Eles fazem milagre dentro de casa

Modernos, criativos e estilosos. Quem são os arquitetos e decoradores que estão mudando o jeito de morar dos mineiros

por Marina Santos 06/08/2014 16:42

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Foto: Samuel Gê/Encontro
(foto: Foto: Samuel Gê/Encontro)
Criada em um pequeno apartamento em Belo Horizonte, quando menina, a design Eliane Pinheiro tinha um sonho: queria um quarto só para ela. E ficava imaginando como seria, especialmente enquanto percorria as estradas de terra que levavam à casa da avó, na cidade de Congonhas. Quando pegava a estrada de volta, Eliane sonhava em levar junto um dos muitos quartos da espaçosa casa. "Pensava que poderia transportá-lo sobre rodinhas", conta. "Queria muito ter meu cantinho."

Hoje, Eliane conquistou bem mais do que o próprio espaço. Com 40 anos de carreira, tornou-se referência em design de interiores, para além das fronteiras de Minas. Foi uma trajetória longa e, como tantas outras, nem sempre fácil.  Ainda recém-formada, dava aulas de acústica e iluminação, ao mesmo tempo que administrava uma loja de mobiliário. À noite, recebia clientes em sua residência, onde divulgava seus projetos luminotécnicos. "Na época, eu não tinha condições de alugar um local só para servir de showroom. Então, criei várias cenas de iluminação dentro da minha casa e levava os clientes para lá", conta. Isso em um período em que computador era quase invenção futurista e tudo era feito à mão. "O mercado mudou muito desde que me formei", diz.

Fotos: Samuel Gê/Encontro e Eugênio Gurgel
(foto: Fotos: Samuel Gê/Encontro e Eugênio Gurgel)
Mas não foi apenas o avanço tecnológico que imprimiu novo modus operandi à profissão. O mercado mineiro de decoração ganhou outros contornos nos últimos anos, pois nunca se investiu tanto no morar bem. "As pessoas buscam qualidade de vida, e esse é o grande motivo que as levam a investir em design de interiores", diz Laura Rabe, presidente da Associação Mineira de Decoradores de Nível Superior (Amide). Para ela, a expansão do mercado está muito ligada à democratização de acesso aos profissionais, já que esse tipo de serviço deixou de ser considerado luxo. Além disso, o segmento acompanhou de perto o boom do mercado imobiliário. Com a circulação de publicações específicas e o aumento de mostras e feiras na área, apurou-se o gosto dos clientes, principalmente dos mineiros, considerados muito exigentes. "Isso não é problema, porque temos profissionais à altura", diz Laura. "Nossos designers e arquitetos são talentosos e criativos, reconhecidos em todo o país."

Cauteloso, o mineiro não se satisfaz com o fácil ou com o óbvio. Prefere testar todas as possibilidades para ter convicção de escolhas bem acertadas. "É engraçado. Tenho clientes que consultam a família toda, pedem opinião até para o vizinho antes de se decidir. E, depois de várias mudanças, acabam voltando ao projeto inicial", diz a arquiteta Eduarda Corrêa. Apaixonada por desenho, Eduarda queria ser artista plástica. Chegou a fazer curso na Escola Guignard, mas optou mais tarde pela faculdade de arquitetura. "Minha mãe reclamava do farelinho de borracha espalhado pela casa. Então, transformamos o quarto dos fundos no meu primeiro escritório", conta. Hoje, a arquiteta lidera uma equipe que desenvolve as perspectivas de projetos em 3D e gosta mesmo é de colocar a mão na massa. "Tudo precisa ter meu dedo. Escolho os mínimos detalhes e participo de toda a montagem", diz Eduarda.

