Um gigante nos gramados

O jogador Bernard superou preconceitos por ser baixinho, passou a ser reconhecido como um dos talentos do futebol mundial e é um dos candidatos a grande revelação desta Copa

por Renan Damasceno e Marina Dias 09/06/2014 14:59

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Gaspar Nóbrega/Vipcomm/Divulgação
O jogador Bernard chega ao mundial como elemento surpresa: "A responsabilidade é grande, mas tenho consciência de que trabalhei muito para chegar até aqui" (foto: Gaspar Nóbrega/Vipcomm/Divulgação)
Mineirão, 26 de junho de 2013, 17h15. Os 62 mil torcedores roíam as unhas depois do gol de empate do uruguaio Edinson Cavani contra o Brasil. Placar: 1 a 1. O técnico Luiz Felipe Scolari, temendo um novo "maracanazo" diante da Celeste Olímpica, olhou para o banco de reservas e perguntou aos auxiliares, Flávio Murtosa e Carlos Alberto Parreira, quem poderia entrar em campo para salvar a seleção brasileira de nova catástrofe monumental. O primeiro sugeriu o armador Lucas, o segundo, o volante Jádson, mas a decisão cabia ao comandante, que atendeu ao clamor do público mineiro e, em uma iniciativa ousada, mandou chamar logo o mais novo do grupo. Aos 19 minutos do segundo tempo, o atacante de 20 anos e apenas 1,63 m entrou em campo, agigantou-se diante dos uruguaios, colocou fogo na partida e tornou-se peça fundamental para o triunfo por 2 a 1 sobre o Uruguai na semifinal da Copa das Confederações – vitória necessária para a conquista do título em cima da Espanha, na final.

Samuel Gê
Vizinhos da família de Bernard por 20 anos, Geraldo Delfino de Souza e a mulher, Cleide Favato, testemunharam a técnica de Bernard até nas peladas de rua: "Não tem quem faça o que ele faz" (foto: Samuel Gê)
Um ano, uma Libertadores e uma transferência para o gelado futebol ucraniano depois, o mineiro Bernard Anício Caldeira Duarte, nascido e criado nos campos de terra do Barreiro e nas categorias de base do Atlético, chega à Copa do Mundo como o elemento-surpresa, com sua diagonal veloz e a inconfundível "alegria nas pernas", como definiu – e, por que não, previu – Felipão, dias antes daquela semifinal. Mesmo com a pouca idade (completa 22 anos em setembro), o ex-atleticano, hoje no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, conquistou a confiança do treinador e da torcida brasileira, e tira de letra o peso de ser um dos nomes mais promissores do futebol nacional.

"Sei disso", diz Bernard. "É uma responsabilidade grande, mas tenho a consciência de que trabalhei muito para chegar até aqui." A declaração foi dada pelo jogador no fim do mês passado, em um shopping em Contagem, onde fazia uma ação promocional de um patrocinador, a Vivo. Difícil, aliás, foi chegar até ele, que passou todo o tempo espremido por centenas de fãs, grande parte adolescentes, integrantes de numerosa e histérica torcida de "Bernardetes". "Além de ótimo jogador, é muito lindo", disse, empolgada, a estudante Mirela Sales, de 16 anos, fundadora de um fã-clube que conta com mais de 300 garotas. Ela já foi em quatro "aparições" de Bernard para tirar fotos com o atleta e, em Contagem, furou a corrente de seguranças para abraçá-lo. "Por ele, nós fazemos tudo", diz.
 
Bernard, assim como Neymar, Oscar, David Luiz, entre outros, é responsável por despertar a atenção de uma ala da juventude feminina que, até pouco tempo, não sabia se os laterais eram cobrados com as mãos ou com os pés. São atletas-celebridades, que alimentam o Instagram com a mesma frequência com que treinam, ouvem músicas da moda, têm gírias próprias e não descuidam do figurino. Mas não deixam de jogar muita bola.

