Casórios em alta

As estatísticas mostram que o número casamentos em Minas é maior que a média nacional. A forte ligação com a família e valores relacionados à religião justificam a tradição casamenteira dos mineiros. Conheça algumas histórias

por Zulmira Furbino 23/03/2015 14:54

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Quando a relações públicas Luiza Guimarães Paes Vasconcellos, de 28 anos, conheceu o empresário Eduardo Campos Vasconcellos, de 33, na casa de amigos, foi amor à primeira vista. Naquela noite, conversaram sobre tudo: trabalho, família, ideais. Só conversaram. Ao chegar em casa, Luiza estava feliz. Não teve dúvida em dizer à irmã: "Conheci hoje o homem com quem vou me casar". Como trabalhavam no mesmo prédio, os dois se cruzaram muitas vezes depois do primeiro encontro, mas nada! Até que num sábado ensolarado, enquanto praticava corrida na Praça da Liberdade, o celular de Luiza tocou. Coração acelerado! Era Eduardo. A partir daí, os dois começaram a construir uma bela história de amor e a decisão de chegar ao altar foi algo natural.  A cerimônia foi realizada em outubro do ano passado. E a festa, em um hotel à beira-mar, em Búzios, durou exatos três dias – uma longa comemoração, proporcional à felicidade dos noivos. "A ideia era fazer algo que marcasse o fim de semana, e não somente uma festa. Queríamos uma ‘experiência’ casamento. E foi o que conseguimos", diz Luiza.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)



Como é comum entre mulheres e homens solteiros dispostos a serem fisgados pela flecha do cupido, a empresária Roberta Assumpção, de 31 anos, costumava pedir a sua melhor amiga que lhe apresentasse a amigos do marido. Mas isso nunca acontecia. Até que um dia, por intermédio do casal, conheceu o publicitário Gregório Rossi, de 32 anos. Como o amor é caprichoso, tudo se resumiria a uma boa conversa se, dois meses depois, Gregório não tivesse tomado a iniciativa e convidado Roberta para ir a um show. A "historinha" dos dois, como ela mesma diz, começou para valer nesse momento e 20 dias depois virou namoro sério. Prosseguiu com um pedido de noivado, em grande estilo, em Miami. O casamento, em setembro de 2014, foi em uma cerimônia dos sonhos na igrejinha da Pampulha – palco da união dos pais da noiva e do batizado dela. "Na saída da igrejinha, fomos brindados com uma chuva de fogos de artifício. Na festa, a todo momento havia uma surpresa", conta Roberta.

Como a vida imita a arte, a verdade é que desde que a belíssima Cinderela desceu a escadaria do palácio calçando um sapatinho de cristal e trajando um luxuoso vestido, por obra do escritor Charles Perrault há mais de 400 anos, o imaginário ocidental sobre o amor e o casamento nunca mais foi o mesmo. Mas nem Perrault, nem ninguém poderia imaginar que, com um empurrãozinho da Disney, o sonho do amor com final feliz seria tão longevo e cada vez mais comum, pelo menos em Minas Gerais. Segundo pesquisa de Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto no Brasil o número de matrimônios vem caindo, entre as montanhas mineiras a realidade é outra. Em 2013, último dado disponível, o total de casamentos em Minas saiu de 6,8 milhões, em 2012, para 7 milhões. Na capital e região metropolitana, o avanço foi de 17% no período. Enquanto isso, no Brasil os enlaces oficiais caíram de 61,1 milhões para 60,3 milhões.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)



Os dados de 2014 saem no fim de 2015, mas não será surpresa se apontar no mesmo sentido. Luciene Longo, analista do IBGE em Minas, explica que, em comparação a outros estados, Minas apresenta alguns indicadores mais tradicionais do que o restante do país. "O número de casamentos no estado é o maior da região Sudeste", diz. Esse movimento, considera, está relacionado com a cultura, a moral e a religião, valores muito fortes no estado.  "Mantemos a tradição de uma população católica mais numerosa e representativa do que em outros estados", explica a analista do IBGE.

