Infância conectada

Mesmo antes de aprender a falar, as crianças já estão ligadas a internet, jogos e aplicativos. Mas tablets, videogames, notebooks e smartphones são mesmo os brinquedos ideais para essa turminha?

por Pabline Félix 16/04/2014 12:24

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Paulo Márcio
Felipe e a mãe, a arquiteta Isabela: "Eu já limitava o tempo dele no tablet, mas, quando ele deu um chilique por conta de um bichinho de estimação virtual, tomei birra", diz ela (foto: Paulo Márcio)
Não é a boneca da moda, nem o carrinho mais "envenenado" do momento, tampouco bola, bicicleta ou skate. Os presentes mais pedidos pelas crianças no último Natal foram artigos tecnológicos: videogames, tablets, smartphones e notebooks são os objetos mais desejados por pequenos de todas as idades. Mesmo aqueles que ainda nem sabem ler já demonstram interesse e particular domínio do funcionamento de gadgets e, assim, fazem parecer que nasceram, crianças e novidades tecnológicas, um para o outro.

Segundo pesquisa da Common Sense Media, organização americana dedicada a buscar informações sobre mídia e infância, em 2013, a quantidade de crianças com menos de 2 anos que já usou um tablet ou um smartphone para jogar, assistir a vídeos ou ver conteúdos de mídia nos Estados Unidos chegou a 38%, número quase quatro vezes maior do que em relação a 2011, quando atingia apenas 10%. No Brasil, as pesquisas sobre a área ainda são incipientes, mas não há dúvidas de que estamos no mesmo caminho. E nessa hora surge a dúvida: os pais devem atender ou não ao desejo da criançada e permitir sua entrada no mundo tecnológico, já que, fora do universo infantil, estão todos conectados?
 
Para a psicopedagoga Cristina Silveira, o caminho é o do equilíbrio. "A tecnologia já é uma realidade e estamos cada vez mais envolvidos por ela. É usada em escolas para intervenções pedagógicas, pesquisas, trabalhar a atenção e memória, entre outros objetivos. Mas o uso abusivo pode trazer prejuízo tanto motor como emocional, e tanto para crianças como para adultos. Os adultos não estão imunes", afirma.

Eugênio Gurgel
A psicopedagoga Cristina Silveira: "Na minha opinião, esse hábito não deveria ser introduzido antes dos 4 ou 5 anos. A criança, nessa idade, precisa desenvolver sua coordenação motora" (foto: Eugênio Gurgel)
Outro risco a que estão expostas as crianças é o do vício. Como não têm discernimento sobre a hora de parar, podem ficar tanto tempo quanto os pais permitirem e, em caso de retirada brusca, apresentar comportamento agressivo ou depressivo, com sintomas físicos, como dores de cabeça ou dores generalizadas, tremores e falta de apetite. Além disso, segundo pesquisas, o uso excessivo pode trazer uma antecipação de alguns diagnósticos em pessoas que já tenham predisposição para depressões e pânico.

Foi justamente um caso eventual de vício do filho que fez com que Isabela Soares, mais conhecida como Bebel, arquiteta e idealizadora da comunidade Padecendo no Paraíso, que reúne virtualmente quase 5 mil mães belo-horizontinas, entrasse para o time do "pouco ou nenhum contato". Apesar da relação próxima com o mundo virtual, a mãe de Felipe Lorentz, de 4 anos, diz-se radicalmente contra a introdução de artigos tecnológicos na rotina das crianças. "Eu já limitava o tempo do meu filho com meu tablet, mas, quando ele deu um chilique por conta de um bichinho de estimação virtual que tinha se tornado prioridade absoluta da vida dele em um dia, eu tomei birra. Nada que vicie uma criança tão rápido pode ser confiável", diz.

Hoje, Felipe tem permissão para mexer no gadget da mãe duas vezes a cada mês. Parece pouco, mas ele nem sente falta, já que Bebel faz questão de manter o filho ocupado. Sempre que pode, desce até o playground do prédio onde moram para que ele brinque na piscina com os vizinhos. Peças de montar e livros de colorir também estão sempre à disposição. "Reconheço que uma vez ou outra o tablet é útil para mostrar coisas para as crianças e há, claro, hora em que é preciso ficar em casa. Mas permitir que as crianças criem uma vida em torno da tecnologia é deixar de fora uma série de experiências que trazem aprendizado e geram memórias. Os joguinhos eletrônicos podem, sim, ser divertidos: eu mesma fui uma criança que tive videogame. Mas os momentos em frente à TV com o meu Atari estão longe de ser os mais marcantes da minha infância."

