Gênio indomável

Aos 82 anos, a artista plástica Yara Tupynambá relembra o tempo em que enfrentou os militares, fala do atual projeto de retratar a natureza de Minas e acredita que o artista tem de ir aonde o povo está

por Amanda Aleixo 15/12/2014 08:58

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
JC Martins/Encontro
Yara Tupynambá e seu trabalho mais recente: temática se relaciona com a geografia de Minas Gerais e as paisagens observadas pela artista (foto: JC Martins/Encontro)
Belo Horizonte, década de 1960. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os alunos encaram o regime militar com gritos de ordem, reuniões secretas e medo. Nesse cenário sombrio, a artista mineira Yara Tupynambá, professora da Escola de Belas Artes, dependura-se mais uma vez no andaime fixado na Reitoria da universidade para finalizar a obra Inconfidência Mineira. Encomendado por Gérson Boson, reitor deposto pelos militares, o painel, de 40 m de largura e 4 m de altura, conta a história da luta humana pela liberdade.  Faltava apenas uma frase para que Yara terminasse o trabalho, que já se estendia por dois anos, quando a "cassação acadêmica" de Boson veio a público.

"No dia em que eu estava dependurada lá para escrever a frase de Boson, os militares tomaram o campus e assumiram a Reitoria. Lá em baixo, onde eu estava trabalhando, eles me encaravam com metralhadoras nos ombros", relembra a artista em seu ateliê no bairro Vila Paris, Centro-Sul de Belo Horizonte. Com muito medo, Yara voltou para casa e decidiu, aconselhada pelo pai, cumprir sua palavra e pintar a máxima de resistência à ditadura: "Condição primeira para a cultura é a liberdade". "Voltei no outro dia e pintei essas palavras com as mãos tremendo. Os militares ficaram no meu pé durante uma semana, mas não passou disso", conta.

Hoje, aos 82 anos de idade, Yara Tupynambá carrega o mesmo espírito corajoso e inquieto demonstrado na defesa pela liberdade. E nem pensa em se aposentar. Uma das poucas alunas vivas de Alberto da Veiga Guignard, ela se empolga ao falar de seu último projeto: telas que retratam a natureza botânica de Minas Gerais, inspiradas no cenário visto no Centro de Arte Contemporânea Inhotim. O interesse por pintar a natureza segue, intacto, há quatro anos. A artista montes-clarense se embrenhou nas matas e reservas naturais do estado, como o vale do Tripuí e a mata do Jambreiro, para documentar o que viu com exatidão. A série Reservas Ecológicas de Minas Gerais reúne 14 telas em acrílico e segue o mesmo sucesso internacional das outras criações da artista. Cinco telas foram para fora do país, unindo-se às 2,5 mil telas que Yara tem espalhadas pelo mundo.

JC Martins/Encontro
Trabalho da série Jardim Botânico: tela aquarelada foi inspirada no Centro de Arte Contemporânea Inhotim e plantas do próprio jardim da artista (foto: JC Martins/Encontro)
Durante a carreira, Yara produziu 103 painéis e murais, espalhados pela cidade e em outros lugares do país, já rodou o mundo com exposições e foi sala especial na Bienal de São Paulo. Enquanto anda de um lado para o outro em seu ateliê – rico em cores e decorado por vasos de barro e telas de outros pintores –, ela defende que o artista tem de estar onde o público está. Por isso, não mediu esforços para criar o painel O Circo, que ocupa, desde 2012, o Teatro da Cidade. "A grande função do artista é fazer com que as pessoas cresçam espiritualmente. Por isso, precisamos estar onde as pessoas estão. Meus painéis me aproximam do público", explica.

A artista, que documentou a história de Minas Gerais em sua obra, também dedica seu tempo para lecionar arte. "Quero ensinar a meus alunos que a arte é o lenitivo da alma. Ela não serve para nada, mas é tudo, porque eleva o espírito e faz com que as pessoas reflitam sobre a vida", afirma. É com esse entendimento que a artista se tornou universal sem perder a essência de sua identidade.

Segundo ela, sua obra fala de sua pequena aldeia: Minas Gerais. "Essa terra é a minha pequena aldeia. Em meu trabalho vagueiam, sempre, as lembranças de minha infância e adolescência, que vivi em pequenas e poéticas cidades do interior", explica. É nessa aldeia que a mineira luta para que a cultura seja vivenciada por todos. Por isso, ela se uniu a outros artistas para viabilizar a criação do Museu Mineiro, onde as exposições agrupariam obras de artistas do estado. "Eu vejo que Belo Horizonte ainda é uma cidade com pouca cultura. Acredito que esses museus do Circuito Cultural mudarão esse perfil daqui a 10 ou 15 anos", explica.

Para Yara, sua missão como artista está longe de acabar, mesmo com alguns dos objetivos alcançados. Um deles atraiu sua dedicação por toda a vida. "Queria manter vivo o ideal da década de 1960 – o mesmo pintado sob metralhadoras. Acredito que consegui", afirma. O segundo é comum ao de outros artistas: estar em um meio que compreenda a arte. "Nesse aspecto, nós não tivemos essa percepção por completo. Uma pequena parcela da população percebe o que é cultura", diz. Com essas ambições e mais viva do que nunca, Yara Tupynambá mantém o espírito jovem e promete não deixar o pincel e a luta pela expansão cultural. Os apreciadores do seu traço e técnica agradecem.

Últimas notícias

Comentários