O choro que alegra BH

Idolatrado na década de 1930 e esquecido na década de 1960, o estilo supera as armadilhas do tempo e ganha força nas noites da capital mineira

por Daniela Costa 19/09/2014 16:38

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Samuel Gê/Encontro
O músico Alzier Vinicius, no Bar Pedacinhos do Céu: o local tornou-se referência em BH para quem gosta do ritmo musical (foto: Samuel Gê/Encontro)
Foi no quintal da casa dos amigos, nas reuniões feitas despretensiosamente no boteco da esquina, nas serestas e nos lendários saraus em família, que a primeira música popular instrumental tipicamente brasileira nasceu. O chamado choro, também conhecido como chorinho, surgiu no Rio de Janeiro em meados do século XIX, mas criou raízes em todo o Brasil, especialmente em Minas Gerais. "O choro em Belo Horizonte está ligado à história do rádio. Os primeiros conjuntos regionais surgiram na década de 1930 em função da procura das emissoras por novos talentos", diz o jornalista, radialista e cantor Acir Antão, que há 42 anos veicula um programa de choro e samba na rádio Itatiaia. "O mineiro realmente gosta de chorinho. Antes mesmo do sucesso nas rádios, os músicos já se reuniam em suas casas, em bairros afastados, para tocar nas rodas."

Ao som da tradicional trinca de flauta, violão e cavaquinho, os chorões conquistaram sucesso nacional compondo quadrilhas, tangos, polcas, xotes, maxixes e marchas inspiradas na música europeia, africana e indígena. Com a chegada de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o lendário Pixinguinha, que com sua inconfundível flauta e saxofone tornou-se o principal compositor do gênero no país, o choro ganhou novas proporções. Uma de suas mais famosas canções, intitulada Carinhoso, teve diversas releituras. Todas enlevadas pela melodia dos famosos versos: "Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê...".

Alexandre Rezende/Encontro
Frequentadores do Bar du Pedro, no bairro Santa Tereza, a nutricionista Silvana Simonini e o agropecuarista Marcello Campos: "Hoje é difícil encontrar lugares para ouvir música de qualidade", diz Silvana (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Na capital mineira, Belini de Andrade foi o compositor-intérprete que mais choros fez, enquanto Waldir Silva foi o primeiro a conquistar destaque nacional. Outro compositor de renome é Geraldinho Alvarenga, de 56 anos, autor da canção Belo Caso de Amor. A música foi feita em homenagem a Belo Horizonte em parceria com o cantor Paulinho Pedra Azul. "O chorinho é harmônico, melódico, histórico. É a base do samba, do forró e de diversos gêneros musicais genuinamente brasileiros. Sua qualidade garante a existência da boa música", diz Belini.

Com cadeira cativa nos bares da cidade, o choro se mantém firme ao longo do tempo, mesmo após perder a preferência dos ouvintes na década de 1960. Um dos bares pioneiros, Pedacinhos do Céu, foi fundado em 1996 pelo músico e compositor Alzier Vinícius dos Santos, de 52 anos, no bairro Caiçara. A casa de choro mais tradicional da capital já recebeu ilustres visitantes, entre eles políticos e artistas. "Recebi até o título de cidadão honorário por conta do trabalho realizado no bar. É um orgulho para mim", diz Alzier.

No Bar do Bolão, no bairro Padre Eustáquio, o Clube do Choro, que tinha encerrado suas atividades em 1989, junto com o bar Beco do Choro – primeira casa a tocar exclusivamente o gênero musical na cidade –, foi reativado em 2006, reacendendo a tradição das rodas de choro. "O bar já foi inaugurado com o chorinho. Meu pai, Raimundo (Bolão), tinha um conjunto regional. Até hoje temos o prazer de receber excelentes músicos, entre eles o Zito do Pandeiro", diz Haroldo Reis.

A paixão pelo choro é transmitida de bar em bar e, além de veteranos, atrai o público jovem, que faz questão de prestigiar os grupos regionais. "As rodas sempre abrem espaço para outros músicos darem a famosa canja. Foi assim que comecei a participar do grupo no Bar du Pedro, no bairro Santa Tereza", diz o músico Diogo Gonçalves, de 29 anos, que há quatro meses toca violão no local. Frequentadores do bar, a nutricionista Silvana Simonini, de 46 anos, e o agropecuarista Marcello Campos, de 43 anos, apoiam o resgate da boa música. "Hoje é tão difícil encontrar lugares para ouvir música de qualidade que acho incrível esse movimento do chorinho", diz Silvana. Seus adeptos garantem: "Tal omo Pixinguinha nunca será esquecido, o choro nunca vai morrer", diz Geraldinho Alvarenga.

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