"Já vivemos um apagão"

Especialista da UFMG diz que racionamento de energia é realidade e que o governo está protelando um desastre

por Rafael Campos - Encontro BH 24/06/2014 14:49

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

JC Martins
(foto: JC Martins)
Com o risco iminente de racionamento de energia elétrica no Brasil, o professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em planejamento de sistemas energéticos Carlos Barreira Martinez, coordenador do Centro de Pesquisas em Hidráulica e Recursos Hídricos (CPH), vê a situação hoje como pior do que na época do racionamento, em 2001. "O agravante é que o país é muito maior, o setor elétrico envelheceu, as máquinas são mais velhas e boa parte das empresas do setor elétrico se transformou em empresas de negócios", diz. "A situação (de apagão) já existe e estamos simplesmente protelando um desastre." Segundo ele, a conjuntura é reflexo de "desmandos cometidos há mais de uma década" e, mais uma vez, quem vai pagar caro é a sociedade. "O país não pode viver jogando", diz.  

1 | ENCONTRO - É fato que não choveu no verão, estamos iniciando o tradicional período de seca e os níveis dos reservatórios estão baixos. Corremos mesmo o risco de racionamento, como muito tem se falado, a exemplo do que aconteceu em 2001?   
CARLOS BARREIRA MARTINEZ - Sim, corremos o risco de racionamento. O problema não é apenas a baixa fluência de vazão nas usinas hidrelétricas. Isso existe e faz parte do setor elétrico. Essa situação que vivemos atualmente é o somatório dos desmandos cometidos há mais de uma década. É o fruto de um trabalho que não foi feito, ou foi feito de maneira equivocada. Sabíamos que os reservatórios estavam baixos, que existia uma ação predatória sobre a reserva de energia hidráulica, mas apostamos que choveria, e não choveu. O jogador joga, ganha ou perde. E, quando ganha, esbanja. Foi o que fizemos no passado. O país não pode viver jogando.
 
2 | Onde erramos, de novo?
Erramos ao longo dos últimos 30 ou 40 anos. O modelo de gerenciamento das empresas de energia é difícil de ser mantido, pois a ingerência política dentro delas é muito forte, insana. A hora de pagar o preço chegou. E a sociedade é quem vai pagar caro. O retribuição virá em forma de racionamento e de aumento de preços, já que a energia é um insumo básico para que a economia seja alavancada. A produção industrial corre risco de sofrer um problema sério, o que trará impacto ao Produto Interno Bruto (PIB). O ano de 2015 será muito difícil, do ponto de vista de energia elétrica e de petróleo. Os preços terão de subir e, se não subirem, as empresas vão quebrar.
 
3 | O senhor disse recentemente que "já vivemos um apagão". O que quis dizer exatamente?
A situação já existe e estamos simplesmente protelando um desastre. Suponhamos que o Brasil seja um avião com quase 300 pessoas que levantou voo na Malásia para ir à China. Até cair no oceano, provavelmente, a maior parte das pessoas não sabe o que está acontecendo. O país está indo para uma rota de colisão e a maior parte das pessoas não percebeu que a situação é complicada. A atual conjuntura é muito parecida com o que aconteceu no início dos anos 2000, com um agravante, o país é muito maior, o setor elétrico envelheceu, as máquinas são mais velhas e boa parte das empresas do setor elétrico se transformou em empresas de negócios.
 
4 | Planejamos mal, ou não houve planejamento?

Não houve planejamento. Se não mudarmos o modelo, vamos pular de crise em crise, sistematicamente. A interferência política tem de diminuir, os técnicos do setor elétrico precisam ter mais voz. O que se avizinha é o caos completo, desabastecimento de energia elétrica e de petróleo, consequentemente, um colapso no sistema de transporte. É um crime que se comete no Brasil, com a população, que sofre com aproximadamente 40 mil mortes a cada ano nas estradas. Não é apenas o setor elétrico que sofre com a falta de planejamento. Isso tudo é um sintoma, não é uma causa. A própria inflação é um sintoma do desgoverno. É duro para uma pessoa como eu, com certa idade, constatar que o Brasil ainda não consegue se livrar de uma herança colonial, quase que feudal. Continuamos com os problemas do passado.