Fotos: Samuel Gê e Paulo Márcio/Encontro
(foto: Fotos: Samuel Gê e Paulo Márcio/Encontro)
Imprimir identidade a cada projeto é, sem dúvida, um dos maiores desafios para quem atua no setor. "Os espaços estão muito ligados à memória afetiva das pessoas e devem ser coerentes com os estilos de vida delas", diz o arquiteto David Guerra. Bom aluno em matemática, ele chegou a prestar vestibular para computação. "Mas quando descobri que programar era sequências de zero e 1, achei muito chato", conta. Com projetos em diferentes estados e até em Miami, ele acredita que o bom é o duradouro. "Tendências são criadas para incentivar o consumo. Mas o elegante é aquilo que seduz por anos", diz o arquiteto mineiro, que saiu de Santa Maria de Itabira para carregar o nome do estado mundo afora. David foi o único brasileiro convidado a participar da 14ª Bienal de Arquitetura de Veneza, considerada o mais importante evento de arquitetura do mundo, que teve início em junho e se encerra em novembro.

Quem pode ser reputado especialista em projetos arquitetônicos para o segmento de moda é o arquiteto Carlos Alexandre Dumont, conhecido como Carico. Ele projetou lojas de vestuário e calçados de marcas como Fórum, Rosa Chá, Patachou, Art Man, Sergio’s e Arezzo. "As pessoas viajavam para fora, visitavam a Prada e a Louis Vuitton. Voltavam querendo lojas como aquelas", diz Carico, que há oito anos é diretor da Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD). Segundo ele, desde o fim da década de 1980 já se pensava que a roupa era parte importante da personalidade das pessoas e as lojas deveriam trabalhar esse conceito também na arquitetura, a fim de valorizar os produtos. "Mas meu trabalho é pano de fundo em um teatro. Ninguém compra o ingresso de uma peça para ver o cenário", diz.

Fotos: Rogério Sol e Roberto Rocha/Encontro
(foto: Fotos: Rogério Sol e Roberto Rocha/Encontro)
Carico tem trabalhos espalhados pelos quatro cantos do Brasil e também nos EUA. Contabiliza mais de 2 mil projetos. "Sempre fui viciado em trabalho. Acho que o bom arquiteto é como o médico de CTI: dedicação em tempo integral", diz. No período da faculdade, Carico já tinha escritório, junto a outros seis colegas. Entre eles, Sylvio Podestá, outro grande nome da arquitetura mineira e nacional. "Ele foi como um mentor para mim", diz.

Mais do que dedicação ao trabalho, é preciso também muita paciência e diálogo para entender o sonho dos clientes e torná-lo realidade, acredita a designer de interiores Tânia Salles. "Costumo brincar que temos de ser um pouco psicólogos", diz Tânia, explicando que o profissional de design de interiores adentra o núcleo íntimo das famílias e deve entender a rotina de quem ali vive. Por isso, a química entre profissional e contratante é fundamental. "Os projetos mais demorados e trabalhosos são de clientes que não gostam de opinar. A moda é sazonal, já a decoração não. É preciso que o contratante dê a sua cara para ficar satisfeito com o resultado", diz. Tânia assina uma série de projetos para a rede hoteleira e para grandes construtoras da capital.

Fotos: Cláudio Cunha
(foto: Fotos: Cláudio Cunha)
Com a diversidade de produtos e materiais hoje disponíveis no mercado, é comum que as pessoas se sintam inseguras na hora de planejar ou reformar a casa. O leque de possibilidades é grande e atende a diferentes níveis de empreendimentos. "Existe a torneira de R$ 300 e a de R$ 3 mil. Acredito que é uma questão de sensibilidade e profissionalismo saber orientar o cliente de acordo com o gosto e o bolso dele", diz a designer de interiores Gislene Lopes. Mineira de Montes Claros, Gislene considera que o bom profissional precisa ser flexível, especialmente quem, como ela, atende a projetos de A a Z. Ela já foi requisitada por famosos como a cantora mineira Paula Fernandes.

