"Vivemos uma grave crise moral"

Arcebispo metropolitano de BH critica a falta de credibilidade dos políticos e diz que a sociedade precisa ser mais responsável na escolha dos candidatos

por João Pombo Barile 07/04/2014 14:35

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Samuel Gê
(foto: Samuel Gê)
Há dez anos no comando da arquidiocese de Belo Horizonte, completados no mês passado, o religioso baiano dom Walmor Oliveira de Azevedo parece ter aprendido com os mineiros um ensinamento: a importância de trabalhar em silêncio.  Assim, aos poucos, e sem fazer alarde, além de desenvolver trabalhos sociais por toda a cidade, comanda pessoalmente a construção da Catedral Cristo Rei. O novo templo, sonho de quase um século e que começou ainda na época do primeiro chefe da Cúria de BH, dom Antônio dos Santos Cabral (1884-1967), vai aos poucos se transformando em realidade. Graças, em grande parte, à determinação do religioso.

Mas, além de homem de ação, dom Walmor é, sobretudo, homem de pensamento. Membro da Academia Mineira de Letras, no ano passado, ele lançou o livro Ética em Diálogo, que traz artigos escritos nos últimos anos sobre temas que vão da política a valores pessoais. Nesta entrevista, ele fala sobre o avanço da Igreja Católica no primeiro ano do pontificado do papa Francisco, sobre a preocupação em banir casos de pedofilia no âmbito da Igreja e critica os rumos da sociedade, que percebe cada dia mais voltada para o consumo densenfreado. Em relação à política, considera que cabe aos eleitores moralizar o Congresso, a partir de escolhas certas: "Precisamos de lideranças mais sérias. De pessoas, de fato, com mais palavra e com melhor conduta", diz.

ENCONTRO – O pontificado do papa Francisco completou um ano. Houve uma guinada nos rumos da Igreja?
DOM WALMOR – O papa Francisco é, de fato, um grande dom de Deus. Com sua simplicidade, jeito direto e transparente, sua competência pessoal e intuições, ele faz a Igreja alargar seu horizonte e retomar metas importantes. Faz com que a Igreja se fortaleça não como poder, mas como servidora, como aquela que tem a grande tarefa de ajudar as pessoas a se encantarem e se deixarem seduzir pelo Evangelho. Em um ano de pontificado, veio essa força que nos toca internamente e ao mesmo tempo toca a sociedade. Ele é a força que o Evangelho tem quando é acolhido e vivido.

E em relação aos gays na Igreja Católica, há hoje um novo posicionamento? 
A posição do papa Francisco é a posição da Igreja de maneira completa. Primeiro, porque há o respeito a cada pessoa. Como está escrito no Evangelho, cada pessoa vale mais do que o mundo, seja esta ou aquela a sua escolha ou caminho. Assim, o tratamento que deve ser dado sobre a homossexualidade pela Igreja, como ele assinalou, não é a execração das pessoas, de condenação, é de respeito. Por isso, quando o papa diz: "Quem sou eu para julgar?", ele está dizendo que a proposta do Evangelho, a proposta da moral do Evangelho, nós não negociamos. Mas nós caminhamos respeitando cada pessoa no seu passo.

E quanto ao casamento gay?
Em relação à união homoafetiva não se pode, é claro, como muitos propõem, fazer uma equiparação ao matrimônio. Se há, no contexto da sociedade, um modo de considerar direitos mútuos, isso não pode ser equiparado a matrimônio, porque matrimônio é uma aliança estabelecida entre um homem e uma mulher. Portanto, uma compreensão muito clara e muito ajustada.

O papa tem dado declarações muito duras contra a pedofilia. E punido alguns membros da Igreja. Qual o reflexo dessa atitude?
A pedofilia é, para a Igreja, um problema gravíssimo. Não só quando envolve clérigos, mas também quando envolve outros segmentos da sociedade, como, lamentavelmente, as próprias famílias. Um problema grave, um crime. Não devemos ter nenhuma condescendência no sentido de deixar de considerar o crime que é. No âmbito interno da Igreja, é muito claro que esse problema existiu. Esperamos que não exista mais. Mas não estamos imunes de que aconteça, pelas estreitezas da estrutura humana afetiva das pessoas.