5 | Na sua avaliação, existe algum risco de haver um apagão durante a Copa do Mundo?
O setor elétrico, apesar de todas as dificuldades das últimas décadas, de todo o desmonte, é altamente competente. O Operador Nacional do Sistema (ONS) é muito competente. Ele tem condições de setorizar o país e fazer com que os locais dos eventos não sofram com a falta de energia. Faltar energia elétrica durante uma partida, só se for um acidente, e acidente pode acontecer em qualquer lugar. O sistema será monitorado para que não ocorram problemas. Isso é feito no mundo inteiro.
 
6 | Até que ponto o aumento do consumo nos últimos anos pode ser responsável pela crise do setor elétrico?
A culpabilização da vítima é um dos maiores problemas que temos num país subdesenvolvido. Estamos tentando culpar quem não tem culpa. A população não tem nenhuma condição de regular tarifa, ela paga aquilo que lhe é cobrado. Os gerentes das empresas têm salários polpudos, existem técnicos, assessores e presidentes muito bem pagos para isso. A população não tem culpa nenhuma. Algumas pessoas, pontualmente, desperdiçam, mas isso existe no mundo inteiro. Esse problema de desabastecimento é de falta de planejamento. O país não está sendo planejado para o futuro, está sendo planejado para o momento. Não adianta falar que a população é culpada porque lava a calçada com água, deixa a lâmpada acesa ou usa ar-condicionado. Claro que a racionalização do consumo é bem-vinda, mas ninguém fala que o grande consumo de energia no transporte, por exemplo, se dá pelo trânsito caótico nas grandes cidades.


7 | A energia no Brasil é cara?
Não. Os impostos que incidem é que são muito caros, e as taxas são absurdamente altas.
 
8 | Qual é a situação das nossas usinas hidrelétricas?
Não ampliamos o setor elétrico como deveríamos. O modelo de leilão é furado. Quando se faz a licitação de uma usina hidrelétrica, a princípio, ela já deveria ter todos os estudos ambientais feitos. O empreendedor já deveria saber quais são os custos da mitigação dos impactos ambientais. O Estado está muito mais preocupado em arranjar empregos com salários muito bem pagos para que pessoas fiquem dentro de escritórios com ar-condicionado, em vez de colocá-las no campo para levantar todas essas condições. Se isso fosse feito, o empreendedor saberia quanto custaria o impacto ambiental, quanto tempo teria de retorno, qual seria o impacto, um mapeamento completo de tudo. Hoje acontece o inverso. Ele ganha a licitação e começa a construir, só que trava. É o caso de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio. O empreendedor acaba sendo o bandido da história, mas na verdade o Estado é que não fez o que deveria ter sido feito.
 
9 | Está no portal do governo federal: "Potencial hidrelétrico brasileiro está entre os cinco maiores do mundo". Estamos trabalhando no limite ou muito abaixo do esperado?

O Brasil sempre acha que é o maior do mundo. Só não é maior do mundo no autoconhecimento. É uma falácia. Ele é muito grande, mas impossível de se explorar ou muito caro de se explorar diante do modelo que existe. Temos o pré-sal, mas veja a profundidade em que ele está. E tem outra coisa, se no mercado internacional o petróleo cair de preço, a Petrobras quebra. Nós só temos uma chance de o pré-sal dar certo: é o petróleo ser caro no mundo inteiro.
 
10 | O que o senhor tem a dizer sobre as energias alternativas, que alguns ambientalistas alardeiam como a "salvação da pátria". Até que ponto elas são, de fato, viáveis?
O nome "energia alternativa" diz tudo, ela é alternativa. A eólica é uma opção que existe, mas no Brasil sofre com a sazonalidade de ventos. Ao contrário do que muitos imaginam, não é isenta de impacto ambiental. Ela tem impacto visual, sonoro e causa problemas com rotas migratórias de aves. Já a energia solar tem duas vertentes, uma térmica, que é a partir do aquecimento solar de água, muito usada, e a conversão fotovoltaica, mas é inviável do ponto de vista econômico. A energia fotovoltaica é importante e interessante para sistemas de telecomunicações, de emergência, mas para sistema de potência não é viável. Temos a energia de biomassa, bagaço de cana, que é possível de ser explorada, mas não é usada devido a uma questão de legislação. A nossa legislação ainda restringe a geração descentralizada de energia. Seria algo interessante, mas ainda é algo à margem do processo. Na verdade, temos é que utilizar todas as energias disponíveis.

Últimas notícias

Comentários