Thiago, do Itapoã

Ele quase foi jogador de futebol, mas acabou virando repórter. Hoje, Thiago Reis é um requisitado garoto-propaganda e um fenômeno do rádio e da TV com o bordão Seu Nome, Seu Bairro

por Marina Dias 24/06/2014 14:27

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Thiago Mamede
No estúdio da Rádio Itatiaia, onde começou a carreira, há 12 anos, e está até hoje, Thiago Reis brinca: "Eu queria ficar próximo do campo, que era minha paixão. Teria de ser gandula, árbitro ou jornalista. O último pareceu o melhor" (foto: Thiago Mamede)
"Thiago Reis está aqui. Escondam o almoço!" Essa foi a reação bem-humorada de um dos funcionários de Encontro quando viu o repórter esportivo chegando à redação para a entrevista deste perfil. A brincadeira faz referência ao programa da TV Alterosa Bola na Área, veiculado aos sábados, na hora do almoço. Nele, Thiago visita estabelecimentos comerciais, conversa sobre futebol e, ao final, sempre prova o prato que é carro-chefe do lugar.

A ida de Thiago para a TV (ele também tem um quadro semanal no Jornal da Alterosa), há pouco mais de cinco anos, foi a grande responsável pelo reconhecimento que o repórter tem hoje nas ruas – a exemplo da brincadeira que escutou ao chegar à sede da revista. A telinha foi quem deu cara à voz. Mas essa voz, animada e firme, já era antiga conhecida de todo mineiro amante de futebol. Afinal, Thiago Reis é Seu Nome, Seu Bairro, bordão que já repete há dez anos em suas transmissões de pré e pós-jogo na rádio Itatiaia, quando conversa com torcedores sobre como foi a partida.

De tanto sucesso, o bordão já virou marca patenteada e nome da agência de publicidade que cuida de sua imagem. Isso já estava se tornando necessário, pois, além do trabalho como repórter do rádio e da TV, começou a receber convites para ser garoto-propaganda e mestre de cerimônias – ele não revela o cachê (sinal de que é alto). Atualmente, o belo-horizontino de 29 anos tem sido visto nas propagandas do BRT-Move, da Prefeitura de BH.

JC Martins
Thiago entrevista torcedores em jogo do campeonato mineiro de 2014, entre Atlético e América: ele já se acostumou com o grande assédio de pessoas que querem participar do programa a cada partida (foto: JC Martins)
Mas nem a rádio, nem a TV, nem os outros trabalhos, muito menos a fama, eram parte dos planos do jornalista, nascido e criado no bairro Santa Amélia – mas morador, desde que se casou com Alessandra Reis, há um ano e meio, do vizinho bairro Itapoã, na região da Pampulha. Thiago, aliás, nunca fez planos para o futuro. "Na minha vida, as coisas vão acontecendo como devem acontecer", diz, lembrando-se tanto das boas oportunidades quanto dos perrengues pelos quais já passou.  
Aficionado por bola desde os 6 anos, ele chegou a jogar nos juniores do América, seu time de coração, e do Atlético. Talvez seu único sonho na vida, até hoje, tenha sido se tornar jogador profissional. Atacante e bem-humorado, quando perguntado se é canhoto ou destro, diz que bate bem com as duas, sem cair. "Como todo bom centroavante", diz. Apesar do talento, confirmado por amigos e colegas de trabalho – foi, inclusive, o responsável pelo primeiro gol do novo Mineirão, marcado na partida de reinauguração, com a imprensa mineira –, foi dispensado do Galo quando tinha 16 anos, e isso quebrou seu coração. Desistiu de se tornar jogador profissional, traumatizado com o fato de ter sido privado de seu maior sonho.
 
Chateado e sem ocupação, foi daí que seu pai, vizinho e amigo do radialista Mauro Naves, pediu-lhe que conseguisse um emprego para o filho. "Ele achou que eu fosse conseguir uma vaga em uma loja, um supermercado. Nunca imaginou que fosse ser na rádio", diz Naves, que chamou Thiago para trabalhar no plantão do esporte. Por R$ 20 ao dia, o garoto ouvia as outras partidas – além daquela transmitida – e deixava o narrador a par do que acontecia nos demais jogos.
 
Seu talento para a comunicação e o conhecimento sobre futebol fizeram com que a rádio lhe oferecesse uma bolsa para cursar uma faculdade. E foi por isso que escolheu o jornalismo. "Eu queria ficar próximo do campo, que era minha paixão. Teria de ser gandula, árbitro ou jornalista. O último pareceu o melhor", diz, no habitual tom de brincadeira. Assim, foi trilhando seu caminho no rádio: estagiário, redator, produtor, até chegar à reportagem. E foi aí que se destacou de verdade: quando se candidatou ao trabalho que ninguém queria fazer, a conversa com o torcedor no pós-jogo, intervalo entre o fim da partida e início das coletivas, em que há uma lacuna na programação.
 
Divulgação
Emanuel Carneiro, presidente da Itatiaia, foi um dos que perceberam o talento de Thiago para a comunicação: "Foi uma aposta que a Itatiaia fez e acertou" (foto: Divulgação)
No início, os torcedores criticavam dirigentes, jogadores e técnicos sem ao menos falar o próprio nome. "O Emanuel [Carneiro, presidente da Itatiaia] diz que a única vez que presidentes do Cruzeiro e do Atlético se uniram pelo mesmo objetivo foi para pedir minha demissão", brinca. Surgiu, então, o desafio de fazer com que as pessoas se identificassem no ar. Difícil, pois havia o complicador de serem torcedores exaltados, principalmente quando o jogo tinha sido um fiasco. "Tentei primeiro pedir o nome e a profissão, mas o primeiro torcedor que entrevistei era um ex-presidiário, que ficou ofendido, começou a reclamar, a chorar. Não deu certo", diz.

