Minha boa ação de Natal

Conheça pessoas que, cada uma a sua maneira, levam alegria, carinho e presentes para comunidades carentes todo fim de ano, propiciando uma verdadeira celebração natalina a centenas de famílias

por Marina Dias 24/12/2014 10:00

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Foto: Thiago Mamede/Encontro
(foto: Foto: Thiago Mamede/Encontro)
Subindo as estradas de terra vermelho-ferro, para além das pirambeiras e dos caminhos cortados por riachos. Depois dos relevos, das colinas, das cidades. Aonde não chega luz e não passa carteiro, e onde o chão é de terra batida. Lá existe Papai Noel? Não se veem renas nem trenó. Enfeites de Natal e árvores decoradas são raridade, coisa para poucos. Não há shoppings com adornos enormes, com trenzinhos e bonecos de neve. Mas os moradores já sabem: todo ano ele vem - e chega de jipe.

É assim, sobre quatro rodas com muita tração, que não apenas um, mas mais de 40 Bons Velhinhos - entre homens, mulheres, jovens, adultos - chegam aos rincões destas Minas para levar a alegria do Natal a comunidades de difícil acesso, aonde carros de passeio não chegam. Em seus veículos 4x4, lotados de brinquedos, mantimentos e alegria, carregam um pouco do espírito de final de ano para mineiros que, antes do grupo Solidariedade 4x4, tinham desistido de acreditar em Papai Noel.

"É essa felicidade que mostram ao receber um brinquedo novo, uma cesta de Natal, itens de necessidade básica. Coisas às quais eles não costumam ter acesso. Fica claro no olhar, no sorriso das pessoas, que aquilo está fazendo a diferença", conta o advogado Sérgio Rosi, um dos membros do grupo e apaixonado por jipe desde a juventude.

Rosi faz parte de um time de pessoas que, todos os anos, vira Papai Noel durante alguns dias. Gente que se prepara meses para, em dezembro, levar um pouco de alegria e solidariedade a milhares de pessoas que, sem a iniciativa, talvez nunca soubessem o que é o Natal. Encontro ouviu alguma dessas pessoas para mostrar o que fazem.

Foto: Lindomar Rodrigues/Divulgação
(foto: Foto: Lindomar Rodrigues/Divulgação)
Santista de nascimento mas mineiro de coração, Rosi conta que os jipeiros passavam sempre pela região de Itabira, Santa Maria e Cabeça de Boi durante seus passeios e percebiam, no final de ano, que os moradores não tinham símbolos ou um significado profundo do Natal. "Quisemos materializar isso", explica ele, que foi convidado a participar do Solidariedade 4x4 em 2012, pelo fundador do grupo, o advogado Ivan Mercedo, e logo aceitou a proposta de recolher doações de brinquedos, material escolar, fraldas e outros itens, e usar seu jipe para ajudar no transporte até a região.

Todo dezembro, são dois dias de viagem, saindo sábado logo cedo e chegando de volta a BH no domingo à noite, muitas vezes sob chuvas torrenciais, comuns nesta época. No trajeto, os mais de 40 carros param em pequenas comunidades para entregar os presentes, mas também passam pelas casas isoladas no caminho. Comunicam-se por rádio para saber quantas são as pessoas e quais são as necessidades locais, para que os jipes que contenham esses mantimentos possam parar por lá. "Sabemos que não é suficiente, mas é uma contribuição, e com foco especial na simbologia do Natal, na essência genuína da criança e dos sonhos", explica o advogado.

Em outra comunidade isolada, Manja Léguas (distrito de Piranga, Minas Gerais), as crianças não conseguiam enviar suas cartinhas ao Papai Noel, pois não há correio por lá. Seus pedidos ficavam sem destino, assim como o sonho de ganhar uma bola nova, calçado do tamanho certo para quem cresceu de um ano para o outro, material escolar. Desde 2006, a empresária Hélida Mendonça, que tem uma fazenda a 3 km dali, encarna o papel de carteira e promove o elo entre os alunos da escola municipal do distrito — já chegaram a 140 alunos — e seus padrinhos, que atendem aos pedidos dos pequenos, escritos de forma educada e esperançosa em cada cartinha.

