Uma cidade olímpica

O Minas Tênis chega aos 80 anos como o maior e mais estruturado clube esportivo do Brasil, com 78 mil sócios, títulos conquistados em diversas modalidades e frequentado por gerações de famílias e atletas nacionais de peso

por Renan Damasceno 24/02/2015 13:40

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Samuel Gê/Encontro
Vista parcial do parque aquático do Minas I, que ocupa área de 70 mil m2, no bairro de Lourdes: a unidade foi a primeira a ser construída, com incentivo da prefeitura e governo mineiro, para oferecer lazer aos moradores da cidade (foto: Samuel Gê/Encontro)
O médico oftalmologista Sérgio Penna Barbi tem 64 anos e há 40 mantém a mesma rotina: nas tardes de quarta-feira, ele bloqueia a agenda, deixa o jaleco de lado e se reúne com os amigos de quase uma vida inteira, no Minas Tênis  Clube. "Faça chuva ou faça sol, estou lá", diz ele. Pai de Juliana, Daniela e Mariana e avô do pequeno Leonardo, que aos 3 meses já ostenta uma carteirinha de sócio, ele criou a família estimulando a prática do esporte e a integração que o ambiente do clube propicia. Seguiu o exemplo do pai, que era nadador e enxadrista minas-tenista, na década de 1950.  "O clube é muito família, e o estímulo que dão ao esporte, com escolinhas e atividades variadas, é fora do comum", diz Sérgio Barbi.

A família de Barbi é um exemplo das muitas que, de geração em geração, ocupam as quadras, piscinas e ginásio do Minas Tênis. Algo difícil de prever, quando surgiu a ideia de fundação do clube, na década de 1930. Na época, o governo mineiro e a prefeitura de Belo Horizonte conviviam com um abacaxi difícil de descascar e que, até hoje, assombra os governantes: a urbanização acelerada. A capital já estava com quase 200 mil habitantes, o dobro do número máximo de moradores previstos para a cidade. Um dos problemas é que não seria mais possível transformar uma grande área desocupada, quase no quintal do Palácio da Liberdade, em um zoológico, como estava nos planos do engenheiro Aarão Reis, responsável pelo desenho da capital. Foi quando a primeira-dama Geni Silveira Lima, mulher do então prefeito Otacílio Negrão de Lima, teve a ideia: trocar o zoológico por um clube. A solução agradou aos habitantes, que sofriam com a falta de opções de lazer, e ainda salvou os moradores da região de ter de acordar de madrugada ao som do rugido de leões.

Foi assim que nasceu, em 1935, o Minas Tênis Clube, hoje tido como o mais estruturado e moderno clube esportivo do Brasil. Ao longo de oito décadas, completadas neste ano, o Minas se transformou em uma cidade olímpica com vida própria no coração da capital. E, diga-se de passagem, chamá-lo de cidade não é exagero. Se fosse realmente um município, seria um dos mais populosos do estado, com 74 mil associados (sendo 22 mil cotistas).

Samuel Gê/Encontro
A advogada Silvia Marinho com os filhos Paulo e Lucas, à frente; atrás, a mãe da advogada, Maria Célia, e a avó Celisa: clube se transformou em ponto de encontro das quatro gerações da família (foto: Samuel Gê/Encontro)
Quem passeia por essa ‘cidade’ sabe que é impossível não cruzar com algum minas-tenista, seja ele criança, jovem ou idoso, trajando o uniforme do clube, com raquete a tiracolo, joelheiras ou touca molhada. Esses atletas podem ser alunos do curso básico - programa em que os pequenos passam por todos os esportes antes de escolher quais modalidades pretendem seguir no futuro - até grandes nomes olímpicos, como Cesar Cielo, da natação, e Jaqueline, do vôlei, dois mais recentes nomes da casa.

O fato é que o Minas respira esporte, nas quatro unidades, e mantém equipes de ponta e de base em oito modalidades: vôlei, natação, basquete, ginástica artística, ginástica de trampolim, tênis, judô e futsal. Acumula títulos nacionais e internacionais, especialmente no vôlei, judô e natação, tripé que é o carro-chefe e pelo qual nove atletas do clube representaram o Brasil nas Olimpíadas passadas, Londres’2012.

O vôlei, aliás, é o esporte através do qual o Minas se consolidou como um dos maiores clubes do país – único a participar de todas as competições nacionais da modalidade. No masculino, já são nove títulos brasileiros, sendo dois tricampeonatos: 1984 a 1986 e, depois, entre 2000 e 2002. Durante o período das conquistas, estiveram em Belo Horizonte craques como Maurício, André Nascimento, André Heller, Dante, Giba, Douglas, Henrique e Serginho, que brilharam na Seleção Brasileira.

O clube também conquistou duas vezes o torneio feminino, em 1993 e 2002. Entre as mulheres, aliás, a cereja do bolo chegou em novembro: a bicampeã olímpica Jaqueline, que se juntou à também medalhista de ouro Walewska e à pentacampeã do Grand Prix Carol Gattaz. "Está sendo maravilhoso e muito especial estar aqui. Quero poder permanecer, se Deus quiser. Quem sabe, até o final da minha carreira", diz Jaque.

