Como ficou a nova rede hoteleira

Dos 78 hotéis previstos, apenas 23 beneficiados pela Lei da Copa cumpriram o prazo, abrindo quase 4 mil novas vagas em BH. Mas representantes do setor divergem sobre a real capacidade da capital de absorver tantos empreendimentos

por Rafael Campos - Revista do Correio 10/04/2014 11:58

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Nitro Imagens
Fachada do hotel Tulip Inn, Empreendimento da Direcional Engenharia, na Savassi: inauguração no prazo estipulado pela Lei da Copa (foto: Nitro Imagens)
A aposta foi feita há dois anos, quando Belo Horizonte assistiu a um boom de lançamentos de projetos hoteleiros motivados pela Copa do Mundo, que será realizada no Brasil neste ano. Agora, é hora de contabilizar os resultados. Dos 78 projetos beneficiados pela Lei Municipal 9.952 – que, entre outras mudanças, permitiu ampliar a área de construção do terreno –, 23 ficaram prontos no prazo e 31 sequer saíram do papel. Os 24 restantes encontram-se com as obras atrasadas e não foram entregues no prazo, que se encerrou no último dia 31 de março.

Sobre os projetos atrasados, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informa que ainda está realizando vistorias nas obras beneficiadas pela lei para decidir que providências tomar. De acordo com a Câmara do Mercado Imobiliário (CMI/Secovi-MG), há previsão de multas, que variam de acordo com o tamanho do empreendimento. Um dos principais motivos apontados para justificar os atrasos tem relação com a mão de obra cara e escassa, devido às grandes obras realizadas na cidade em função do Mundial da Fifa. A previsão é de que os hotéis retardatários sejam inaugurados a partir de 2015.
 
O cenário, porém, não inviabilizará a hospedagem do público da Copa na cidade. BH vai ganhar mais de 3,7 mil novos apartamentos para o Mundial.  O Tulip Inn foi um dos hotéis que abriu as portas no prazo. O gerente comercial da Direcional Engenharia – responsável pelo empreendimento –, José Júnior Bosco, comemorou a entrega. "A carência de hotéis era visível em BH. Estamos contribuindo para o legado que ficará para a cidade", diz. A construtora entregou outros empreendimentos hoteleiros: o Go Inn Del Rey, no bairro Caiçara, e o Ibis Styles, no São Luiz, região da Pampulha.

Léo Araújo
Patrícia Coutinho, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis: "Nos anos 1990, já passamos por um sucateamento na hotelaria e podemos enfrentar um novo período complicado" (foto: Léo Araújo)
A bandeira Ramada, do grupo Wyndham, também apostou pesado em terras mineiras e até o fim do ano pretende entregar mais seis hotéis. Para a Copa, acaba de abrir as portas do Ramada Encore Minascasa. O empreendimento enquadra-se na categoria econômica e leva vantagem no turismo de negócio por estar no caminho do aeroporto internacional de Confins, na avenida Cristiano Machado, região Nordeste. "Vamos surpreender os nossos clientes, pois temos como foco uma hotelaria essencial, ou seja, camas confortáveis, excelente chuveiro, iluminação e ambientação adequada", diz Érica Drumond, CEO da Vert Hoteis, parceira do grupo Wyndham.  No bairro São Pedro, região Centro-Sul, foi inaugurado o Hotel & Spa Toscanini. "A procura já é grande", afirma Cláudio Neves, sócio-diretor da Dominos Incorporadora e Construtora, responsável pela construção e pela gestão do hotel.

A bandeira internacional Tulip também está contando os dias para entregar um dos projetos hoteleiros mais ousados da cidade, o Golden Tulip, na rua Rio de Janeiro com avenida dos Andradas. Entretanto, a inauguração do prédio, que terá unidades de quatro e cinco estrelas, está atrasada. "Trata-se de um retrofit (modernização de um prédio já existente), por isso surge muito coisa não prevista", afirma Bernardo Farkasvolgyi, arquiteto responsável. Houve também atraso na vinda dos vidros alemães que revestirão a fachada do edifício de 27 pavimentos. Apesar dos problemas, Farkasvolgyi acredita que o hotel será inaugurado ainda em maio.

