A Lagoinha pede socorro

Tradicional bairro da região Noroeste de BH sofre com a falta de planejamento urbano. Moradores se unem para reivindicar melhorias e resolver antigas carências

por Rafael Campos - Encontro BH 24/02/2015 16:04

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Samuel Gê/Encontro
Vista geral da Lagoinha: ao longo dos anos, o bairro foi sendo sufocado pela expansão da cidade (foto: Samuel Gê/Encontro)
"Adeus, Lagoinha, adeus/ Estão levando o que resta de mim / Dizem que é força do progresso / Um minuto eu peço para ver seu fim." Esses versos fazem parte da canção Adeus, Lagoinha, dos compositores mineiros Gervásio e Milton Horta. O samba choroso e saudosista foi inspirado nas significativas intervenções urbanas pelas quais o bairro da Lagoinha, na região Noroeste, passou na década de 1970. Na época, a praça Vaz de Melo, um dos símbolos da boemia da região, foi alterada para a expansão da avenida Antônio Carlos e construção do complexo de viadutos. Da praça, restou apenas uma banca de jornais. A Lagoinha nunca mais seria a mesma.

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Teresa Vergueiro, presidente do Movimento Lagoinha Viva: "Quem construiu o bairro foram os próprios imigrantes e moradores daqui. Não teve dedo do poder público" (foto: Samuel Gê/Encontro)
A impressão que se tem é de que o bairro está sendo sufocado. No entorno, a cidade cresce, modifica-se, melhora, mas o bairro não. "A Lagoinha está abandonada. Quem construiu o bairro foram os próprios imigrantes e moradores daqui. Não teve dedo do poder público", afirma Teresa Vergueiro, presidente do Movimento Lagoinha Viva, que tomou forma depois que a Prefeitura de Belo Horizonte cogitou levar para lá seu novo e moderno centro administrativo. A população bateu o pé. O movimento, junto a outras representações de moradores, articula conversas com a PBH para definir o melhor destino para o bairro, que precisa de mudanças urgentes. Para o arquiteto Paulo Pontes, que também integra o Movimento Lagoinha Viva, o bairro ainda "não está na UTI, mas está a caminho".

A rua Além Paraíba, principal via e onde fica a paróquia Nossa Senhora da Conceição, tem um trânsito confuso. O corredor é estreito, ainda sim é permitido trânsito nos dois sentidos e estacionar em um dos lados. Detalhe: com circulação de linhas de ônibus. Edificações que remontam ao início do século passado estão descaracterizadas, pichadas e degradadas pelo tempo. Mesmo a rua Itapecerica, famosa por seus antiquários e mestres restauradores, não é nada convidativa para compras, aliás, não é raro ouvir recomendações de não circular pelo local, sobretudo à noite, em razão da insegurança. Não é difícil encontrar usuários de crack transitando por lá ou mesmo morando na rua.

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"O bairro não está na UTI, mas está a caminho", diz o arquiteto Paulo Pontes (foto: Samuel Gê/Encontro)
Por isso, a sensação de quem vive ou frequenta a região é de estar perto e, ao mesmo tempo, longe do planejado centro de BH. Maurício de Andrade, de 46 anos, mantém uma loja de antiguidades há cinco anos na rua Itapecerica. Sua carteira de clientes está cheia, contudo, são poucos os que se atrevem a conhecer sua loja. "Quando falo que meu espaço é nesse endereço, o cliente prefere que eu faça a entrega", afirma Maurício, ex-jogador profissional de futebol de salão. Diante disso, é inevitável não considerar atitudes mais drásticas. "Já pensei em sair daqui e ficar apenas com as vendas pela internet", diz.

Leonardo Castriota, professor da Escola de Arquitetura da UFMG, conhece bem as carências do bairro. Na década de 1990, ele esteve envolvido em projetos de revitalização da região, que não vingaram. Há quatro anos, junto à universidade e ao Instituto de Estudos do Desenvolvimento Sustentável (Ieds), Castriota evidencia novamente o bairro como objeto de pesquisa e de ação. "Estamos montando um projeto de revitalização para fortalecer os negócios locais", diz. Para o professor, não há como pensar em revitalização sem antes fortalecer a cultura e a economia da Lagoinha. Por isso, está em curso um projeto de oficina para transmitir o saber-fazer tradicional do bairro, como a arte de restaurar. A oficina deve ser instalada no Mercado Popular da Lagoinha, onde já são ministrados cursos profissionalizantes.

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Maurício de Andrade e sua loja na rua Itapecerica: "Quando falo que meu espaço é neste endereço, o cliente prefere que eu faça a entrega" (foto: Samuel Gê/Encontro)
De acordo com Tiago Esteves Gonçalves, arquiteto urbanista da gerência de Coordenação de Políticas de Planejamento Urbano da PBH, a Lagoinha sempre esteve nos planos da administração do município para ser requalificada. "A partir de 2010, esse projeto foi considerado prioritário, contudo, no mesmo ano, a Lei 9.959 alterou o Plano Diretor e definiu áreas para a realização das Operações Urbanas Consorciadas (OUCs)", diz. Tiago explica que, uma vez que a Lagoinha está inserida na área de uma das OUCs (avenidas Antônio Carlos, Pedro I e eixo Leste-Oeste), foi decidido que a recuperação se daria por meio desse projeto. Mas a execução das operações urbanas, que recebeu o nome de Nova BH, foi paralisada no ano passado, arrastando a agonia dos moradores. Como o projeto está sendo rediscutido, ele espera alguma solução, sem data definida. "Espera-se que tudo esteja regulamentado no início de 2016", afirma Tiago.

O casal Hélio De Paoli, de 88 anos, e Efigênia Santos De Paoli, de 83, também anseia por melhorias no bairro onde criou seus oito filhos. O senhor Hélio é filho de italianos que chegaram à então recém-criada capital mineira para tentar ganhar a vida. Era marceneiro. Vieram também seus três tios, e um deles até trabalhou na construção do Palácio da Liberdade. "Sempre vivi aqui e conheci também a boemia", confessa, olhando de soslaio para a mulher, com quem é casado há 65 anos. "Tinha cinema, uma vida inteira nesta região", diz. "Antes você andava com os filhos até tarde da noite e nada acontecia",  diz a Efigênia.

Agora, antigos moradores e frequentadores esperam que o bairro recupere a vitalidade cultural que inspirou poetas e escritores. Torcem também para que, com o passar dos anos, não seja lembrado apenas pelo famoso "copo Lagoinha", na verdade o copo americano, que durante muitos anos só era encontrado por lá, mas ainda hoje recebe dos belo-horizontinos o carinho apelido.

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