São muitos os motivos que explicam o peso do nome minas-tenista no esporte nacional. Um deles é a tradição do clube de ser uma incubadora de atletas. A praça de esportes do Minas I foi bancada pela prefeitura da capital, em 1937. Durante as três primeiras décadas, o clube foi vinculado ao estado, com o presidente sendo escolhido por lista tríplice enviada ao governador. Tudo para estimular o esporte como uma política de gestão pública. Só em dezembro de 1967, o prefeito Luiz de Souza Lima assinou a escritura de doação do terreno. Contudo, mesmo depois de se tornar privado, seguiu no estatuto que o clube continuaria com o trabalho de formação esportiva. E assim foi feito. "Costumo dizer que foi a primeira parceria público-privada que deu certo", brinca o ex-presidente Sérgio Bruno Zech Coelho, economista de 69 anos, que começou a escrever sua longa trajetória na instituição como atleta de vôlei, na década de 1960. "O Minas nasceu como praça de esportes", diz Buno Zech. "A educação, a formação e a busca pela excelência estão no nosso DNA."

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O oftalmologista Sérgio Barbi, que frequenta o Minas há 40 anos, com a esposa Regina, as filhas Juliana, Daniela e Mariana, além do netinho Leonardo: "Faça chuva ou faça sol, não deixo de vir" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Os sócios do Minas são todos, em maior ou menor grau, atletas de plantão - e é esse veio esportista que tem passado de geração para geração. Não é difícil encontrar entre os frequentadores familiares quem seja ou tenha sido atleta profissional. É o caso da família da advogada Sílvia Marinho, de 37 anos. Seu pai, Márcio Romeiro Pereira, foi jogador de vôlei e, após se aposentar do esporte, adotou a peteca. Já seu marido, Marcelo Barbosa Santos Netto, também se arriscou no basquete durante a juventude. Sílvia e os irmãos praticaram natação. Hoje, o clube acabou se transformando em ponto de encontro da família: a mãe de Sílvia faz academia por lá e sua avó joga buraco quase diariamente. O plano de Sílvia é que os filhos Paulo, de 3 anos, e Lucas, de 11 meses, sigam o mesmo caminho. "Com certeza, eles praticarão esportes aqui", diz Sílvia.

Outra tradição também ajuda a explicar a trajetória bem-sucedida do Minas. Os presidentes são, na maioria das vezes, ex-atletas, criados na praça de esporte da instituição. Sérgio Bruno é o melhor exemplo. O presidente da instituição que por mais tempo ocupou o cargo (por 12 anos, em duas gestões, de 1995 a 2001 e de 2007 a 2013) tomou gosto pelo vôlei ainda quando menino. O pai dele, farmacêutico, era entusiasta do esporte. Para divertir os filhos, amarrava uma corda entre árvores em um canteiro na avenida Brasil e promovia campeonatos de vôlei, antes de comprar uma cota do clube, a poucas quadras dali. Com a brincadeira, o patriarca começou a vincular o nome da família ao esporte, por cinco décadas. O primeiro a entrar em quadra foi justamente Sérgio Bruno. Ele ajudou o Minas a conquistar dois títulos da extinta Taça Brasil de vôlei. Depois, outros irmãos brilharam nas quadras: Luiz Eymard, que teve atuação destacada nos Jogos Olímpicos de Munique’1972; Carlos Rogério e Hélder. Os três jogaram juntos no Atlético, e Hélder, tricampeão brasileiro pelo Minas, também teve passagem pela Seleção Brasileira. O último representante da família Zech Coelho a defender o Brasil foi o sobrinho Henrique, maior bloqueador da história da Superliga.

Com a sensibilidade de atleta, Sérgio Bruno fez história também como presidente. Com a determinação de ampliar a estrutura do clube para o esporte, construiu o Minas Náutico e incorporou o Minas Country, ampliando em mais de sete vezes a área total (65 mil para 470 mil metros quadrados). Também investiu na expansão do Minas I (que passou de 25 mil para mais de 65 mil metros quadrados de área construída). Em 2012, inaugurou o novo prédio administrativo e o Teatro Bradesco, com 600 lugares e estacionamento com 720 vagas. Um plano ousado e de longo prazo, mas possível em razão da estabilidade política característica das gestões minas-tenistas. "Por serem ex-atletas ou oriundos das escolas de esportes, todos os diretores conhecem bem o lugar, muitos nasceram aqui dentro", diz Sérgio Bruno.

Outro "segredo", segundo ele, chega a intrigar os dirigentes de outros clubes – inclusive os de futebol -, que sempre visitam o Minas em busca de soluções administrativas. "Nossos diretores não são remunerados. Cada um tem sua atividade, seu trabalho fora daqui, não tem obrigação de horário no clube", afirma. "Nossa filosofia é de que o papel do diretor é cobrar as metas dos funcionários de sua área, que recebem salários e têm atribuições executivas."