A pedofilia acontece mais dentro da Igreja do que no resto da sociedade?
Na verdade, o que acontece dentro da Igreja, comparativamente com outros segmentos sociais, não é, certamente, a porcentagem maior. Porém, há uma repercussão forte quando os casos noticiados envolvem clérigos. Clérigos que devem ser, acima de tudo, respeitosos, servidores, autênticos, transparentes, verdadeiros e equilibrados. Não perfeitos, porque ninguém o é. Mas com a competência necessária e a moralidade e o equilíbrio indispensáveis para anunciar o Evangelho e ajudar as pessoas no seu caminho e na sua maturação. Por isso, para a Igreja, é muito claro: a sociedade deve dar conhecimento àqueles que incorrerem em atos de pedofilia, para que possamos tomar as devidas providências, que é o afastamento, a apuração e a consequente punição adequada. O terrível fato da pedofilia deve ser banido.

Nos últimos anos, no país, a criminalidade não para de crescer. Como o sr. avalia essa situação?
O aumento da criminalidade é algo terrificante e que precisa de providências adequadas. E estas devem se dar a partir do governo federal. É claro que envolvendo as outras instâncias, estadual e municipal, mas devem ser comandadas pelo governo federal. Temos de repensar a segurança pública.  Temos de repensar leis.

Mas o que, especificamente, estaria incitando esse comportamento na população?
O funcionamento do Congresso Nacional, por exemplo. A falta de credibilidade deste Congresso só ajuda a piorar as coisas. E exige de nós, sobretudo neste ano eleitoral, pensar e repensar os nomes que se põem como candidatos. Precisamos de lideranças mais sérias. De pessoas, de fato, com mais palavra e com melhor conduta. Pessoas que possam efetivamente ajudar a construir uma sociedade mais fraterna, justa e solidária. Além disso, outro aspecto importante, se queremos mesmo melhorar a segurança, é preciso acabar com a grande morosidade governamental para dar resposta às necessidades de infraestrutura. E que causam revolta. E que acabam gerando uma reação inadequada e que complica ainda mais o cenário de violência.

Vivemos uma crise?
Sim. Uma crise moral. Por baixo, na raiz da criminalidade, está uma gravíssima crise moral do governo federal.
 
Uma crise moral que parte do governo federal?
Parte do governo federal, mas não só. Inclui ainda as famílias e todas as instituições da sociedade. Todos somos responsáveis quando tratamos as coisas que têm valor primeiro de maneira muito descartável. Exatamente porque somos empurrados a priorizar o que nos é cômodo, o que nos traz lucro, o que nos faz estar acima dos outros, o que nos faz ganhar poder. É claro que as estratégias e as logísticas da segurança pública são determinantes e indispensáveis. Mas é preciso um trabalho de moralidade muito profundo. E note: não estou falando de moralismo. Mas de moralidade. Precisamos reencantar pessoas, para que elas compreendam que o importante é fazer o bem. E que, mais importante do que pensar primeiro em mim, é pensar no outro, sobretudo quando o outro é o pobre, o sofredor, o inocente e o indefeso.

Quando se fala em diminuir a criminalidade, uma proposta que sempre volta à tona é a pena de morte.  O sr. vê essa punição como solução?
Sou contrário à pena de morte. A prioridade de cada um de nós deve ser sempre a dignidade humana. Este é um princípio à luz da fé e dos valores do Evangelho. E um princípio inegociável. Portanto, somos desafiados na inteligência, na intuição, na espiritualidade e na nossa formação humanística a trabalhar, mesmo que seja em longo prazo, na aposta que é a recuperação de pessoas. Ainda que seja verdade que encontraremos pessoas que, lamentavelmente, entraram numa decomposição humana e moral a tal ponto que sua recomposição para o convívio social pode ser quase impossível. Porém, nós não podemos deixar de apostar nessa recuperação. Não podemos deixar de apostar na vida de cada pessoa. 

A redução da maioridade penal é um caminho?
Certamente, não é a solução. Somos desafiados para uma solução mais conjuntural, estrutural, educativa e espiritual. Se não tratarmos bem a escola onde esses adolescentes e menores estão e se fizermos dela um antro de deseducação e de desvio, o que vamos colher? 