Com adiamentos ou não, o certo é que o parque hoteleiro de Belo Horizonte vem ganhando cara nova. "Estamos saindo de uma cadeia hoteleira familiar para nos transformar em uma de rede, portanto, mais qualificada", afirma José Aparecido Ribeiro, consultor em hotelaria. Maarten Van Sluys também é um dos principais consultores do setor no estado. Ele afirma que a forma de investimento também mudou. "Não se constrói mais um hotel com capital concentrado, mas, sim, pulverizado, ou seja, com muitos investidores", explica. O especialista não acredita na especulação de que haverá um período negro no segmento. "Não creio em quebradeira de hotéis. Isso é lenda. O fechamento de hotéis é um processo natural de oxigenação do mercado", afirma Maarten.

Cláudio Neves/Divulgação
Renata de Abreu e Cláudio Neves, da Dominos Incorporadora e Construtora, responsável pelo Hotel & Spa Toscanini, que acaba de ser inaugurado: "A procura já é grande", diz Cláudio (foto: Cláudio Neves/Divulgação)
Prova de que o setor está confiante, independentemente do evento da Fifa, é a confirmação de que outra badalada marca, finalmente, deve se fixar aqui. Depois de tentar instalar o luxuoso Hotel Fasano no prédio do Ipsemg, na praça da Liberdade, o projeto foi confirmado, em parceria com a construtora mineira Concreto, na rua São Paulo, no bairro de Lourdes, região Centro-Sul. "Há quatro anos buscávamos viabilizar um Hotel Fasano na cidade. Nós nos dedicaremos ao máximo para que nossa hotelaria e gastronomia sejam um sucesso em Belo Horizonte", diz o restaurateur e hoteleiro Rogério Fasano. A previsão é de que ele seja inaugurado em 2016.

Evandro Negrão de Lima Júnior, presidente da Câmara do Mercado Imobiliário (CMI/Secovi-MG), acredita que a lei cumpriu seu papel de fortalecer o setor hoteleiro da cidade e que agora haverá uma readequação normal de mercado. "Os novos empreendimentos tendem a tomar os clientes dos mais antigos", diz. Patrícia Coutinho, presidente da Associação Brasileira da Industria de Hotéis (ABIH-MG), não concorda com o prognóstico. "Nos anos 1990, já passamos por um sucateamento na hotelaria e podemos enfrentar um novo período complicado, caso não sejam tomadas ações para sustentar essa nova safra de hotéis", diz Patrícia. De acordo com ela, BH ainda sofre com a falta de espaços para realização de eventos. "Há pessoas que investiram seu patrimônio nesses hotéis e correm o risco de ter um retorno abaixo do esperado, pois o valor anunciado foi baseado nos picos do setor", diz.

Waleska Silva, diretora adjunta de planejamento e comercial da Bristol, também está apreensiva. "Temos mais empreendimentos no mercado e a taxa de ocupação tende a sofrer uma queda, de acordo com as estimativas", diz. Segundo Waleska, 2013 fechou com a taxa de 64% de ocupação nas unidades hoteleiras da bandeira e, neste ano, a estimativa é de 59%. "Se não houver alteração das políticas governamentais e a criação de mais espaços de eventos, os anos seguintes tendem a seguir esse cenário", afirma. A bandeira Bristol, da rede Allia Hotels, está prestes a inaugurar o Bristol Convention, no bairro Calafate, região Oeste BH. Rodrigo Hespanhol, gerente regional de vendas da Bristol Hotels, considera que ainda há muita incerteza no setor. "Não sabemos o que vai acontecer." Contudo, sobre a demanda da Copa, Hespanhol revela que a procura já é grande pelos quartos na nova unidade da rede, que será inaugurada em breve.


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