Baiana de nascimento mas mineira de coração, Anaíne Pitchon também se instalou em Belo Horizonte para cursar a faculdade de arquitetura e urbanismo. E não saiu mais. Com projetos em outros estados, além de sua terra natal, ela aprendeu que em Minas se ganha o público de mansinho. "O mineiro é desconfiado, não se dá por convencido facilmente", diz. Mas Anaíne gosta desse desafio. "Acho que, quanto maior a bagagem cultural e a sensibilidade do cliente, mais enriquecedor é o projeto", diz.

Eugênio Gurgel e Rogério Sol/Encontro
(foto: Eugênio Gurgel e Rogério Sol/Encontro)
A ideia é reforçada pela arquiteta Márcia Carvalhaes: "Os clientes estão dando mais trabalho", brinca. "Viaja-se mais, vai-se mais ao cinema. O nível de educação tem aumentado em todos os setores e, com maior acesso à informação, o senso de estética melhora." No caminho inverso ao de muitos colegas de profissão, a belo-horizontina deixou as montanhas, como diz, para estudar no Rio de Janeiro. "Foi uma mudança interessante, pois lá a conversa era muito voltada para fora do Brasil. Convivia com muitos estrangeiros", conta. De volta a BH, abriu o próprio escritório e já ultrapassa a marca de três décadas atuando com projetos de arquitetura e interiores."Estou em minha maturidade profissional", diz.

Também satisfeita com os rumos de sua carreira, a arquiteta Graziella Nicolai não se arrepende de ter trocado as piscinas pela arquitetura. Ex-atleta, ela chegou a prestar vestibular para fisioterapia, mas logo percebeu sua vocação para o "belo". Como em todo início de carreira é preciso mais suor que talento, Graziella teve de enfrentar muita obra, trabalhando para construtoras desde a faculdade, antes de chegar ao patamar que desejou. Foram experiências importantes nas diversas etapas de um projeto, do conceito arquitetônico ao acabamento e à decoração. "É interessante notar que hoje o arquiteto atua muito voltado para a área de interiores, pois temos também de planejar espaços e fazer reformas pensando no todo e de forma integrada", diz. Os atrativos de convivência e lazer e a conectividade dos espaços têm imposto novos desafios aos profissionais da área. "Não existe mais aquela divisão entre os cômodos: aqui é a sala de visitas, ali a sala de TV, lá a cozinha. Tudo é feito para ser usado e investe-se mais nas áreas sociais", explica.

Cláudio Cunha e Rogério Sol/Encontro
(foto: Cláudio Cunha e Rogério Sol/Encontro)
O resgate do receber as pessoas em casa é outro motivo que faz com que se recorra mais aos profissionais da área. As pessoas estão mais instrospectivas, sentem-se mais seguras em casa e acabam incorporando diferentes hobbies à intimidade do lar. A culinária, por exemplo, passou a ter um glamour no morar. É o que pensa a designer de interiores Cícera Gontijo. "A cozinha sempre teve importância para o mineiro. Se antes era lugar reservado, virou espaço gourmet, está em evidência e passou a integrar a área de convivência", explica. Boa hospitalidade – outra característica marcante da "mineridade" – é um traço que Cícera carrega da mãe. Ela conta que a matriarca sempre gostou de receber e por isso a casa sempre estava bem arrumada e, de tempos em  tempos, com a decoração reformulada. "Quando pego as fotos dos meus aniversários, parece que a cada ano havia me mudado de casa, pois o cenário nunca era o mesmo", brinca Cícera.

A herança familiar também foi decisiva na carreira de Myrna Porcaro. O pai, engenheiro civil, foi responsável por erguer a casa onde vive até hoje, em Belo Horizonte. A residência, muito moderna para a década de 1970, recebeu projeto de arquitetura e paisagismo. "Via os desenhos na prancheta e depois se materializarem no concreto. Era um delírio para mim", conta. A arquiteta morou em Paris por dois anos para estudar. Com espírito cosmopolita, de volta ao Brasil, dividia-se entre a capital mineira e São Paulo, onde também abriu um escritório. Recentemente, ampliou seus negócios para Miami.  "De duas décadas para cá, conseguimos provar para o cliente que contratar um profissional significa maior segurança na escolha dos materiais, emprego de tecnologia que reverterá em benefício próprio e melhor aproveitamento dos espaços", diz.