O bairro surgiu como alternativa, e a frase deveria ser falada logo de início, senão a pessoa já emendava o comentário e nunca chegava a dizer seu bairro. Então, veio a sacada: Seu Nome, Seu Bairro. "Ninguém gostava de fazer essa cobertura. Thiago fez, e diferente de todo mundo. De fato, ele tem o dom da comunicação. Do ponto de vista individual, ele é, hoje, o maior fenômeno do rádio esportivo mineiro", diz Milton Naves.
 
O contato com os torcedores trouxe inúmeras histórias curiosas para a bagagem do jornalista. Ele gosta de se lembrar das mais engraçadas, por ver a vida de forma otimista. Faz questão de contar a ocasião em que um torcedor, em vez de criticar ou elogiar seu clube, quis saber quem tinha roubado seu bife. "Ele falou que tinha comprado um tropeiro, deixado no balcão para comemorar um gol e, quando se virou novamente, a carne não estava mais no prato", conta. A partir daí, como é muito comum no programa, as pessoas se engajaram na causa do torcedor, que não tinha dinheiro sequer para ir embora do estádio, e fizeram uma vaquinha que rendeu cerca de R$ 400. "Várias vezes, torcedores ofereceram carona para quem não tinha como voltar para casa durante a transmissão, e já houve até contratação: o ex-presidiário da primeira entrevista foi chamado para ser zelador de um prédio, por um dentista que estava perto dele, ouvindo sua história."

Arquivo pessoal
Thiago comemora gol em jogo da imprensa mineira, partida de reinauguração do Mineirão, em 2013: ele foi o primeiro a balançar as redes do novo estádio (foto: Arquivo pessoal)
Muitas de suas amizades, ele fez durante as coberturas. Uma delas foi com Lenir da Rocha, conhecida como Leni da Sombrinha, por ter usado justamente o objeto para bater em um juiz, quando era coordenadora de mascotes do Atlético. Aos 70 anos de idade e apoiadora incondicional do Galo, ela já participou de várias entrevistas feitas por Thiago, tanto que virou amiga dele. "Ele é extremamente atencioso e carinhoso com todos que querem falar com ele, tanto de BH quanto do interior de Minas. Por isso, sua audiência é tão grande", diz Leni. Já o médico anestesista Roberto Pires de Moraes, que também conheceu Thiago nas entrevistas de pós-jogo, até o chamou para o aniversário de 15 anos de sua filha. "Comecei a dar entrevistas logo no início. Nós nos conhecemos assim", conta ele, que caracteriza a cobertura do repórter como divertida e bem-humorada – "tal como o próprio Thiago".

Apesar de a carreira de comunicador não ter sido planejada, hoje, depois de 13 anos de Itatiaia, ele não se imagina fazendo outra coisa. Até admite ter sentido vontade de ser psicólogo, na época do vestibular, mas não investiu no ramo. Até isso, de certa forma, concretizou-se, já que Thiago oferece uma espécie de divã aos torcedores que participam de seus programas. Torcedores dos três times de BH têm igual espaço em seu ‘consultório’, já que ele cobre partidas das mais diversas. Na hora das entrevistas, chegam a ficar 3 mil a 4 mil pessoas em seu entorno, interessadas em abrir seus corações e liberar o verbo. Hoje, passou a ser acompanhado por um segurança, para evitar empurra-empurra ou agressões – apesar de garantir que isso nunca aconteceu, fora uma copada de cerveja que levou, logo no início da carreira.

Samuel Gê
Thiago Reis com a mulher, Alessandra, e o filho, Bernardo: "O pouco tempo livre que tem, ele passa com a família", diz ela (foto: Samuel Gê)
"Ele tem o respeito de torcedores de todos os times, por sua credibilidade como repórter. É a grande revelação do jornalismo esportivo dos últimos anos", diz o superintendente do América, Alexandre Faria. A fama reverbera no mundo virtual. A página do Seu Nome Seu Bairro no Facebook tem mais de 10 mil curtidas, e seu perfil no Twitter – onde posta viciadamente –, quase 80 mil seguidores. Para o chefe, Emanuel Carneiro, seu lado alegre e facilidade de conversar com o público foram o que lhe chamou a atenção. "Ele se mostrou à vontade com o papel, é aceito por todas as torcidas e se dá bem com jogadores e técnicos. Foi uma aposta que a Itatiaia fez e acertou", diz.

Recém-papai de Bernardo, de 7 meses, Thiago tem uma rotina atribulada e só consegue organizar sua agenda quando sai a escala da rádio. Ele faz cobertura do dia a dia dos times e acompanha até a venda de ingressos, além de apresentar o programa Bola Premiada aos domingos. Tem ainda as participações na TV e seus compromissos como mestre de cerimônia e garoto-propaganda. Segundo sua mulher, Alessandra, ele quase não para em casa: "Mas o pouco tempo livre que tem, ele passa com a família", diz Alessandra. Sobre o futuro, Thiago reitera que não faz planos: "O que vier será de bom grado. Vamos esperar a escala sair."

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