"Os automóveis são o cigarro do futuro"

Um dos mais conceituados urbanistas do mundo, o ex-governador do Paraná diz que os carros nas cidades vão se tornar inviáveis e o BRT é a saída

por Paulo Paiva 29/07/2014 17:02

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Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Jaime Lerner não é um urbanista qualquer. Ele governou o Paraná por dois mandatos, mas foi como prefeito que mudou a cara de Curitiba (PR), na década de 1970, com projetos de mobilidade urbana que chamaram a atenção em todo o mundo. Foi dele a ideia de criar o primeiro sistema de trânsito rápido de ônibus que se tem notícia, o BRT, em 1974. Ainda hoje, o modelo inspira intervenções urbanísticas em várias cidades dos Estados Unidos, Europa e América. No Brasil, o exemplo mais recente é Belo Horizonte, com a implantação do Move.

Lerner recebeu a reportagem de Encontro no condomínio Alphaville Lagoa dos Ingleses, quando participou do lançamento imobiliário C-Sul, um megaempreendimento em Nova Lima e Itabirito, assinado por ele, que traz todos os conceitos defendidos em seus projetos: morar, trabalhar e se divertir na mesma região. Na avaliação dele, é possível reverter o quadro de caos das cidades brasileiras, desde que os governantes trabalhem com agenda de prioridades voltadas para questões como mobilidade e sustentabilidade. O uso de carros nos grandes centros urbanos, por exemplo, ele acredita que precisa ser repensado: "Não é que não vá mais ter automóvel, mas temos de mudar a maneira de usá-lo".

Por isso mesmo, não poupou críticas aos investimentos para a Copa do Mundo: "O povo esperava que houvesse um legado que não fossem só dívida e estádios, já que o que falta ao Brasil é uma boa logística aérea e uma boa mobilidade urbana. Deveríamos ter nos concentrado nisso".

foto: Alexandre Rezende/Encontro
(foto: foto: Alexandre Rezende/Encontro)
ENCONTRO - As grandes cidades brasileiras têm salvação?
JAIME LERNER - Sim. Existem três pontos que são fundamentais não só para as cidades, mas para a humanidade: mobilidade, sustentabilidade e convivência, ou tolerância social. Esse é, hoje, o drama das cidades. Mas é possível ter cidades que apresentem boas soluções para mobilidade urbana, que sejam sustentáveis e onde a convivência e a diversidade social melhorem a relação entre as pessoas. Infelizmente, temos também hoje, no país, a cultura da tragédia.

O que é isso?
Todo mundo pensa que as cidades são inviáveis. E, na verdade, se projetarmos a tragédia, vamos encontrar a tragédia. O que temos de fazer é investir nossa energia para mudar tendências que não são desejáveis. A tendência de caos urbano precisa ser modificada. E as coisas precisam acontecer de maneira mais rápida. Há uma espécie de síndrome de desconfiança em relação a qualquer ação de governo, que paralisa a ação de todos. E temos também muitas coisas com o foco errado.

O quê, por exemplo, tem o foco errado?
Na questão da mobilidade, temos essa eterna discussão sobre o que é prioritário: o carro ou o metrô. Mas a solução para a mobilidade não está nem no carro nem no metrô. Ela está no conjunto de modos de transporte que trabalhem de maneira integrada. Hoje, não se consegue ter uma rede completa de metrô em nenhuma cidade do mundo. As cidades que têm redes completas, como Londres, Paris, Moscou e Nova York, construíram-na há 150 anos, quando era barato trabalhar no subsolo. Hoje é muito difícil. Então, muitas cidades terão uma, duas ou três linhas de metrô. Ou nenhuma. Mas o fato é que já existe a possibilidade de conferir ao ônibus a mesma perfomance do metrô. É possível "metronizar" o ônibus.

Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Alexandre Rezende/Encontro)
O sr. está se referindo ao BRT?
Sim. O BRT está sendo aplicado de maneira distinta em muitas cidades, mas já é um sinal de que estamos priorizando o transporte público. São Paulo tem quatro linhas de metrô, mas 80% da população se desloca na superfície. Então, é a superfície que deve ser melhorada. Por isso, metronizar o ônibus é possível. Nós começamos em Curitiba, em 1974, um sistema de mobilidade urbana que hoje está sendo aplicado em 166 cidades do mundo, inclusive em Belo Horizonte, com o BRT. Bogotá (Colômbia), Seul (Coreia do Sul), Istambul (Turquia) e muitas cidades da China, Europa, Estados Unidos seguem esse modelo. Não podemos sacrificar gerações inteiras à espera de uma rede de metrô quando podemos dar uma resposta imediata em três anos – e com qualidade.

Onde entra o automóvel nisso?
Nas cidades atuais, automóvel é inviável. Eu costumo dizer que o automóvel é o cigarro do futuro. Não é que não vá mais ter automóvel. A mudança tem de vir na maneira de usar. O automóvel vai continuar gerando empregos, vai continuar existindo para as viagens, para o lazer. Mas, para o dia a dia nas cidades, vamos ter de buscar outras soluções de transporte, seja o BRT, seja a bicicleta, seja o transporte público individual.

O que seria transporte público individual?
Carros elétricos, que não pertencem a uma única pessoa, mas fazem parte de um sistema de transporte público. O cidadão usa e paga apenas o consumo de energia. Acredite: isso vai acontecer. O simples fato de a sociedade detectar uma tendência que não é desejável é o começo da mudança. Isso está provado e a história das cidades tem mostrado isso. É o caso da sustentabilidade. As cidades não são tão complexas quanto os vendedores de complexidade querem nos fazer acreditar – e o mundo está cheio de vendedor de complexidade. As cidades podem ser sustentáveis. Sustentabilidade é uma equação simples entre o que você poupa e o que você desperdiça. Se o desperdício for zero, a sustentabilidade aumenta. Além disso, 75% das emissões de carbono originam-se nas cidades. Então, é nas cidades que podemos dar grandes contribuições à sustentabilidade.

De que maneira?
Usar menos o automóvel é uma delas. Mas, para isso, precisamos de boas alternativas de transporte público. Precisamos separar o lixo. E precisamos morar mais perto do trabalho ou trazer o trabalho para mais perto da moradia. Isso será essencial para garantir a sustentabilidade das cidades. Precisamos ter moradia, trabalho e lazer juntos. A metáfora que uso para explicar isso é a tartaruga. A tartaruga é o exemplo de moradia, trabalho e mobilidade juntos. E, ao mesmo tempo, o casco tem o desenho de uma ossatura urbana, de uma textura urbana. Então, você pode imaginar o que aconteceria se cortássemos o casco da tartaruga, separando o morar ali, o lazer aqui e o trabalhar ali: mataríamos a tartaruga. É isso o que está acontecendo em muitas cidades. Quando separamos as funções da cidade ou as pessoas por renda, criamos guetos. Quanto mais mesclarmos, mais humana a cidade ficará.

Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Temos no Brasil bons exemplos desse modelo?
Existem bons exemplos em alguns lugares. Mas o problema das cidades não é a escala nem a falta de dinheiro. Em três anos, pode-se fazer um avanço significativo na qualidade de vida de uma cidade, desde que se consiga montar uma equação de corresponsabilidade. Vou dar um exemplo: o transporte coletivo em Curitiba. Não tínhamos recursos ou uma frota nova, que custaria US$ 300 milhões. A solução foi uma equação de corresponsabilidade, em que o setor público investiu no itinerário, as empresas privadas investiram na frota e nós pagamos por quilômetro rodado. Com isso, o sistema se viabilizou com uma qualidade que é referência no mundo inteiro. Outra boa equação é o BRT, mas ele exige várias etapas, e não só uma pista exclusiva. O BRT exige uma rede integrada de transporte. Quando começamos com o sistema em Curitiba, em 1974, transportávamos 50 mil passageiros por dia. Hoje, são 2,8 milhões. Para se ter uma ideia de comparação, o metrô de Londres transporta 3 milhões. Isso mostra que não é difícil criar uma boa rede de transporte público, desde que se trabalhe com planejamento e etapas.