E, quando falamos em tradição, isso não se restringe à troca de alianças no altar. Por aqui, antes de chegar na hora do sim, todo um ritual é cumprido: o cruzar de olhares, a paquera, o pedido de namoro – sim, tem que haver pedido –, o noivado para oficializar o compromisso e, finalmente, a cerimônia, de preferência seguida de comemoração em grande estilo. E o início nem sempre é tão fácil. Que o diga o advogado Gustavo Eugênio Maciel Rocha, de 44 anos, que teve um trabalho e tanto para conquistar sua amada, a arquiteta Priscila Martins Costa Rocha, de 33 anos. O tempo de paquera, que começou na antiga academia Fórmula, na Savassi, foi longo. O interesse surgiu primeiro da parte dele. Tanto que Gustavo, sem sequer saber o nome daquela mulher que lhe despertava a atenção, deu a ela o apelido de "musa anônima". "Eu a achava linda, a mais bonita da academia", conta. Até que, um dia, ele resolveu ir a uma aula de ioga e, com dificuldade em fazer os movimentos invertidos, abriu o olho e deu de cara com uma moça de cabeça para baixo. "Achei-a maravilhosa, mesmo daquele modo", diz.  Somente ao sair da aula se deu conta de que a musa anônima e a tal moça da aula de ioga eram a mesma pessoa. "Ali eu disse que, definitivamente, essa era a mulher da minha vida!", conta Gustavo.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)



O casamento veio quatro anos depois, em 2012, numa vila medieval chamada Borgo San Felice, na Toscana, Itália, com a presença de 140 convidados. "Quando resolvemos nos casar, olhamos várias possibilidades. Queríamos um casamento personalizado, num local com atmosfera intimista, que tivesse mais jeito de celebração que de evento", diz Priscila. A opção foi celebrar o enlace na Toscana, já que a noiva tinha cidadania italiana. "Fizemos uma viagem para lá, rodamos a região e encontramos um lugar que era exatamente o que sonhávamos", diz. A surpresa, segundo os noivos, foi o número de convidados que se dispuseram a cruzar o Atlântico para participar da cerimônia. "A energia e o amor que impregnaram todo o fim de semana foram surpreendentes. Estivemos cercados das pessoas mais importantes para nós", diz Gustavo.

O casamento com toda pompa, para ficar marcado entre amigos e familiares, também é uma tendência por aqui. Na visão do psicólogo e mestre em educação, cultura e sociedade Douglas Amorim, a tradição casamenteira em Minas tem uma ligação direta com a cultura religiosa no estado. "O casamento é um importante símbolo de uma sociedade tradicional. Em outros estados brasileiros, o apego ao conservadorismo e à formalidade é muito menor", explica. Já as mineiras fazem questão de colocar tudo no papel. E o ritual da relação precisa cumprir todas as etapas. "Ela espera mesmo ser pedida em namoro e, depois, em noivado. É um protocolo que precisa ser seguido. Em meu consultório, tive uma paciente que estava ‘ficando’ há oito meses e não considerava que era namoro, já que não havia sido pedida. Sem isso, elas se sentem desvalorizadas", diz Douglas.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)



Com Luiza Guimarães e Eduardo Vasconcelos as etapas foram bem cumpridas. Antes de percorrer o caminho até a cerimônia em Búzios, citada no ínicio da matéria, ela foi pedida em namoro duas vezes. "Na primeira, hesitei", lembra Luiza. Na época do pedido de noivado, Eduardo caprichou para que não houvesse qualquer dúvida. Ele chegou a "raptá-la" para um fim de semana a dois. "Estávamos numa bateria surreal de casamentos, dentro e fora do Brasil. Não havia fim de semana livre. Foi aí que o Eduardo me propôs um fim de semana para namorar, para curtir, só nós dois. Fomos para Lavras Novas, eu não tinha certeza de nada, mas no fundo comecei a criar expectativa de que ele pediria a minha mão", lembra Luiza. E assim aconteceu.

