As Donas da bola

Longe dos estereótipos de dondoca ou madame, elas estão focadas em seus projetos profissionais, assessoram os maridos e têm muitas histórias para contar. Conheça as mulheres de alguns dos principais jogadores de futebol do Atlético e Cruzeiro

por Marina Dias e Ludymilla Sá 16/09/2014 14:02

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Fotos: Samuel Gê, Cláudio Cunha e Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Fotos: Samuel Gê, Cláudio Cunha e Alexandre Rezende/Encontro)
Um celular quebrado. O que muitos consideram uma das chatices da vida moderna – ter de levar o telefone para o conserto – foi, na verdade, o cupido do jogador de futebol Diego Tardelli e da empresária Linda Martins. A paranaense, na época com 18 anos, estava ajudando na loja de um amigo, em Balneário Camboriú, quando o atleta apareceu para comprar um celular. Foi paixão à primeira vista. Mas como transformar aquele encontro proporcionado pelo acaso em uma nova oportunidade de se verem, sem que nenhum deles desse bandeira, claro, do interesse de um pelo outro? Que se bote a culpa na tecnologia! "Ele quebrava o aparelho só para ir à loja conversar comigo. Ficou assim uma semana inteira", conta Linda, casada há sete anos com o atacante do Atlético-MG, convocado recentemente por Dunga para a seleção brasileira.

De lá para cá, o casal já passou por muitas decisões de mudança de vida, algumas conjuntas, outras individuais. A primeira foi quando eles, já noivos, decidiram morar em Sevilha (Espanha), em 2005, ano em que Tardelli foi emprestado para o time espanhol Real Betis. Linda abandonou a carreira de atriz para acompanhar o atacante, no que seria o início da saga da família que, desde então, já passou por São Paulo e Rio de Janeiro, além de Holanda, Rússia e Catar. Hoje, moram em Belo Horizonte.

Foto: Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Foto: Alexandre Rezende/Encontro)
E não há uma fórmula. As viagens (constantes para muitos craques) podem ser positivas ou negativas na vida da família: um dos piores períodos de sua vida, segundo Linda, foi quando moraram na Rússia. Além de não conseguir se comunicar bem com as pessoas, ela ficava muito sozinha com os filhos (o mais novo, na época, com meses de vida) e sofria com a situação separatista da República do Daguestão, onde ficava o time em que Tardelli jogava. "As pessoas lá não têm o menor interesse em compreender outras línguas. Não era fácil fazer amigos", conta. Já um dos melhores períodos, diz, foi quando moraram em Doha, no Catar, em 2012. "O país é ótimo, não tem cobranças altas de impostos, e o Al-Gharafa (time em que Tardelli jogava) bancava tudo. Além disso, Diego foi bem, foi artilheiro da Copa do Rei, chamavam-no de homem do sheik", brinca.

Mas jogador é jogador, e ela diz que Tardelli logo começou a sentir falta do Atlético e a querer voltar ao país. Então, meia-volta, volver. "Já tenho isso muito claro na minha cabeça. Não tenho dúvida, vou aonde ele for", diz.  A história de Linda ilustra bem como é a vida de muitas mulheres de craques do futebol. Os privilégios, dinheiro, viagens e qualidade de vida são um (ótimo) lado da moeda, não se pode negar. Mas a solidão também é uma constante – os maridos viajam muito e trabalham nos fins de semana –, sofre-se com o assédio de fãs – muitas delas, saidinhas – e com a dificuldade de se dedicar a uma carreira própria. Além disso, a figura da "mulher de jogador" é carregada de preconceitos que muitas encaram como barreira para iniciar a relação, principalmente, a associação com as marias-chuteiras.

Foto: Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Por tudo isso, engana-se quem pensa que namorar jogador é considerado um privilégio por todas as mulheres. Karin, mulher do volante Nilton, do Cruzeiro, passou o telefone errado para o atleta quando eles se conheceram, há seis anos. "Estávamos numa festa, ele pediu meu telefone, dei um número qualquer. Não estava a fim", conta, aos risos. Um mês depois, no entanto, ela diz que se lembrou da simpatia e educação de Nilton e mudou de ideia. "Aí pedi o telefone para uma amiga em comum e liguei. Foi quando começamos a nos encontrar", diz a paulistana.