No Dia das Crianças, quando os estudantes visitam a fazenda de Hélida para brincar e passear, levam as correspondências, e a empresária trata de listá-las, dividi-las e entregá-las para familiares, amigos e colegas de trabalho. "Todos já sabem e gostam de ajudar. Esse tipo de ação não precisa ser feito sozinho. É importante envolver as pessoas próximas", afirma. É ela, ainda, quem recebe os presentes e os leva até a escola — junto, claro, com o Papai Noel. "A comunidade é isolada e até pouco tempo não tinha nem energia elétrica. Papai Noel era algo distante. Quando ele chega, vejo nos olhos dos pequenos que eles ficam refletindo sobre como é que o Bom Velhinho chegou lá", afirma.

Foto: Divulgação
(foto: Foto: Divulgação)
A empresária já ajudava a escola anteriormente e faz trabalhos em outras datas, além do Natal. Sempre em seu aniversário, pede como presente agasalhos e calçados para as crianças, bem como brinquedos e livros. Foi ela a responsável pela biblioteca e pela brinquedoteca da instituição. O Natal é uma - talvez a mais especial - de suas ações. "As pessoas precisam ter a humildade de ajudar com o que podem", reflete. "E o Natal é época de amor, de solidariedade", diz.

Mas não é preciso atravessar montanhas para encontrar pessoas para quem a esperança de fim de ano precisa de renovação e de incentivo. Pode ser ao lado da sua casa. E a forma de ajudar pode estar bem ali, em frente a seus olhos. Foi ao perceber isso que a blogueira de moda Thássia Naves começou, no ano passado, um bazar beneficente na época do Natal na sua cidade, Uberlândia.

A it girl, dona de um dos armários mais invejados do país, doou, este ano, 1 mil peças de seu guarda-roupa para o evento, além de uma bolsa da marca Fendi, que foi leiloada no bazar. Também pediu um brinquedo novo como "ingresso de entrada" de cada um dos 6 mil participantes. Os presentes e a quantia são destinados à Casa do Menor Nova Canaã, onde a avó da fashionista é voluntária há anos. "Minha avó ajuda a instituição, cresci acompanhando sua trajetória. Ela sempre fez questão de passar para os filhos e netos os valores de solidariedade, isso sempre fez parte do meu dia a dia", afirma Thássia, para quem a sensação de poder ajudar o próximo é indescritível. "Uma pequena ação pode mudar muito a vida dessas pessoas. Recomendo a todos que ajudem como puderem, com pequenas doações ou ações no dia a dia. Qualquer ajuda é válida", diz.

Nesse mesmo espírito, o jogador de futebol Gilberto Silva encontrou uma forma bem futebolística de ajudar a sua terra, Lagoa da Prata. O pentacampeão mundial em 2002 é responsável pelo projeto Lagoa da Prata Solidária, partida beneficente que será disputada no dia 20 de dezembro no estádio municipal José Bernardes Maciel. A primeira e única edição foi em 2011, quando foram arrecadadas sete toneladas de alimentos. Lares carentes e instituições filantrópicas do município mineiro foram beneficiados. "Estou louco para me recuperar, pois quero estar em campo no dia 20", avisa Gilberto, atualmente em tratamento de uma lesão no joelho.

Jogadores profissionais, amadores, ex-atletas e artistas estão sendo confirmados no evento, e espera-se a arquibancada de 2.450 lugares lotada, sendo que o ingresso são 2 kg de alimentos não perecíveis. Uma empresa, aliás, já doou sete toneladas de açúcar para esta edição. "Pode parecer pouco, mas essa ação faz grande diferença na vida das pessoas. E na minha também", diz o jogador.

Cláudio Cunha/Divulgação
(foto: Cláudio Cunha/Divulgação)
De fato, não é raro ouvir quem se envolve em trabalhos sociais dizer que mais recebem do que doam quando realizam esse tipo de ação. Segundo o doutor em psicologia Yuri Elias Gaspar, professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, a dedicação ao trabalho voluntário é uma maneira de ampliar círculos de relacionamento, criar novas amizades, mas também de afirmar concretamente o que é valor para si. "É quando a pessoa pode descobrir quem ela é, compartilhar ideais, quebrar preconceitos e barreiras sociais, relativizar diferenças entre classes, rever valores, afirmar sentidos novos e ajudar aqueles que mais necessitam — inclusive a ela mesma", diz Yuri, para quem a ajuda ao próximo é a possibilidade de realmente sermos seres humanos. "Ao ajudarmos o outro, ajudamos a realizar a nossa humanidade", afirma.

