Como bom mineiro

Sem alarde, o laboratório São Marcos chega a 52 unidades na região metropolitana de BH, encosta no principal concorrente e se prepara para assumir o topo do setor em Minas, com inaugurações também em cidades do interior

por Geórgea Choucair 13/05/2014 12:59

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Samuel Gê
O médico Cláudio Cerqueira, presidente do laboratório, com os filhos Bruno, Mariana e Rodrigo, todos integrantes da diretoria: "A minha sala é aberta o tempo todo para a clientela, e sem mata-burro", diz Cláudio (foto: Samuel Gê)
O termo "piracema", de origem na língua tupi, significa "saída de peixes" e designa o período em que os cardumes nadam rio acima, contra a correnteza, para fazer a desova no período de reprodução. A jornada é cheia de perigos. Além de superar cachoeiras, predadores e outros obstáculos naturais, esses animais precisam vencer a pesca predatória.  No laboratório mineiro São Marcos, o nome "Piracema" é bem conhecido entre os funcionários, já que é um carinhoso apelido dado aos recepcionistas da rede. A relação não tem nada a ver com o cardume de peixes, mas sim com o objetivo final do movimento que realizam: vencer desafios. O apelido faz parte das estratégias criadas pelos jovens irmãos Bruno, de 35 anos; Mariana, de 33, e Rodrigo Cerqueira, de 29, diretores da atual gestão do São Marcos. Na corrida por vencer os obstáculos, o trio, que faz parte da terceira geração do laboratório, já conseguiu vencer estatística cruel de novas gerações nas empresas familiares. Segundo levantamento da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), apenas 28% das empresas familiares chegam à terceira geração.

O laboratório São Marcos não só chegou, como vive a sua melhor fase. Neste exato momento, a rede comemora a inauguração da 52ª unidade, desta vez no Eldorado, em Contagem. E a meta para 2016 é ambiciosa. Quer chegar ao topo do ranking dos laboratórios mineiros, com 58 unidades (o principal maior concorrente, o Hermes Pardini, tem hoje 56 unidades), ainda este ano. Todo o investimento vem sendo feito com recurso próprio, longe de qualquer parceria ou fusão com fundos de investimentos. "Fazemos renovação constante dos equipamentos e cerca de 90% do faturamento é reinvestido no laboratório", diz Bruno Cerqueira, administrador de empresas e diretor geral do São Marcos. "Todos os equipamentos lançados em feiras internacionais já estão aqui", afirma Mariana.
Cada um dos três filhos do médico Cláudio Cerqueira, atual presidente do São Marcos, ocupa uma posição na empresa. Mariana é médica e diretora técnica, Rodrigo é  diretor financeiro e Bruno, o diretor geral. Bruno e Rodrigo começaram na empresa como estagiários e Mariana, como coordenadora da assessoria científica. Cada filho tem hoje 30% do negócio e o pai, 10%. Apesar da participação minoritária do pai, ele é o tira-teima. "Quem pode bater na mesa sou eu, mas nunca precisei. Vamos tomar a decisão sempre a favor do laboratório", diz. Aos 65 anos, Cláudio Cerqueira frequenta a rede diariamente, mas atua mais com relacionamento institucional. "A minha sala é aberta o tempo todo para a clientela, e sem mata-burro", diz.

Rogério Sol
Cabine de coleta de exames da unidade do bairro Castelo: aprimorar o atendimento ao cliente é uma das estratégias de crescimento (foto: Rogério Sol)
O São Marcos foi fundado pelo pai dele, o patologista Edgard Antunes Cerqueira, em 1941, época em que a patologia clínica estava apenas começando no Brasil. Como toda empresa, enfrentou altos e baixos e, no final da década de 1990, passou pela crise mais séria, com grandes dificuldades financeiras. A rede chegou a dever cinco vezes o faturamento mensal, atendia cerca de 5 mil clientes por mês e tinha, em média, 100 funcionários. A partir de 2008, a empresa investiu na reestruturação do seu modelo de gestão, na profissionalização e capacitação da equipe, além de tecnologia de ponta e, com isso, o cenário começou a mudar.

