Patrimônio redescoberto

Conhecido pela qualidade do queijo produzido, Serro tem atraído número crescente de turistas. O desafio, agora, é preparar a cidade para receber os visitantes sem perder a tranquilidade de suas ruas e casarios históricos

por Rafael Campos - Encontro BH 21/08/2014 14:12

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Prefeitura de Serro/Divulgação
A tricentenária igreja de Santa Rita (ao fundo), com a tradicional escadaria: principal cartão-postal da cidade (foto: Prefeitura de Serro/Divulgação)
Sempre lembrada pelo queijo artesanal, a cidade do Serro, a 147 km de Belo Horizonte, na região Central do estado, está sendo redescoberta pelos turistas. E não é difícil entender os motivos. Depois de três séculos de história, completados este ano, o município do célebre compositor Lobo de Mesquita (1746-1805) e do político Teófilo Otoni (1807-1869) ainda conserva traços da antiga Vila do Príncipe do Serro Frio, considerada um dos principais distritos coloniais de Minas Gerais. Seu casario ainda está de pé, as ruas e igrejas conservam o tradicional ar setecentista mineiro. Agora, Serro está diante de um desafio: conciliar o grande movimento turístico com a calmaria e conservação que fizeram dela, em 1938, a primeira cidade brasileira tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Paulo Procópio/Divulgação
Queijarias são tradicionais no município: o modo de fazer o queijo, registrado como patrimônio imaterial de Minas, é passado de geração a geração (foto: Paulo Procópio/Divulgação)
O número de turistas aumenta 40% a cada ano, de acordo com o setor. Como Serro não dispõe de infraestrutura completa para atender bem os visitantes, o jeito é acomodá-los em cidades e distritos próximos, como Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras. Mas essa realidade está mudando, já que um hotel será erguido nas proximidades do centro histórico e uma série de ações em prol dos turistas está sendo apresentada. "Vamos instalar totens e um centro de apoio para os visitantes. Os comerciantes estão sendo incentivados a abrirem suas lojinhas de artesanato", diz Pedro Farnesi, secretário de Turismo e Cultura do município.

A ideia é também incentivar a produção de artistas anônimos e com talento de sobra. Cláudio Luciano Ferreira, de 46 anos, é um exemplo. Ele é escultor de imagens sacras, e sua obra mais famosa é uma réplica da imagem de Nossa Senhora do Rosário, que todos os anos participa dos cortejos da festa em homenagem à santa. "Aprendi sozinho. Desde pequeno, ia para roça com meus tios e ficava na olaria", diz o artista, que utiliza papel, isopor e biscuit para elaborar as peças.

Recentemente, uma notícia veio a calhar com o momento pelo qual passa a cidade. Serro foi um dos municípios mineiros beneficiados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – Cidades Históricas, projeto do governo federal de recuperação do patrimônio histórico. Igrejas, monumentos e museus serão restaurados. No total, o valor injetado será de R$ 22,3 milhões. Um dos monumentos agraciados será a igreja de Santa Rita, com sua famosa escadaria, principal cartão-postal da cidade.

O município vai ganhar ainda, em breve, o Museu Virtual das Tradições Culturais. Nesse espaço, os turistas ficarão sabendo que o território de pouco mais de 20 mil habitantes foi encontrado por um bandeirante chefiado por Antônio Soares Ferreira. A descoberta provocou grande alvoroço em busca do ouro nas antigas minas de Ivituruí.  Veio a prosperidade e as minas se transformaram em arraial,  elevado à vila em 1714. O nome? Vila do Príncipe. A então capitania das Minas Gerais foi dividida em quatro comarcas, uma delas, a de Serro Frio, que tinha como sede a Vila do Príncipe. Em 1838, a vila, finalmente, transformou-se em cidade, nomeada de Serro.

Samuel Gê/Encontro
O prefeito do Serro, Epaminondas Pires de Miranda, comemora a liberação para comercializar o queijo fora do estado: "Conseguimos negociar um valor bem mais competitivo" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Além do desejo de encontrar ouro, os portugueses trouxeram uma receita de queijo que ganhou sabor único. Seu modo de fazer foi registrado como patrimônio imaterial do estado em 2002 e, no ano passado, os produtores conquistaram uma vitória, com a possibilidade de comercializá-lo fora do estado, depois de 14 dias de maturado. "Agora, conseguimos negociar o laticínio a um valor bem mais competitivo que no mercado interno", diz o prefeito Epaminondas Pires de Miranda sobre a mudança. Pelo menos 11 cidades mineiras produzem queijo que leva a marca do Serro. Raul Clementino Júnior, de 73 anos, o Raulzinho, é um dos principais produtores da cidade. E, como reza a cartilha, a tradição foi passada de geração a geração. "Criei meus seis filhos com ajuda do queijo", diz Raulzinho, irmão de Dona Lucinha, proprietária de um dos restaurantes mais tradicionais de BH. Até o fim do ano, outra novidade. O Museu do Queijo vai abrir as portas para contar a trajetória do produto.

Mas os atrativos serranos vão além do laticínio. São muitas as festas que arrebatam grande público. É o caso do festejo de Nossa Senhora do Rosário, realizada desde 1728, a mais antiga da região. Sempre no primeiro domingo de julho, a data é marcada pelos dançantes, que representam personagens como caboclos, marujos e catopês, todos vestindo roupas coloridas, em cortejos pela cidade. "Estamos desenvolvendo ações de resgate da nossa cultura", diz Pedro Farnesi, secretário de Turismo.

O Degusta Serro é outro festival que atrai turistas e moradores de cidades próximas, uma vez por mês. Durante o evento, enquanto os músicos da cidade se apresentam, o público saboreia as delícias da região, como o feijão cerrado, pastel frito e o tropeiro.

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