Em que pese a diferença de gerações, o histórico de vitórias da seleção brasileira sempre abriu brechas para heróis jovens, muitas vezes, improváveis. No primeiro título mundial brasileiro, em 1958, na Suécia, o técnico Vicente Feola perdeu o titular Mazzola, por lesão no tornozelo, para a última partida da fase de grupos, contra a União Soviética. Promoveu, então, o mineiro Pelé, de apenas 17 anos, ao time titular. O tricordiano não deixaria de vestir a camisa 10 até se aposentar da seleção, em 1971 (confira lista dos mineiros em Copas do mundo). Em 1962, quando o mesmo Pelé machucou a coxa esquerda na segunda rodada, o técnico Aymoré Moreira escolheu o botafoguense Amarildo, de 23 anos, que fez três gols, um deles na final contra a Tchecoslováquia.

Cláudio Cunha
O primo e melhor amigo de Bernard, Lucas Dayrell, acompanha a batalha do jogador franzino desde a escolinha de futebol: "Ele nunca perde a humildade e o sorriso no rosto" (foto: Cláudio Cunha)
Não há dúvidas de que o Mundial, em si, é uma verdadeira incubadora de craques, que começam vestindo a camisa canarinha de forma tímida e se tornam gigantes do nosso futebol. Para a surpresa de muitos, Tostão foi levado à Copa de 1966, na Inglaterra, com apenas 19 anos e, quatro anos mais tarde, foi um dos maestros da melhor seleção que o Brasil já teve. Em 1994, outro cruzeirense, Ronaldo, assistiu ao tetra do banco de reservas, antes de se tornar o principal nome do futebol brasileiro nos dez anos seguintes. Em 2002, quando o mesmo Ronaldo liderava o Brasil ao pentacampeonato, Felipão convocou o jovem Kaká, de 20 anos, que se tornaria o melhor do mundo cinco anos depois.
 
"Ser comparado a grandes jogadores que foram caçulas em suas convocações é uma honra. Vou fazer o melhor para corresponder às expectativas", diz Bernard,  sem esconder o peso da confiança depositada nele, sobretudo por estar no coração de uma das torcidas mais apaixonadas do país, a do Atlético.
 
"Se ele tiver as oportunidades que merece, pode fazer a diferença. Tem velocidade, é inteligente", diz o atacante Reinaldo, ídolo da história do Atlético, que defendeu o Brasil na Copa do Mundo de 1978, na Argentina. O presidente do clube, Alexandre Kalil, engrossa o coro: "Bernard foi convocado por sua habilidade e velocidade. Tem uma rapidez que é rara. E tem mesmo alegria nas pernas", diz Kalil.

Apesar da pouca idade e do inegável talento, o sucesso demorou a bater a sua porta.  O bambino de ouro (apelido dado pelo ídolo do futebol e comentarista esportivo Dadá Maravilha) começou a trilhar seu caminho no futebol na escolinha do Comercial Esporte Clube, do Barreiro, onde morou até o ano passado. Aos 13 anos, fez testes no Cruzeiro, que o recusou, e no Atlético, que o admitiu, mas de onde foi dispensado duas vezes depois disso. "Em razão de sua altura, ele não era colocado para jogar ou era dispensado. Mas é da personalidade dele insistir e vencer barreiras", conta seu treinador no Comercial, Célio de Castro, que o descreveu como fominha da bola. "Tínhamos que dosá-lo. Era sempre o primeiro a chegar e o último a ir embora", lembra.

O vizinho de muro da época do Barreiro, Geraldo Delfino de Souza, também testemunhou sua luta e nunca teve dúvidas de que o garoto chegaria longe. "Desde que começou a jogar pelada na rua, já se via que ele tinha o dom, apesar de baixinho. Não tem ninguém que faça o que ele faz", diz ele, morador do bairro, com sua mulher, Cleide Favato, há 21 anos – idade do jogador, que se mudou ainda bebê para a casa ao lado.