Para quem já tem campanhas e ações voluntárias como parte do calendário, é de praxe que os projetos de Natal comecem a ser pensados no início do segundo semestre. No caso da analista de sistemas Thais Machado, isso é rotina em sua vida há quase dez anos. Contudo, neste ano, ela esteve ocupada com a construção de sua nova casa e a organização do casamento até setembro — quando, teoricamente, já deveria ter começado os preparativos de sua campanha de Natal. "Achei que não daria tempo desta vez, mas meu marido foi meu maior incentivador, mesmo sabendo que dividiria o tempo de construir minha nova família com a dedicação ao projeto", afirma ela, que recolhe doações e as entrega, a cada ano, a instituições diversas. "Não vejo o que faço como obrigação, mas como compromisso. O que recebo na vida é pouco perto do que faço uma vez por ano. Sinto que preciso retribuir", diz.

Neste ano, as doações serão entregues a uma creche em Contagem, cujos alunos, em sua maioria, são filhos de pais separados com casos na Justiça por falta de pagamento de pensão. Thais e os amigos que organizam o projeto recolhem doações que vão para a instituição (alimentos, produtos de limpeza, etc.), mas também brinquedos e kits de higiene pessoal para os alunos. Fazem questão de que os presentes sejam etiquetados com os nomes das crianças, chamadas uma a uma para recebê-los. "Não são presentes genéricos, são nominais, e isso muda tudo. Vemos que os pequenos se sentem especiais", conta.

Thais, bem como muitos que organizam ações de Natal, escolhem esta época do ano porque é quando pessoas que não se envolvem em voluntariado costumam estar mais dispostas a ajudar. "Nós precisamos de doações, e esta é uma época em que pessoas ficam mais comovidas, o que é favorável para nós, que precisamos dessa ajuda", afirma.

Do ponto de vista cultural, segundo Yuri Elias Gaspar, o fim de ano é um momento que nos solicita ficar diante do tema do sentido da vida, o que pode explicar o maior envolvimento com as causas sociais. "São momentos que nos provocam a perguntar o porquê da existência, solicitam-nos rever a nossa posição diante da realidade, convocando-nos a tomar uma posição construtiva, que afirme valores que enalteçam o humano", explica.

Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Alexandre Rezende/Encontro)
O advogado João Paulo Guerra, que organiza, com amigos da turma Sindicato dos Brothers, várias edições ao ano do Pagode Solidário, faz uma versão especial do projeto no Natal. Ele posta no Facebook, para os participantes, as sugestões de presentes que as crianças das instituições ajudadas pediram nas cartinhas. "A ideia do tema natalino é para que a turma se preocupe com qualidade, mais que quantidade", explica. Segundo João Paulo, muitas pessoas têm boas intenções, mas entendem de forma errada como funciona a doação. "Por mais que as pessoas queiram ajudar, às vezes confundem as coisas e fazem uma limpa no guarda-roupa", diz. "Por isso pegamos as doações e fazemos uma triagem antes de levar às instituições. Dá trabalho, mas não vamos repassar objetos em mau estado", afirma. O primeiro Pagode Solidário teve presença de 150 pessoas e o último, de Natal, 400, com recolhimento de 300 brinquedos, que atenderam a 130 cartinhas.

Para mostrar que Natal não é sinônimo de consumo, há pessoas focadas em levar alegria para crianças e adultos neste fim de ano pensando também na sustentabilidade. Uma delas é a professora de inglês e tradutora Carolina Dias. Fundadora do grupo Carinhólogos Solidários, que distribui abraços na porta de hospitais, ela já fez viagens de palhaço com o lendário médico norte-americano Patch Adams e visitou sua fundação nos Estados Unidos, o Instituto Gesundheit. Assim, Carolina sabe mais do que ninguém como levar amor e carinho ao coração do próximo - sem que, para isso, precise comprar brinquedos e presentes novos.

Neste ano, ela fez uma rifa de um jaleco de Patch e de uma camisa do instituto. Com o dinheiro, comprou fita, fuxico e outros materiais, com os quais os Carinhólogos customizaram mais de 100 bonés para homens, mulheres e crianças, que serão presenteados a pacientes de câncer em quimioterapia, e garrafas de vidro e de plástico decoradas, para distribuir para idosos de asilos de BH. "Não queremos incentivar o consumismo, e sim a sustentabilidade. O importante é saber que você está lá para dar amor onde precisarem", diz ela, que anda para cá e para lá com seu nariz de palhaço. "O Patch diz que o nariz é o distintivo vermelho da coragem. Nunca me imaginei palhaça, mas hoje não me imagino não sendo", afirma. Realmente, Papai Noel não é coisa de imaginação.

(Colaboraram Amanda Aleixo e Rafael Campos) 

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