Assumidamente ciumenta, já na segunda vez que saiu com o atleta sua braveza se revelou. Quando viu que uma mulher tinha abordado Nilton para conversar, no bar em que estavam, esperou a garota ir ao banheiro e soltou os cachorros. "Nilton disse que eu era maluca e que precisava diminuir o tom. Já melhorei muito", diz a mãe de Giovanna, de 3 anos. Desde então, o casal está sempre junto. Karin vai a todos os jogos do marido, que não a deixou aceitar uma proposta para ser comentarista de futebol. "Eu ‘corneto’ mesmo e poderia, eventualmente, falar alguma coisa de um colega de clube. Não ia ser legal", diz Karin.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)
Responsável pela organização de toda a vida de Nilton, Karin conta que, antes de eles se conhecerem, o volante não guardava dinheiro e era displicente. "Quando fomos morar juntos, ele levou um jogo de faca, uma TV e um carro financiado", conta. Segundo ela, passaram por um processo de cortar amigos "interesseiros" do jogador e de se preocupar com as finanças, da qual ela também cuida. "Fiz um Nilton novo", brinca.

Se Karin fugiu do marido no início, Jéssica, mulher de Luan, do Atlético, decidiu namorá-lo quando não tinham dado sequer o primeiro beijo. O atleta, que jogava no Atlético de Sorocaba, passava de carro diariamente na porta da loja onde a paulista trabalhava. Galanteador, sempre mandava beijos e buzinava. Nada que impressionasse a menina de 17 anos, até o dia em que ele viajou com o time e não passou mais lá. "Como eu não sabia que ele era jogador e que estava viajando, imaginei que tivesse arrumado uma namorada, aí senti falta", diz. Criada pelos avós, Jéssica é muito tradicional e quando Luan finalmente entrou na loja e perguntou se ela queria namorá-lo, mandou logo uma frase de efeito: "Só se você me der uma aliança de compromisso". Ela queria ver se o garoto, na época com 19 anos, realmente queria algo sério. "Ele disse que tudo bem. No dia seguinte, me buscou na aula", conta. "Foi quando demos o primeiro beijo."

Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Não demorou muito para decidir que morariam juntos e se casaram logo depois. Quando vieram para BH, em 2013, Jéssica não se importou com a mudança e até trouxe mala e cuia dentro carro, dirigindo de Sorocaba para a capital mineira. "Como esposa, tenho de acompanhá-lo aonde ele for. Não reclamo disso e sei, inclusive, que comentários negativos podem atrapalhar o desempenho do Luan. Se mudar é bom para ele, é bom para nós", diz a recém-mãe da pequena Lara.

As mulheres de jogadores assumem, com frequência, essa postura de porto seguro incondicional. Isso porque, além de os parceiros terem carreiras curtas, o casal costuma morar longe de ambas as famílias e têm de se mudar de cidade sempre que o atleta troca de time. São, assim, o maior apoio dos jogadores. Contribui para isso, ainda, o fato de que esses atletas, comumente, saem de casa muito novos para tentar a vida no esporte, ficam longe da própria família e acabam se voltando para quem os acolhe na cidade onde estão, especialmente as namoradas. É o que diz a psicóloga e psicanalista Paula de Paula, professora dos cursos de psicologia e de educação física da PUC Minas. A partir daí, segundo ela, a união é natural, pois passam a levar as companheiras em viagens e nas mudanças. "Eles querem a companhia de alguém que é familiar, que julgam que vá ser a fiel escudeira, e, se for uma mudança para outro país, até alguém com quem possam conversar em seu idioma. A mulher entra nesse lugar de apoio e aposta nisso também", explica.

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
Para Daniela, baiana da cidade de Salvador, mulher de Leonardo Silva, a chegada à capital mineira, após seis meses de namoro com o zagueiro, foi apenas uma das mudanças a que teve de se adaptar. Seu marido saiu do Cruzeiro, aonde chegou em 2009, para se juntar ao elenco rival, o do Atlético, em 2011. "Não é todo atleta que encara essa mudança, pois BH não é como Rio ou São Paulo, cidades que têm quatro times grandes. São apenas dois, totalmente opostos e rivais. Tínhamos medo do que poderia acontecer", explica ela, lembrando que, na época, a decisão do jogador foi muito questionada, especialmente porque o Atlético, naquele ano, não teve bom desempenho. "Muita gente jogava na cara, dizendo que ele trocou de time para ficar na zona de rebaixamento. Mas nós, que confiamos em Deus, pensávamos que aquilo teria algum propósito", diz. "Acreditamos que é com o trabalho que conseguimos as coisas." Apaixonada pelo marido e pelo filho, Lucas, Daniela se lembra de quando começou a se relacionar com Leonardo Silva, ainda em Salvador, onde ele jogava. "Eu nem andava de mão dada com ele; não queria ficar rotulada", diz a baiana. "Isso pesou muito para mim, na época."

