governo, uma preocupação que o senhor tinha era o fato de estar acima do peso. Como se sente hoje? É difícil ser governador e cuidar de si mesmo?
É, reconheço que piorei. É difícil por causa do tempo. Nunca fui muito adepto de exercícios, mas por recomendação médica comecei a fazer caminhada. Tive de parar porque tinha de acordar às 5h. O cansaço chega a um ponto que você não aguenta. Meu hábito alimentar não é bom. Não bebo álcool e não fumo, mas gosto de doces, e eles engordam. 

Como bom atleticano, há quem diga que o senhor vai torcer para a Argentina na Copa do Mundo. É verdade?  
Fico feliz de a Argentina ter escolhido a Cidade do Galo para se instalar. Teremos aqui também Chile e Uruguai. Belo Horizonte está bem redondinha para receber a Copa do Mundo. Vou torcer para o Brasil ser campeão. Imagine a frustração do povo se isso não acontecer? Teremos jogadores do Atlético na seleção que vão colaborar para que o Brasil saia vencedor e deixe todos os atleticanos felizes da vida. 

Antes de se empenhar nas eleições, vai sair de férias? Para onde vai?
Merecidas, né?! Estou há 12 anos sem férias longas. Vou ficar três semanas fora do Brasil. Com esse período maior, volto com mais força e mais animado. 

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