De surfista a cafeicultor premiado

Com pequena produção no Alto Caparaó (MG), ele ganhou o prêmio de melhor café do Brasil em 2014 e conquistou cafeterias cinco estrelas de Paris e Berlim

por Geórgea Choucair , por André Lamounier 05/01/2015 18:23

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André Berlinck/Encontro
Clayton Monteiro trocou as praias paulistas pela fazenda em Minas: "Quando cheguei, o pessoal achou que eu não ficaria nem uma semana" (foto: André Berlinck/Encontro)
Quando chegou com a ideia de plantar café na serra do Caparaó, Leste mineiro, Clayton Barrossa Monteiro não despertou confiança  nos moradores, tampouco nos produtores locais. O perfil de Clayton, com 22 anos na época, era atípico para a atividade: paulista da capital, surfista de carteirinha, corpo atlético e com dez tatuagens tribais espalhadas. “O pessoal achou que eu não ficaria nem uma semana”, diz Clayton. “A vida na roça é diferente.”
Passados 17 anos, o Café Fazenda Ninho da Águia, produzido em sua propriedade, foi eleito o melhor do país na premiação do Coffee of the Year 2014, mais importante concurso do setor, ocorrido durante a Semana Internacional do Café, em setembro, no Expominas. A conquista possibilitou ao produtor realizar um sonho: cruzar as fronteiras e colocar seu café nas prateleiras da Five Elephant, em Berlim (Alemanha), e na Le Coutume, em Paris (França), consideradas entre as melhores cafeterias do mundo.

“Nossa região sempre teve fama de produzir cafés ruins. Agora, está provado: daqui pode sair o melhor café do Brasil”, afirma. A Fazenda Ninho da Águia está localizada a pouco mais de 2 km do centro da pequena cidade do Alto Caparaó, na divisa com o Parque Nacional do Caparaó (Pico da Bandeira). Na época em que chegou à região, não se falava em cafés especiais. Mas Clayton começou a fazer o cultivo de forma diferente do que se praticava por ali. Para início de conversa, inverteu a lógica local. Os produtores da região sempre separavam os melhores lotes e os vendiam. Os piores eram consumidos em casa. “Eu fiz o contrário: consumia os melhores”, diz. “Assim, pude conhecer a qualidade do que plantava e buscar sempre mais.”

Há cerca de dez anos, quando as cafeterias de São Paulo começaram a falar em cafés especiais, Clayton correu para lá. “Experimentei os melhores”, afirma. “Descobri que o da minha casa estava entre eles.” Ele se entusiasmou e procurou uma associação de sua região. Não deu certo. “Ninguém estava preocupado com qualidade”, diz. “Todos queriam saber, antes mesmo de produzir, por quanto iriam vender.”

Mas, sozinho, foi à luta. Hoje, a fazenda Ninho da Águia é atração turística na região da serra do Caparaó. A produção é pequena (cerca de 300 sacas em 25 hectares de área), o que corresponde, por exemplo, a apenas 1% da produção do segundo lugar na premiação do Coffee of the Year. “Tenho produção artesanal, colho os melhores grãos, que são selecionados à mão, e faço a secagem natural, em terreiro suspenso”, diz. “Fora o amor que tenho.” Ele continua bebendo em sua casa o melhor dos lotes. Tem dado certo. Em novembro, voltou a ser premiado: ganhou o concurso de melhor café das Matas de Minas da Emater-MG, na categoria café cereja descascado. Mas por que Clayton decidiu plantar café? “Diziam que produtor de café trabalha só seis meses no ano”, diz. “Nos outros seis meses, eu poderia ficar surfando.” Em quase 20 anos de luta, Clayton ainda não conheceu essa folga. Mas está conformado. Aprendeu a surfar em novos mares e gostou. Até agora, tem vencido as grandes ondas.

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