Referência para jogadores até mesmo de times rivais, o goleiro do Cruzeiro, Fábio, e sua mulher, Sandra, comemoraram, no ano passado, dez anos de casamento, dos quais nove em BH. Quando começaram a namorar, em 1995, ela tinha 16 anos e ele, 14. Os laços do casal e a relação com as famílias de outros jogadores se fortaleceram muito quando encontraram a religião. "Foi algo muito bonito na nossa vida", diz Sandra, sempre calma e de fala serena. Emocionada, ela se recorda de uma das primeiras experiências espirituais que viveram, que aconteceu depois de um jogo entre Atlético e Cruzeiro (primeira partida da final do Campeonato Mineiro de 2007). A atuação de Fábio na partida foi extremamente criticada. O goleiro levou um gol de costas, fez pênalti, tomou chapéu e o time perdeu por 4 a 0. Para piorar, Fábio ainda rompeu o ligamento. Quando não apareceu no jogo seguinte, não faltaram comentários de que a lesão era uma desculpa para não colocarem o jogador de novo em campo.

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
Recuperando-se em casa, o goleiro viu um programa de TV evangélico, sentiu-se contemplado pelo que o pastor dizia e teve a sensação de que se recuperaria da lesão em dois meses e 15 dias. "Ele me chamou e disse que Deus havia falado com ele. Eu não acreditei muito, mesmo porque os médicos disseram que a recuperação demoraria seis meses", diz Sandra. No entanto, algum tempo depois, o segundo goleiro do time se machucou e Fábio garantiu que estava bem para jogar, apesar da recomendação médica. Assim, ele voltou ao Mineirão em um jogo contra o Goiás. "Eu, da arquibancada, fiz as contas nos dedos. Havia passado exatamente 2 meses e 15 dias da lesão. Naquela hora, até chorei", diz ela, com lágrimas nos olhos. "Aí não largamos mais, decidimos ter uma vida santificada."

Desde então, a fé em Deus baliza todas as decisões do casal, inclusive a de recusar o contrato de um time espanhol para permanecer no Cruzeiro. Junto a outras esposas, Sandra tem um grupo de oração que se dedica, também, a abençoar os jogadores – já até deram a volta no Mineirão, abençoando o estádio. "O meio do futebol é muito turbulento, eu sentia necessidade de paz. Sofria pelo excesso de confiança e acesso fácil que os jogadores têm a tudo. Hoje sou muito tranquila, porque temos o mesmo direcionamento, zelamos por nossa família", diz.

Sandra é muito elogiada por receber bem novas famílias de atletas que vão chegando a BH. Foi assim, por exemplo, com a mulher de Éverton Ribeiro, Marília, que, apesar de formada em publicidade e propaganda, ama mesmo as artes cênicas. Sandra a indicou, então, para participar do Ministros da Alegria, grupo de teatro que faz trabalho voluntário nos hospitais Odilon Behrens e Santa Casa de Misericórdia. Marília participa do grupo até hoje.

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
Aliás, a mulher do meia do Cruzeiro, eleito craque do Brasileiro em 2013 e também convocado para a seleção de Dunga, foi das poucas que encararam um tempo de namoro a distância antes do casamento. Marília manteve sua relação com Éverton dos 17 anos até se formar na faculdade, em 2012, sendo que ela morava em São Paulo e ele, em São Caetano do Sul (SP) e no Paraná. "Em 2011, ele me pediu em casamento. Estava jogando no Coritiba e passava por um momento muito ruim. Estava sozinho, não engrenava e sofria muitas críticas. Então, decidi largar meu trabalho para acompanhá-lo. Daí, ele começou a arrasar", diz Marília, aos risos.

As redes sociais foram a maneira de os dois se comunicarem. Não muito diferente de Diane e Ricardo Goulart, artilheiro do Campeonato Brasileiro e outro convocado para a seleção do técnico Dunga. Eles, que se conheceram também novinhos (ela com 16 anos e ele com 14), passaram a usar a internet quando Ricardo saiu de São José do Rio Preto, onde nasceram, e foi para Santo André, onde o atacante começou a jogar nas divisões de base. Depois de oito meses, resolveram se casar, em 2009.

A situação do casal, que, como a de muitos atletas, era difícil financeiramente no início, começou a melhorar, segundo Diane, quando Goulart se transferiu para o Goiás. No time esmeraldino, o jogador teve o primeiro contato com a fama e despertou o interesse da diretoria celeste. O Cruzeiro, de acordo com a mulher, foi o ápice da carreira agora coroada com a convocação para a seleção brasileira. "A convocação foi uma proposta de Deus. Ele passou por tanta coisa, mas nunca desistiu. Aconteceu na hora certa para nós", diz Diane. A torcida agradece!

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