Qual sua avaliação sobre a mobilidade urbana, particularmente o BRT, em Belo Horizonte?
Belo Horizonte está na etapa de boas estações de embarque e desembarque e pistas exclusivas, mas ainda é importante ter o conceito de rede. E ainda precisa aperfeiçoar as linhas existentes, porque, quando se colocam muitas linhas numa pista exclusiva, tem-se um número grande de estações, que tiram a velocidade do transporte. Mas isso vem com o tempo. É uma evolução natural.

Tivemos, recentemente, uma série de manifestações populares cujo estopim foi justamente a questão do transporte público. O sr. acha que governantes e candidatos à Presidência da República e governos estaduais ouviram as ruas?
Se ouviram, ainda não apresentaram propostas – mas fatalmente vão tratar do assunto. É importante notar que o problema de tarifa do transporte, por exemplo, é uma questão política. É a vontade do poder público de subsidiar mais – ou menos – o transporte público. E, independentemente das tarifas, precisamos ter qualidade. Se não houver qualidade, as pessoas não se sentem respeitadas. A insatisfação vai acontecer.

O sr. teve uma carreira política longa e bem-sucedida. Como vê o cenário político no Brasil hoje?
Estou afastado da política há 12 anos. Mas vejo com tristeza o panorama nacional.

Por quê?
Porque as respostas às necessidades da população são demoradas. Usando uma metáfora de futebol, o Brasil parece um time que vibra com os lançamentos, e não com o gol. Os governantes lançam programas, lançam, lançam... e as coisas não acontecem. Isso gera descrença em relação ao poder público. Há um excesso de burocracia, um excesso de xerifes, e cada etapa de um programa tem seu componente de corrupção. Tudo isso aumenta a insatisfação da população. Então, precisamos que, primeiro, existam propostas para a questão urbana. A população precisa saber qual é o cenário que um candidato está propondo. Qual é a ideia, o projeto. Uma campanha política não pode ser um relatório de promessas. Tem de ser um cenário muito claro. Eu espero que isso aconteça nestas eleições. Mas estou vendo que, em muitas cidades, em muitos estados, a situação de descrença está estabelecida. Tivemos muitos programas que deram respostas erradas.

Qual é um programa que deu resposta errada?
A questão da Copa é uma vergonha. Se há uma coisa que não faltava para o Brasil eram estádios. Nós os temos em profusão. O que falta para o Brasil é uma boa logística aérea e uma boa mobilidade urbana. Deveríamos ter nos concentrado nisso. O povo esperava que, com a Copa, houvesse um legado, e que esse legado não fossem só dívida e estádios que, em muitas capitais, serão usados apenas uma vez, como em Manaus e Brasília. Teremos de inventar coisas para que esses estádios sejam usados. Eu sugiro o vaiódromo. Vamos transformar os estádios em lugares para que as pessoas possam vaiar os governantes – os vaiódromos. Nós vamos lá para vaiar. Aí os estádios vão ficar cheios.

Nesses 12 anos em que o sr. ficou afastado da política, observou alguma evolução no país ou ficamos parados no tempo?
Sempre teremos bons e maus exemplos. Mas a classe política se afastou da população. Os partidos se transformaram em cartórios de tempo na televisão. São falsos e inúmeros. Aí, os acordos de governabilidade começam a se tornar difíceis, complexos e onerosos. Precisamos de alguém que consiga viabilizar um grande acordo de lideranças neste país. Ainda temos lideranças bem-intencionadas para fazer uma reforma política que possibilite respostas dignas à população. Essa vinculação dos partidos ao tempo de televisão é trágica, passou a ser um esquema de negociação e de corrupção muito grande e precisa ser repensada. Não sou mais um militante político, mas não posso me omitir. Onde puder, darei minha contribuição. Sou muito novo para ficar velho.

Quem seriam essas lideranças?
Não vou citar nomes. Aí já seria militância...(risos)

Como o sr. avalia o governo da presidente Dilma?
Acho que ela começou bem, mas agora o desgaste é evidente. Talvez ela tenha se tornado refém de situações já acertadas. Ela começou a perder o espaço necessário para governar. Entramos numa curva descendente perigosa. Mas acredito que o povo brasileiro tenha condições de mudar isso.

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