João Carlos Martins
Alexandre, o filho, Haruki, e a mulher, Ana Cláudia: "Eu acho que a tecnologia deixa a criança, em geral, muito mais esperta. O videogame, por exemplo, força o cérebro a buscar soluções para os problemas" (foto: João Carlos Martins)
O bancário Eduardo Horta também é cauteloso quando o assunto é a relação da filha Cleo, de 9 anos, com tablets, celulares e jogos eletrônicos. "Tenho certa aflição desse mundo conectado, onde se olha mais para a palma da mão do que para as pessoas", define. Por isso, ele tenta controlar a introdução de aparelhos na vida da filha de acordo com a necessidade. O primeiro celular, do tipo básico, ela ganhou no ano passado para falar com o pai, que é separado da mãe. Neste ano, o aparelho evoluiu para um smartphone. Apesar de ter cedido ao pedido da menina, Eduardo diz que as amiguinhas já possuíam aparelhos semelhantes muito antes da filha, que passou a pedir coisas do tipo desde os 5 anos. "Não posso excluí-la do estilo de vida generalizado que ela quer. Hoje, com boa parte da personalidade definida, não gosto de ficar batendo de frente, mas, sim, ter diálogo e algum controle." A permissão para usufruir da internet só veio com o acordo de que o pai teria todas as senhas e com conversas eventuais sobre formas de utilização dos aplicativos.

Apesar de "atrasada" em relação às amigas, Cleo diz entender bem a posição do pai, que sempre procura explicar a razão das negativas. "Sou nova e entendo que ele sabe mais das coisas que eu", diz, compreensiva. Para que a filha não se torne refém da tecnologia, Eduardo incentiva a prática esportiva e conta que, no ano passado, a filha se envolveu com balé, tênis e natação e, portanto, está longe de cair no extremo que tanto o preocupa.
Já na casa da contadora Carla Martins não há tantas regras. Por conta da rotina de trabalho puxada, fica difícil colocar limites no uso do tablet para os três filhos. Segundo ela, Daniel, de 10 anos, Izabella, de 8, e Matheus, de 6, alternam o uso do aparelho em casa em busca de "descobertas" que são repassadas à noite, quando os pais retornam. "Eu acho o máximo! Tenho certa dificuldade com essa tecnologia toda, ainda apanho muito, em meu trabalho, do computador, do celular. Já os meninos levam numa boa! Às vezes me cobram um aparelho melhor, mais rápido. Eles assimilam tudo tão rápido que fico impressionada", diz.

Gláucia Rodrigues
A contadora Carla e a filha Izabella: "Eu acho o máximo! Tenho certa dificuldade com essa tecnologia toda, ainda apanho muito, em meu trabalho, do computador, do celular. Já os meninos levam numa boa" (foto: Gláucia Rodrigues)
Aberta para os efeitos positivos do uso das tecnologias, Carla percebe que os filhos ficaram mais espertos e menos tímidos desde que os eletrônicos se tornaram permitidos na casa. "A Izabella, por exemplo, conseguiu me ajudar em uma dificuldade que eu estava tendo num site de relacionamento. Eu via nos olhos dela a alegria em me ajudar e resolver um dilema para mim", lembra.

O supertecnológico Alexandre Bifano também acredita que o mundo digital possa trazer muitos ganhos para as crianças. "Eu acho que a tecnologia deixa a criança, em geral, muito mais esperta. O videogame força o cérebro a buscar soluções para os problemas, trabalha sua visão periférica e sua capacidade cognitiva. Exige atenção. O Haruki é muito focado e ouve direitinho quando vou ensinar algo para ele no computador", conta. Haruki tem apenas 3 anos, mas já pode ser considerado uma ferinha tecnológica: ele já mexe no computador sozinho, coloca vídeos no Youtube, diverte-se com joguinhos no tablet e acompanha o pai nas conquistas no videogame.
 
A mãe, Ana, conta que os joguinhos educativos também são boas opções de diversão, aliados da aprendizagem para o filho. "Somos superligados em tecnologia desde sempre, não fazemos nada sem. Não tinha como ser diferente com o Haruki", diz. Alexandre garante que não há motivo para preocupação, já que ele mesmo é uma dessas crianças que cresceram conectadas. "Interajo com isso desde os 4 anos de idade e nunca deixei de fazer as outras coisas de criança ou adolescente. O que é preciso ensinar é que a tecnologia anda com o resto da sua vida. Ensinar a lidar com isso é prepará-lo também para lidar com a vida", afirma.

Cristina Silveira, que também é arte-terapeuta e artista plástica, não descarta que existem, sim, benefícios na tecnologia, mas reforça que os estímulos devem ser os mais diversos possíveis e que é preciso acompanhar o desenvolvimento da criança. "Na minha opinião, esse hábito não deveria ser introduzido antes dos 4 ou 5 anos. A criança, nessa idade, precisa desenvolver sua coordenação motora, principalmente porque estará sendo alfabetizada. É a época em que a criança começa a desenhar, ler e escrever. Para isso, sua coordenação motora fina deve ser mais estimulada. O desenho, o manuseio de materiais diversificados como a massinha, a argila, a terra e as tintas são muito necessários. Introduzir a tecnologia antes disso pode privar a criança de usufruir de tudo isso."

Últimas notícias

Comentários