Internet para vestir

Óculos inteligentes, relógios, anéis e até bonés começam a conectar pessoas e máquinas com o intuito de facilitar as tarefas diárias. Mas a hiperconexão preocupa especialistas

por Alysson Lisboa 11/08/2014 14:02

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Tiago Mamede/Encontro
A professora Luciana Andrade diz que falar de privacidade na era da hiperconexão é uma contradição: "O íntimo está cada vez mais exposto" (foto: Tiago Mamede/Encontro)
Você sabia que, diariamente, uma pessoa tira o celular do bolso pelo menos 150 vezes para checar e-mails, mensagens, atualizações do Facebook e dezenas de outras redes sociais? O hábito de consultar o telefone frequentemente atinge todo mundo na era da hiperconexão. Pensando nisso, as gigantes como Google, Apple, Motorola, LG e outras empresas, inclusive brasileiras, investem em soluções para reduzir o acesso das pessoas ao telefone celular e oferecer outros tipos de vantagem. Estamos entrando na era da internet "vestível" ou wearable technology, como é conhecida nos Estados Unidos. Uma nova perspectiva em que máquinas cada vez mais inteligentes revestem o corpo para uma conexão ininterrupta, 24 horas por dia, sete dias por semana.

A chamada Internet das Coisas incluirá 200 bilhões de dispositivos no mundo até 2020 e movimentará um mercado de mais de US$ 300 bilhões. São relógios, pulseiras, anéis, óculos e até bonés que se conectam a outros objetos para facilitar o dia a dia. Uma das justificativas para a inovação é reduzir o número de mortes no trânsito, ocasionadas pelo uso do celular ao volante. Nos Estados Unidos, a prática já é a primeira causa de acidente automobilístico.

Os relógios de pulso, um pouco abandonados após a chegada dos celulares, ganham novas funções e banho de tecnologia. Modelos inicialmente utilizados como pulseiras fitness para auxiliar a prática de exercícios físicos tiveram suas funções ampliadas e foram integrados a celulares mais modernos. Hoje, aliando relógios inteligentes e aplicativos, é possível conectar médicos, hospitais e academias para avaliação constante de diversos indicadores de saúde.

Outro caminho que a internet faz é a aplicação de códigos para transmissão de dados de seus usuários. O paulista Bruno Tozzini criou o DON-Ahead, um boné dotado de tecnologia Rfid que foi criado de modo experimental e já está em testes. Ele já tinha uma marca de chapéus e resolveu inovar. O código RFid, um sinal semelhante ao Bluetooth, foi implantado na parte da aba. "Abrimos venda de poucas unidades – já esgotadas – e enviamos para algumas pessoas fazerem testes e nos mandar as primeiras impressões", explica Tozzini, fundador da Ahead. O lançamento comercial do produto está previsto para os próximos meses. O código no boné envia sinal para um dispositivo em um estabelecimento que identifica o usuário e dispara informações sobre, por exemplo, passe livre em festas e boates, descontos e promoções.
Outra novidade que chega ao mercado neste ano são os anéis inteligentes. Com tela de LED curva e design bem atraente, o acessório mostra funções como data, hora, notificações de mensagens, e-mails e alarme. Para se ter uma ideia do interesse das empresas pelos vestíveis, a Smarty Ring, que produz os anéis inteligentes, buscou apoio por meio do modelo de doações crownfunding para arrecadar US$ 40 mil. O objetivo era iniciar a pesquisa e o desenvolvimento do produto. Até dezembro de 2013, havia conseguido quase US$ 300 mil.

Entre todos os dispositivos que chegam ao mercado, o Google Glass é o mais aguardado. Hoje, é possível comprá-lo na loja da Amazon por cerca de US$ 2 mil, mas o preço deve reduzir muito ainda. Para Bruno Tozzini, a tecnologia vestível, antes de tudo, tem de ajudar a resolver algum problema do dia a dia, ser útil, fashion e fazer com que o usuário tenha o mínimo de contato com telas, teclados e botões. E os óculos da Google propõem exatamente isso.

Uma das principais preocupações dos especialistas sobre o uso excessivo de dispositivos conectados ao corpo é a privacidade. Para que o Google Glass comece a filmar ou fotografar tudo que está sendo visto por meio da lente, basta um comando de voz. Para a professora da UNA, Luciana Andrade, falar de privacidade na era da hiperconexão é quase uma contradição. "O íntimo está cada vez mais exposto com as redes sociais e os processos de compartilhamento. Uma internet conectada ao corpo funciona da mesma forma que um celular usado em tempo integral. O importante é não ficar refém desses dispositivos e não comprar todas as promessas oferecidas", diz.

Mas o que as empresas de tecnologia buscam com tanta conexão em tantos dispositivos?  Um dos motivos é a publicidade OOH (sigla em inglês para out of home) ou mídia fora de casa, que está, cada vez mais, perdendo atenção da audiência pelo uso excessivo de celulares durante o deslocamento nos espaços urbanos. Por isso, é de se esperar que o marketing descubra e invada nossas vidas por meio dos novos dispositivos conectados. "Estar conectado o tempo todo é uma porta aberta para o bombardeio de publicidade, o que pode tornar a rotina estressante", diz Luciana.

Um forte movimento tenta coibir o uso de telefones celulares em bares, restaurantes e boates, locais propícios ao bate-papo presencial. O assunto ficou tão sério que virou até verbete no Wikipedia – o phubbing, como é conhecido o ato de ignorar outra pessoa usando o celular, prática cada vez mais comum nos dias atuais. Para Bruno Tozzino, "as novas soluções tecnológicas podem ajudar nesse sentido, permitindo que a pessoa se desconecte sem estar desconectadoacompletamente", diz. Certo ou não, a internet não está mais presa aos celulares. É possível se vestir de tecnologia e aproveitar as vantagens da nova era que já está batendo à porta.

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