Fotos: Cláudio Cunha e Eugênio Gurgel
(foto: Fotos: Cláudio Cunha e Eugênio Gurgel)
Com o metro quadrado mais raro e caro nos grandes centros urbanos, otimizar os espaços tornou-se indispensável. Não é incomum encontrar condomínios com amplas áreas sociais, que quase se assemelham a clubes, e, em detrimento disso, dispõem de área privativa reduzida. Para a designer de interiores Lena Pinheiro, é um desafio conseguir colocar tudo o que o cliente deseja em locais de dimensões nem sempre vantajosas. "As pessoas hoje sentem a necessidade de contratar um designer não apenas por uma questão de beleza, mas por questões funcionais. É preciso soluções inteligentes para os ambientes", diz.

A valorização dos profissionais da área também é sentida pela designer Maria Helena Botrel. Para a mineira de Araguari, cresce a consciência de que, mesmo que se tenha bom gosto e criatividade, é preciso suporte técnico para um resultado harmônico e execução sem contratempos. "Com os custos altos dos empreendimentos, passou-se a requisitar mais a ajuda de profissionais para evitar erros", diz. Maria Helena também percebe que o design ganhou novo vulto e conquistou espaço até mesmo no universo corporativo. "Produtividade está ligada a bem-estar. A visão do empresariado hoje é de proporcionar esse aconchego também no trabalho", diz.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
Prova disso são os trabalhos executados pela arquiteta Patrícia Hermanny. Ela esteve à frente de projetos para empresas, entre elas a Usiminas. Assina também a Galeria Celma Albuquerque, referência no circuito artístico da capital. Realizada no meio em que decidiu atuar, ela passou o amor à profissão para as duas filhas. Uma faz estágio na área e a outra cuida do escritório em São Paulo, em parceria com a mãe. "O cliente ideal é aquele que sabe o que quer, tem personalidade e aposta nas suas ideias", diz.

A diretriz profissional da arquiteta Zilda Santiago também foi passada pelo DNA. Foi no escritório do pai que aprendeu a profissão e conheceu sua parceira, Anamaria Diniz, na época estagiária, com quem trabalha desde 2000. Atendendo principalmente a projetos residenciais, elas já fizeram apartamentos modelo para construtoras e hoje percebem uma mudança no perfil do público, não apenas socioeconômico, mas também na faixa etária e estrutura familiar. "Muitos clientes são jovens solteiros, pois as pessoas estão casando mais tarde", diz Zilda. Mas querem garantir o mesmo conforto e comodidade que tinham na casa dos pais.

Uma das arquitetas mais requisitadas aqui e no exterior, com projetos na Alemanha, França, Portugal, Bélgica e Uruguai, Ângela Roldão não abre mão da ousadia para supreender os clientes. "Gosto de ir além do esperado", diz. Credibilidade, ela tem de sobra. Formada no Rio de Janeiro, morou em Munique, onde deu continuidade aos estudos. "Tenho muitos clientes estrangeiros, pois acho que guardei um traço do tempo em que vivi na Europa", diz. Na capital mineira, é reconhecida pela reforma do antigo Cine Palladium, seu projeto de maior visibilidade. Segundo Ângela, as pessoas que contratam bons profissionais percebem os benefícios ao usufruírem dos espaços em seu cotidiano e depois na valorização dos imóveis. "Com frequência, reformo projetos que não deram certo. Mas nunca tive um cliente insatisfeito", diz. Por sorte, como ela mesma diz, "Minas é tradicionalmente cheia de bons profissionais".

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