Não foi diferente com a empresária Rafaela Kayser, de 26 anos, que se casou no fim do ano passado com o também empresário José Fernando de Almeida Jr., de 32 anos. "Conheci o Nando há muito tempo por causa de uma parceria de negócios entre as duas famílias. Sempre o achei todo bonito, mas pensava que era coisa de adolescente", conta Rafaela. Por obra do destino, o encontro que culminaria no grande passo demorou alguns anos.  "O tempo passou e nos vimos, por acaso, mas ele estava com a namorada. Dois dias depois nos encontramos de novo e aí ele estava sozinho. Na semana seguinte nos vimos mais uma vez. Ele tinha terminado o namoro", lembra Rafaela.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)



"Quando, finalmente, saímos, ela estava desconfiada. Conversamos muito, mas apenas trocamos telefones. Somente da segunda vez veio o primeiro beijinho roubado", conta Fernando. O pedido oficial de namoro veio quando estava em viagem, em Morro de São Paulo, na Bahia. "Eu fazia questão desse pedido para assumir que estava namorando", diz Rafaela.  Foram três anos de namoro até o noivado, a cerimônia de casamento e a festa dos sonhos, que durou mesmo depois de o sol nascer, com a luz da aurora se refletindo nos 60 globos de vidro que iluminaram o salão. Magia de contos de fada para celebrar a intensidade da relação, como gostam os mineiros.

Foi na bucólica vila de Trancoso, no Sul da Bahia – onde a fila para uma vaga na concorrida igrejinha do Quadrado pode durar mais de um ano –, e com o sol incidindo na entrada da capela depois de dias de chuva que o empresário Felipe Tiradentes e a administradora de empresas Lais Meneghello deram o grande passo de suas vidas. O período de conquista foi longo. Felipe se interessou por Lais logo que a viu em uma festa.  "Eu a achava muito bonita e sabia que era uma boa pessoa, mas ela não dava bola", diz ele. "Eu já sabia quem era o Felipe. Na época do Orkut, ele até tentou me conhecer, mas fui morar em Londres e não tivemos oportunidade", conta Lais.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)



Mesmo com a distância, ele não desistiu: "Ainda vou me casar com a sua amiga", disse Felipe a uma amiga de Lais. A brincadeira ficou no ar até que ela retornou e Felipe insistiu em um primeiro encontro.  "Saímos para almoçar, ficamos conversando até de noite e começamos a namorar após dois meses", diz ela. Quatro anos depois, a união se consumou e foi comemorada numa festa para cerca de 250 convidados. Devoto de Nossa Senhora da Aparecida, ele escolheu o dia 12 de outubro, exatamente um ano depois do noivado. "Fiz questão de me casar na igreja. Foi lindo, com uma sintonia que tomou conta de todos", diz Lais. A festa só terminou às 6h, depois que raiou o sol do dia seguinte.

Uma cerimônia inesquecível para os noivos e convidados também está nos sonhos da publicitária Marina Rodrigues e Silva, de 29 anos, e do advogado Rodrigo Valle Pereira Guerra, de 31, que se preparam para o grande dia, marcado para agosto. Eles se conheceram de forma despretensiosa numa festa de academia, à qual ela nem queria ir. De lá para cá, se vão 10 anos de muito amor, cumplicidade e histórias para contar.  "Quando nos conhecemos, tive certeza de que o Rodrigo era o homem da minha vida. Por isso, comecei a pensar muito sobre como seria o nosso casamento. Mesmo antes do ‘pedido’, eu já conseguia visualizar de forma exata várias coisas na cerimônia. São coisas que combinam muito com a gente", diz Marina.

Como as cinderelas e príncipes dos contos de fadas, os noivos modernos buscam, cada um a seu modo, a mesma coisa: ser felizes para sempre! E quem não quer? 

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