Cláudio Cunha/Encontro
O atual presidente, Luiz Gustavo, e o ex, Bruno Zech, que ocupou o posto por 12 anos e investiu na ampliação da estrutura: "Por serem ex-atletas ou oriundos das escolas de esportes, todos os diretores conhecem bem o lugar, muitos nasceram aqui dentro", diz Bruno Zech (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Outro exemplo dessa filosofia é o atual presidente minas-tenista, o economista Luiz Gustavo Lage, de 55 anos, filho do ex-prefeito de Belo Horizonte Ruy Lage. Atleta da Seleção Brasileira de Basquete Masculino nos Jogos Olímpicos de Moscou’1980, ele assumiu a presidência em janeiro do ano passado. Luiz Gustavo também foi criado no Minas e, por isso, não se assusta com os desafios de comandar o clube. Um dos principais é ir atrás de patrocínios e parcerias, especialmente porque não é fácil conseguir financiadores para os esportes olímpicos depois de dois anos com todas as atenções voltadas para o futebol, devido às Copas das Confederações e do Mundo. "Eu não quero simplesmente conseguir um parceiro para me arrumar dinheiro para montar um time. Eu preciso me estruturar. O projeto que estou apresentando é Olimpíada", afirma. "Quero parceria longa, planejada, que vá dar resultado ao longo dos anos", explica o presidente, enquanto fiscaliza números e contratos na sala da presidência do clube, no Lourdes.

Os vínculos duradouros são outro "segredo" do sucesso nos esportes. O Minas obteve em 2013 receita de aproximadamente R$ 17 milhões em patrocínios, segundo o último balanço financeiro. São cerca de 70 empresas com nome vinculado ao clube. Entre seus principais parceiros estão a Fiat, patrocinadora master da natação e no clube desde a década de 1980. Em maio do ano passado, no entanto, foram surpreendidos com o fim do patrocínio da Vivo, depois de 16 anos. O rompimento com a empresa de telefonia que dava nome à arena para 3,6 mil espectadores na rua da Bahia teve consequência direta no vôlei masculino, que perdeu jogadores importantes como Marcelinho e o tcheco Filip Rejlek. O vôlei feminino, na temporada passada, conseguiu patrocinador somente quando a Superliga já estava na metade e competiu apenas com atletas formadas no clube. Mas a instituição retomou os rumos este ano, com a ampliação do patrocínio da empresa de laticínios Camponesa, possibilitando a montagem de um time competitivo, com Jaqueline, Walewska e Gattaz.

Apesar dos momentos de dificuldade, o Minas tem atraído atletas de peso. A infraestrutura, inigualável no país – comparado com o paulista Esporte Clube Pinheiro, por exemplo, o Minas tem o dobro de associados (o clube paulista tem 38 mil) e quase o triplo de área total (470 mil ante 170 mil metros quadrados dos paulistanos) –, foi definidora para a escolha do clube por Jaqueline e Cielo.  O nadador, por exemplo, não recebe salário do Minas, mas, em troca, tem todo o suporte de uma equipe de 20 profissionais, entre técnicos, preparadores físicos e fisioterapeutas, que se dedicam exclusivamente à equipe de natação, treinada pelo australiano Scott Volkers, que comandou o time de seu país em duas olimpíadas. "Entendi que o Minas seria o clube e o Scott, o treinador que poderiam ser importantes na minha carreira. Aqui posso ser um nadador melhor, mais rápido. É isso o que quero", explicou Cielo.

A estrutura física também impressionou equipes de fora, mais precisamente os britânicos. A Associação Olímpica Britânica (BOA, em inglês) assinou, em dezembro de 2012, um acordo com o clube que prevê a utilização das instalações pelos atletas do país antes e durante os Jogos Olímpicos. Outro inglês que teve aparição ilustre no clube foi o príncipe Harry, quarto no nome na sucessão do trono britânico, que visitou o Minas durante sua passagem por Belo Horizonte para acompanhar a Copa do Mundo, em junho passado. Harry visitou o Parque Aquático, a Arena JK e o Teatro Bradesco; conversou com os judocas Luciano Corrêa, Ketleyn Quadros e Erika Miranda e com o nadador Cesar Cielo.

Para Luiz Gustavo, o reconhecimento britânico mostra que o clube está no caminho certo e que a nova diretoria tem muito a fazer neste ciclo olímpico. "O Brasil está vivendo um momento especial e único, que é a chegada do Rio’2016, e o Minas está vivendo junto este momento", afirma. "Ter o reconhecimento do Comitê Britânico, que é a terceira potência olímpica do mundo, e de Cielo, que conhece e utiliza as melhores estruturas dos Estados Unidos, nos dá muito orgulho e nos motiva na busca pela excelência", diz. Às vésperas do maior evento esportivo da história do país, o Minas chega aos 80 anos com fôlego de um jovem ávido por bons resultados.

Colaborou Marina Dias

 





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