A rede é hoje seis vezes maior e o faturamento vem crescendo a uma média de 35% ao ano. Para 2014, a previsão é faturar R$ 72 milhões, contra R$ 51 milhões em 2013. "O crescimento da empresa vem de uma equipe focada em melhoria contínua. Faz parte do nosso DNA, do nosso aprendizado. Somos incansáveis na busca por melhores resultados, pela satisfação do cliente", diz Rodrigo. Todas as vezes que o laboratório registra qualquer recorde, as unidades batem sino de comemoração. "As áreas têm indicadores e metas, são sempre desafiadas", completa Rodrigo.

A meta dos irmãos é investir algo próximo a R$ 12 milhões neste ano, dos quais R$ 6 milhões em novas unidades. Cada uma consome investimentos na ordem de R$ 400 mil a R$ 500 mil. O próximo passo vai ser expandir os negócios para cidades mais distantes de Belo Horizonte, em raio de 70 a 100 quilômetros. "No lugar de ser regional, queremos ser estadual", diz Bruno. O plano de crescimento passa longe de qualquer processo de fusão, informa o presidente, Cláudio Cerqueira. "Somos sondados para venda, mas não faz parte da nossa estratégia", diz. "A família vive daqui, não faz sentido vender. Nosso objetivo é continuar na gestão da empresa", completa Mariana.

"É um desafio manter o negócio saudável até a terceira geração. Há várias barreiras no meio do caminho. O mercado muda, exige adequação de perfil", explica a professora da Fundação Dom Cabral (FDC) Maria Teresa Roscoe. Ela ressalta três pontos importantes para a gestão de novas gerações nas empresas familiares: coesão (mais diálogo na família), alinhamento com relação ao futuro e construção de acordo societário. Pontos que os três irmãos têm tirado de letra. "Temos paixão pelo negócio. O assunto na família é sempre laboratório. Às vezes, é em casa ou no sítio que chegam as melhores ideias", diz Rodrigo.

Rogério Sol
Recepção da unidade do bairro Castelo (foto: Rogério Sol)
A busca por surpreender os clientes é a principal estratégia dos Cerqueiras. "Fazer exame com qualidade é a nossa obrigação. O desafio é encantar o cliente, o fornecedor, o médico e os nossos parceiros. Aprendemos com o nosso pai o significado real de encantamento. Gentileza gera gentileza. Esse é um conceito que temos para a vida", diz Mariana. O conceito está bem incorporado pela equipe. "Eu faço o papel da senha", explica a "Piracema" Lúcia Marcilane de Cássia Alves, de 44 anos. Ela recebe o cliente na porta e encaminha até o balcão. "Eu sou uma espécie de senha, mas especial. Interajo com o cliente, converso. É nosso papel, pois geralmente ele está ansioso", diz. Lúcia está há pouco mais de um ano no laboratório e ganhou, em janeiro, o prêmio de "Piracema de 2013". O presente do laboratório foi um fim de semana em hotel fazenda com acompanhante. A funcionária foi premiada por ter recebido o maior número de elogios de clientes no ano. A medição foi feita através de anotações no caderno de sugestões e fotos tiradas com a clientela.

O aposentado Augusto Escobar Machado, de 73 anos, é cliente assíduo da unidade do São Marcos no bairro Floresta. Ele frequenta o laboratório, em média, três vezes ao mês. "Os funcionários me chamam pelo nome e são muito atenciosos e carinhosos. Tudo isso acaba nos prendendo", diz. A relação com os médicos também vem mudando.  "Acompanhava antes o atendimento pelos relatos dos pacientes e pelos laudos de exame que recebia", diz o médico endocrinologista Geraldo Santana, que há dois anos, após conhecer o laboratório, passou a indicá-lo aos clientes. "Um dos pontos importantes é a versatilidade para lidar com demandas atípicas do médico ou do paciente", diz o médico.

Para manter o foco no atendimento, o São Marcos investe, em média, 1,7 mil horas de treinamento por mês na equipe. Os funcionários do laboratório também são sempre desafiados com promoções e sorteios para cada recorde batido. E, neste ano, a participação nos lucros, que sempre girava de 2% a 2,5%  da receita bruta, está mais agressiva: vai saltar para 5%. É mais uma jogada do quarteto de atleticanos para valorizar os parceiros e abocanhar mais espaço no mercado de laboratórios em Minas.

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