As manifestações de rua ocorridas por todo o país no ano passado surpreenderam até mesmo pelo grande número de pessoas que reuniu. Como  explicar esses movimentos?
As explicações são muitas. Por isso mesmo, ouvíamos durante aquela época: mas qual é a bandeira? O que eles querem? Essas manifestações foram um alerta da sociedade a dirigentes e às instituições: não dá para continuar como está.  É preciso que todos prestem atenção: instituições religiosas, políticas, educacionais. Enfim: todos os que têm poder de decisão. É preciso que todos se conscientizem de que nós precisamos de mudanças. E de mudanças profundas. E aí, portanto, há uma lista. Se nos anos das Diretas Já havia algo de muito pontual, definido, agora é diferente. Isso ocorre em razão da multiplicidade que marca o terceiro milênio, das várias necessidades e das exigências. Além disso, não podemos nos esquecer de outro fenômeno importante dessas manifestações, que foi a participação dos jovens.

Os jovens brasileiros acordaram?
Exato. Estávamos acostumados a ouvir que a juventude deste tempo, desde o início de terceiro milênio, era adormecida. Sabemos agora que não é bem assim. Ela acordou. Lamentável, apenas, foi o caminho da violência, da depredação e dos grupos que se infiltram por outras razões, maculando essa voz que é límpida e que mostra claramente a necessidade de mudanças. Esperamos que essas vozes continuem a ecoar, mas sem violência.

Em várias situações, o papa vem chamando a atenção para os riscos do consumo exagerado. Essa tornou-se uma luta da Igreja?
O papa Francisco sempre adverte que a Igreja não pode cair num mundanismo espiritual. Para dizer mais claramente, a vivência da fé e da espiritualidade não pode conviver com os exageros do consumismo, com a sedução das comodidades. É com essa visão de mundo que o mercado se impõe na mentalidade das pessoas. Por isso, o testemunho dele é importante. E vai trazer, cada dia mais, luz sobre testemunhos de pessoas que vivem com simplicidade, são próximas dos outros, amam os pobres, repartem o que têm, vivem desapegadamente e no poder que exercem não são arbitrárias. 

Em março, o sr. comemorou dez anos como arcebispo de Belo Horizonte. Que balanço faz da década?
A década tem sido uma escola para mim, e aprendi muitas lições importantes. Em primeiro lugar, a missão do quanto é importante respeitar e reverenciar a história construída por aqueles que vieram antes. Embora a arquidiocese não seja tão antiga, com 93 anos, ela tem uma história rica e tem ajudado muito na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. 

O sr. hoje é responsável por mais de 270 paróquias, dez santuários, além de colégios e universidades, e trabalha para viabilizar o projeto da catedral. Como começou essa história?
Desde o início, eu sempre perguntava aos fiéis: "Vocês acham mesmo que devemos fazer uma catedral? Ela é mesmo necessária?". Uma pergunta que comecei a fazer em 2004 e que se estendeu até 2010. E a resposta sempre foi a mesma: construir a catedral em BH só valerá a pena se tiver um sentido genuíno de catedral. E o que quer dizer isso? A catedral deve representar, ao mesmo tempo, um lugar da espiritualidade, da liturgia, mas também da educação, da formação das pessoas. Assim, se por um lado a catedral é a igreja-mãe de uma diocese, por outro é o lugar da cultura, da educação. Não podemos esquecer que grandes universidades, ao longo da história, surgiram a partir das catedrais. Elas têm um grande papel na cultura da sociedade. 

Frei Claúdio é conhecido pelas pregações abertas de tendência social. Mas qual é a explicação oficial para o afastamento dele das missas na igreja de Nossa Senhora do Carmo, no início deste ano?  
A arquidiocese caminha numa experiência de fidelidade ao magistério da Igreja, às verdades do Evangelho e no respeito à liturgia, que não é apenas um rito, mas, sim, a unidade da Igreja na celebração da eucaristia. Portanto, esse é o nosso caminho. Nós temos, no contexto da arquidiocese, o clero diocesano e o clero religioso. Do clero religioso esperamos a fidelidade, a seriedade e a autenticidade do exercício ministerial. O que se espera é que a arquidiocese viva na unidade.
 
Falando mais claro: frei Claudio poderia ameaçar essa unidade?
Eu pedi ao superior, a partir daquilo que é dito sobre frei Claudio, e estou esperando essa correspondência, para saber se aquilo que é dito corresponde ou não. Com base na posição dos responsáveis carmelitas, vamos tomar uma decisão em nome da unidade. 

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