Além da qualidade técnica, a perseverança e o apoio familiar foram importantes nesse caminho. Extremamente reservados, os pais do garoto, Délio e Nélia Duarte, não gostam de dar entrevista. No entanto, a inspiração para o nome do filho (o jogador de vôlei Bernard, dono do saque "Jornada nas Estrelas") já indicava que eles tinham planos grandiosos para o rebento. Todos ao redor dos Duartes reforçam o companheirismo e a presença constante dos pais no dia a dia do jogador, que se descreve como uma pessoa-família. "Quando não está jogando futebol, gosta mesmo é de jogar pingue-pongue. Até comprou uma mesa para sua casa na Ucrânia", conta o primo e melhor amigo, Lucas Dayrell, que Bernad levou para morar consigo e com os pais no país europeu. Para ele, a principal qualidade do primo é nunca perder a humildade e o sorriso no rosto, mesmo nas adversidades, como no período em que não era escalado para jogar na base do Galo.
 
Grande amigo no futebol e colega de profissão desde os 14 anos, Fillipe Soutto, jogador do Atlético, ressalta o jeito tranquilo de ser do garoto, o que, acredita, também contribuiu para o avanço na carreira. Como em características físicas ele era o contrário do que os técnicos gostam, explica Fillipe, teve de ir conquistando o espaço de outras formas. "Foi mostrando sua habilidade e também sempre foi tranquilo, descontraído. Isso o ajudou a chegar aonde chegou", diz Fellipe.

Bernard é frequentemente descrito como veloz e inteligente. As características fizeram com que o garoto, que nem era certo na lista dos jogadores do infantil que passariam para o juvenil do Atlético, se tornasse o camisa 10, titular absoluto daquela equipe. O técnico do sub-17 naquele ano de 2009, Diogo Giacomini, fala que sua perspicácia para antecipar as jogadas e antever os instantes seguintes é a principal virtude para compensar a altura, pois permite que tire a bola do contato físico, evitando choques. "Além disso, tem recursos técnicos acima da média", diz Giacomini, referindo-se a sua habilidade para girar para os dois lados com rapidez e usar bem as duas pernas.

Depois de provar, nas categorias de base do Galo e no Democrata de Sete Lagoas, que tamanho não era documento, Bernard estreou nos profissionais do Atlético em 23 de março de 2011, em empate com o Uberaba, por 1 a 1, pelo Campeonato Mineiro. Lançado por Dorival Júnior, jogou improvisado na lateral direita e passou em branco em todos os 28 jogos em que entrou na temporada. Mas, revezando entre os juniores e equipe principal, foi destaque na campanha do título da Taça BH de Futebol Júnior e, com a chegada do técnico Cuca no profissional, passou a atuar no ataque, ganhando vaga de titular na reta final do Brasileiro daquele ano.

A vinda de Cuca, aliás, foi crucial para a carreira do jogador, que já despertava a atenção de times do exterior. O treinador passou a escalar Bernard no ataque, pelas pontas, com a camisa 7, e os resultados não demoraram a aparecer. O primeiro gol foi logo na estreia do Galo no Estadual de 2012, em que completou o placar de 2 a 0 sobre o Boa: ele recebeu a bola na grande área, carregou e, no momento certo, concluiu com chute rasteiro. Ao todo, fez 15 gols em 47 jogos e foi eleito jogador revelação do Brasileiro. Ainda em 2012, em novembro, foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira pelo técnico Mano Menezes, no Superclássico das Américas, em dois jogos contra a Argentina, que contavam apenas com atletas que atuavam no Brasil. Na época, o colega de clube e um dos principais ídolos de Bernard, Ronaldinho Gaúcho, declarou que via no jovem atleta um grande talento: "É uma grande alegria participar do nascimento de mais um craque", disse Ronaldinho.
 
Mas a consagração veio mesmo no ano passado. Em seu primeiro jogo no exterior como profissional, Bernard marcou três gols pelo Atlético na vitória por 5 a 2 sobre o Arsenal de Sarandí, em Buenos Aires. Caiu no gosto do técnico Luiz Felipe Scolari e, a partir daquele abril, passou a ser recorrente nas convocações do treinador, entre elas, a chamada para a Copa das Confederações. Na campanha vitoriosa, entrou em campo contra a Itália, em Salvador, e contra o Uruguai, no Mineirão. Menos de um mês depois do título da Copa das Confederações, ergueu a taça de campeão da Libertadores, o título mais importante da história do Atlético.

