Cuidado com o bruxismo

O ranger de dentes, principalmente durante o sono, é frequente em adultos e crianças e tem graves consequências. Especialistas indicam como identificar essa disfunção e quais os tratamentos

por Gabriela Garcia 15/10/2014 12:26

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(foto: Shutterstock)
Nem a dor intensa e constante na face, nem a reclamação dos filhos que, do quarto ao lado, ouviam um ruído intenso chamaram a atenção. Foi só quando perdeu dois dentes que a pedagoga Mônica Martins percebeu o impacto que o bruxismo – o ranger dos dentes durante o sono – causava em sua vida. Sono ruim e dor facial ao acordar eram sintomas que já se manifestavam até que, há seis anos, ela deu início ao tratamento ininterrupto para conviver com essa disfunção e evitar novos problemas.
 
Eugênio Gurgel
O uso de placas, segundo o dentista Victor Guimarães, é o mais indicado, mas medicação e atividades físicas também são recomendadas: "Os pacientes com bruxismo são mais ansiosos, detalhistas, perfeccionistas e sofrem por antecipação" (foto: Eugênio Gurgel)
O dentista Eduardo Mascarenhas, da Clínica Clarus, explica que na função normal os dentes não entram em contato uns com os outros durante a mastigação, porque os alimentos se interpõem entre eles. Esse contato só vai acontecer durante o ato de engolir, mas sem forças excessivas. Já no bruxismo, além de haver contato direto entre as superfícies dentais, há contração excessiva dos músculos da mastigação, muitas vezes bem maior do que as estruturas relacionadas poderiam suportar.

Por isso, embora surpreendente, o relato de perda de dentes não é raro no consultório de dentistas. Segundo  Eduardo Mascarenhas,  muitas vezes é apenas quando precisam extrair os dentes (porque já levam trincas até as raízes) que os pacientes se dão conta do bruxismo. Ele quase poderia ser considerado um "mal moderno": com altíssima incidência entre adultos e crianças. Fatores como estresse, tensão e ansiedade são apontados como as principais causas. Mas basta voltar atrás na história para perceber que essa  parafunção (quando se excedem as funções normais da boca, como mastigar e deglutir) é comum ao homem há bastante tempo. O termo "bruxismo" vem do grego brýkhmós, que significa ranger os dentes. Na Bíblia, a a expressão ‘ranger os dentes’ aparece várias vezes com o sentido de sofrimento, aflição e tormento.
 
"No consultório, observamos que pacientes com bruxismo apresentam o que chamamos de perfil "responsável". São muito ansiosos, detalhistas, perfeccionistas e sofrem por antecipação. Mas isso não pode ser confirmado como regra geral nem utilizado para realizar um diagnóstico", diz o dentista Victor Guimarães. Por esses motivos, além do tratamento ortodôntico por meio de placas rígidas ou macias (de silicone), que devem ser usadas ao dormir, e, até mesmo, o uso de botox para paralisar o músculo do maxilar (em último caso), tratamentos complementares são sempre bem-vistos (confira quadro).
 
Thiago Mamede/Encontro
O dentista Eduardo Mascarenhas explica que existe opção de uso de botox para paralisar a musculatura maxilar, mas só em último caso: "É alternativa quando o paciente responde mal ao tratamento convencional" (foto: Thiago Mamede/Encontro)
Mesmo com personalidade tranquila, a bancária Cristiane Galvão, de 27 anos, faz tratamento para bruxismo desde os 22. Em uma época de transição, logo após formar-se na faculdade, ela começou a sentir dor intensa na face logo ao acordar, que se amenizava com o correr do dia. O diagnóstico foi fácil: a mãe de Cristiane sofre do mesmo problema há muito tempo e aqueles sintomas já eram conhecidos em casa. Ainda que não existam associações comprovadas, o bruxismo, segundo dentistas, também pode estar ligado a fatores genéticos ou a problemas físicos de oclusão ou fechamento inadequado da boca, por exemplo. Apesar de muitos casos envolverem mulheres, os dentistas não se arriscam a afirmar que a questão de gênero também interfira nas ocorrências. "É certo que as mulheres cuidam mais da saúde e, consequentemente, procuram mais tratamento, o que pode causar uma ideia errada sobre a incidência", explica Eduardo Mascarenhas.

Perceber a existência dessa disfunção e a hora certa de procurar tratamento, no entanto, não é simples. Principalmente porque, na maioria do casos, as pessoas estão dormindo (bruxismo do sono) ou porque não notam um apertamento constante e discreto dos dentes quando estão acordadas (bruxismo em vigília). Isso faz com que os relatos de companheiros e familiares sejam parte importante do diagnóstico dos dentistas. Mas é no exame clínico que o profissional pode perceber o desgaste dos dentes e diagnosticar as diferentes variações para, então, determinar o tratamento adequado.
No caso de Mônica, o diagnóstico veio acompanhado de complementação de resina em muitos dos dentes já desgastados, além do uso da placa rígida e de acompanhamento médico para introdução de remédio controlado para ansiedade. A placa rígida, primeira opção dos dentistas, foi indicada para dormir, mas não funcionou bem e foi então substituída pela placa de silicone.

Uma terceira opção para quem não se adapta às placas, mas menos recomendada por dentistas, é o uso do botox. "O uso do botox é visto como uma opção porque paralisa a musculatura do maxilar, que é o responsável pelo ranger dos dentes. Mas isso requer reaplicações constantes e não é o mais indicado. É alternativa quando o paciente responde mal ao tratamento convencional", explica Eduardo Mascarenhas.

Até mesmo crianças sofrem dessa disfunção. É na faixa etária entre 5 e 8 anos que o bruxismo do sono alcança os índices mais altos na infância. Embora existam poucos estudos sobre o assunto, o dentista Victor Guimarães explica que a incidência costuma estar associada à erupção dos dentes incisivos centrais superiores.Também devem ser considerados outros fatores, especialmente relacionados à ansiedade. Crianças com bruxismo apresentam até 16 vezes mais chance de serem ansiosas. Nesse tipo de situação, a prática de esportes é indicada como boa alternativa para os pequenos.

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