Guignard: Os herdeiros do mestre

Mais de meio século depois da morte do pintor fluminense, que a partir dos anos 1940 escolheu Minas para viver, sua influência ainda pode ser sentida na obra de alguns de seus ex-alunos

por João Pombo Barile 25/06/2014 14:23

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João Carlos Martins/Encontro/Reprodução
O artista com as alunas Amarilis Coelho, Maria Helena Andrés e Edith Bhering: foto do acervo de Maria Helena (foto: João Carlos Martins/Encontro/Reprodução)
A exposição de Wilma Martins no Centro Cultural Minas Tênis Clube é um dos mais importantes acontecimentos do calendário das artes plásticas de Belo Horizonte em 2014. A mostra, que vai até 22 de junho e comemora os 60 anos de carreira da artista mineira, reúne cerca de 140 obras e não deixa dúvida sobre a genialidade dessa belo-horizontina. A exposição explicita ainda outro importante aspecto da cultura de nossa cidade: a força que as artes plásticas sempre tiveram entre nós. Somos uma usina de grandes artistas: além de Wilma, nomes como Amilcar de Castro, Farnese de Andrade e Lygia Clark se fizeram por aqui. Na formação desses quatro artistas, um nome em comum: Guignard. Todos, em algum período de suas vidas, foram alunos do mais mineiro dos fluminenses, que a partir dos anos 1940 escolheu Minas para viver. Dessa maneira, uma pergunta se torna inevitável: passados mais de 50 anos de sua morte, por onde andam os outros alunos do mestre? Ainda é possível sentir a influência de Guignard em outros artistas?

"Ele foi mesmo importante para mim no início de minha carreira. Nenhum de nós ficou imune à sua influência", diz Wilma Martins, que desde 1966 mora no Rio e foi aluna do pintor entre 1953 e 1957. Casada com o crítico Frederico de Moraes, Wilma se lembra com carinho dos primeiros anos de sua formação em Belo Horizonte. "Nossa tarefa, na época, era viajar para as cidades históricas, sobretudo Sabará e Ouro Preto, e lá desenharmos muito, sem parar", conta.

Eduardo de Paula é outro artista que se recorda com saudade do professor Guignard. Ele conta que já trabalhava como desenhista, na revista Alterosa, quando Wilma Martins o levou até a escola do Parque Municipal. "O curso que ele dava funcionava nas ‘ruínas’ do que seria mais tarde o Palácio das Artes. Lembro-me bem da primeira vez que o vi: estava vestido num terno de linho branco e, assim que cheguei, ele, que nem me conhecia, gentilmente puxou um banquinho para que pudéssemos conversar. Ele era mesmo muito gentil. Um poeta em todos os sentidos", conta o artista, que nos anos 1960 seria o responsável por grandes capas dos números especiais do Suplemento Literário, comandado pelo saudoso contista Murilo Rubião.

Talvez, quem tenha as recordações mais antigas do mestre da pintura em Belo Horizonte seja mesmo a artista plástica Maria Helena Andrés. Ela conta que conheceu o pintor ainda em 1944, quando ele acabara de chegar por aqui. "Ele foi morar em uma casa que ficava na rua Piauí (no Funcionários). Eu me inscrevi para o curso dele logo que fiquei sabendo das suas aulas, que, a princípio, eram na Escola de Arquitetura da rua Paraíba", diz Maria Helena. Mas o que a artista plástica mais aprendeu com Guignard foi seu entusiasmo pelas coisas de Minas: "Nunca vou me esquecer do dia em que fomos até a igrejinha da Pampulha, para acompanhar a pintura do Portinari", recorda.

Jornal Estado de Minas/Acervo
Guignard com um autorretrato, em 1961: mais de 50 anos depois de sua morte, ele é referência nas artes plásticas nacionais (foto: Jornal Estado de Minas/Acervo)
Também para a pintora Yara Tupynambá a maior lição de Guignard foi tê-la ensinado a ver e valorizar as coisas de Minas Gerais. "Foi com ele que começamos a dar valor à nossa cultura", diz Yara. A artista, nascida em Montes Claros e que foi sua aluna em 1955, emociona-se ao falar do antigo professor. "Ele era de uma generosidade enorme. Todo mês, depois que recebia o pagamento da prefeitura, ia até a papelaria para comprar papéis e lápis novos e os dava de presente aos alunos", conta Yara, autora de murais importantes da cidade, como o da Inconfidência Mineira, na Reitoria da UFMG, inaugurado em 1969.
 
Outro ex-aluno de Guignard, Jarbas Juarez, quando perguntado sobre o antigo professor, lembra-se do folclore em torno dele: "Muita gente, hoje, diz que estudou com o mestre. É até engraçado pensar como ele pôde ter tanto aluno!", brinca. "Guignard foi mesmo uma influência fundamental para todos nós. O que eu mais levo dele? É difícil dizer: talvez o traço forte. O trabalho braçal de se fazer um desenho dezenas de vezes até conseguir encontrar o traço espontâneo."

O mais mineiro dos fluminenses

Alberto da Veiga Guignard, ou simplesmente Guignard, nasceu em Nova Friburgo, no estado do Rio, em 25 de fevereiro de 1896. Com apenas 11 anos mudou-se com a família para a Europa. Lá tornou-se aluno da Real Academia de Belas Artes de Munique, na Alemanha. No velho continente, passou um período em Florença e em Paris, até voltar ao Brasil, em 1929. Instalado no Rio de Janeiro, entrou em contato com o artista plástico Ismael Nery e montou ateliê no Jardim Botânico. Em 1931, participou do Salão Revolucionário e foi considerado por Mário de Andrade uma das revelações da mostra. Em 1944, a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, mudou-se para Belo Horizonte e começou a dirigir o curso livre de desenho e pintura da Escola de Belas Artes. Permaneceu à frente da escola até sua morte, em 1962, quando, em sua homenagem, ela passou a chamar-se Escola Guignard.

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