"Bernard tem uma característica rara, que é jogar em velocidade em diagonal. Isso faz dele especial e capaz de desequilibrar o jogo", afirma o diretor de futebol do Atlético, Eduardo Maluf, que acompanhou de perto a ascensão do atleta e participou da negociação para o time ucraniano Shakhtar Donetsk, por 25 milhões de euros (R$ 77 milhões à época), em agosto – a venda mais cara da história do alvinegro. "Além disso, é muito educado, brincalhão e de boa formação familiar. Esse carisma o torna um garoto muito especial", completa.

Samuel Gê
Célio de Castro, técnico da época do Comercial Esporte Clube do Barreiro, viu Bernard ser dispensado algumas vezes antes de engrenar no Atlético: "É da personalidade dele insistir e vencer barreiras" (foto: Samuel Gê)
Extremamente grato ao time que o colocou nos holofotes, Bernard sempre diz que sua história no Galo ainda não acabou. "Sei que vou voltar, mas na hora certa", diz. Por ora, segue no Shaktar e diz que decidirá seu futuro depois da Copa – recebeu propostas de clubes da Espanha e da Inglaterra. No time ucraniano, briga por espaço na equipe, considerada porta de entrada para outros grandes clubes europeus. Não tem conseguido se encaixar com facilidade entre os titulares, embora tenha recebido a camisa 10 do técnico romeno Mircea Lucescu.
 
Segundo o próprio bambino, ele não vem mostrando todo o seu futebol. Em 18 jogos, fez três gols, o último deles quase na mesma hora em que Felipão anunciou o nome do garoto do Barreiro entre os 23 que vão defender a seleção brasileira. Bernard chegou a ficar uma semana sem dormir antes da convocação. Ele conta que estava na semifinal do campeonato ucraniano (no qual se sagraria campeão dias depois) e, no intervalo do jogo, não conseguiu saber se tinha sido chamado.
 
Quando acabou a partida, a internet não pegava, por isso, não viu uma mensagem sequer de parabéns. Mesmo sabendo da grande possibilidade de ter sido um dos relacionados, ficou apreensivo. Ao ligar para o pai, levou um susto: "Filho, não foi dessa vez". Ficou com a voz embargada, mas logo ouviu os gritos e risos atrás e percebeu que era uma brincadeira. "Aí, sim, fiquei aliviado e pude comemorar", diz, com o habitual sorriso no rosto.
 
Colega de bagunça do ônibus na época do Galo, o jogador atleticano Diego Tardelli acha que a ida para a Ucrânia não mudou nada no "molequinho". Tardelli admite que não deu muito bola para o garoto que subia do juvenil para substituir jogadores no treino.  "Com o passar do tempo, ele foi mostrando seu talento, seu tamanho. Com sua alegria de correr, vai se dar muito bem na seleção nesta Copa", diz.

O técnico Diogo Giacomini não tem dúvidas de que Bernard será uma estrela da Copa 2014. O grande trunfo do jogador no mundial, acredita, será a imprevisibilidade. "Ele faz jogadas que os adversários não esperam", diz. Para Giacomini, assim como na semifinal da Copa das Confederações, o bambino pode entrar para desequilibrar partidas que estiverem muito marcadas, devido às táticas já estudadas por outras equipes.

Se o título vier em 13 de julho, não há como escapar dos inúmeros clichês tentadoramente românticos para descrever o sabor da vitória. Naquele filme que passará por sua cabeça, estarão as dispensas, a primeira vez com a camisa da seleção, a brincadeira dos pais e amigos que esconderam dele a convocação, a dificuldade de se adaptar na Ucrânia. "Não sei o que faria se não fosse o futebol. Não me imagino fazendo nenhuma outra coisa", diz o jogador, que, como Messi e outros baixinhos, fez tratamento para crescer. "Não adiantou muito", brinca. Mas o talento, o sorriso no rosto e a alegria nas pernas são natos. E transformam o baixinho franzino em um gigante. Para a alegria de todos os brasileiros.

Com a colaboração de Bruno Schmitz

Últimas notícias

Comentários