"Precisamos de treinadores mais capacitados"

Recém-contratado pelo Cruzeiro, Paulo André Cren Benini é tido como um dos mais politizados e influentes esportistas do país. Líder do Bom Senso Futebol Clube, ele defende investimento dos clubes na formação da comissão técnica

por Deca Furtado 13/04/2015 09:58

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Cláudio Cunha
Paulo André Cren Benini, do Cruzeiro: "Para nós, o mais importante é o pagamento em dia. Ninguém paga em dia o salário e o direito de imagem. E o clube não é punido por isso" (foto: Cláudio Cunha)
Em campo, ele pode não ser considerado um craque – embora tenha sido eleito pela revista Placar, em 2005, um dos cinco melhores zagueiros do país. contudo, fora das quatro linhas, Paulo André Cren Benini é visto como uma das mais importantes lideranças de todos os tempos do futebol brasileiro. À frente do movimento Bom Senso Futebol Clube, criado há dois anos para reivindicar da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nova organização dos campeonatos e melhor gestão financeira dos clubes, foi reconhecido até internacionalmente. A revista World Soccer de abril inclui o zagueiro entre os 500 jogadores de futebol mais influentes de todo o mundo. O jornalista Juka Kfouri considerou que, se a lista fosse de 11, o nome de Paulo André também estaria lá, por sua atuação fora dos gramados.

De fato, ele é um jogador com perfil diferente da maioria. Gosta de xadrez, artes plásticas e literatura. Lê Dostoievski, Voltaire e Machado de Assis –  seu escritor predileto. Ele próprio já lançou um livro, O Jogo da Minha Vida – Histórias e Reflexões de Um Atleta, que até o momento teve 15 mil exemplares vendidos. No embate com a cartolagem do Brasil e na mobilização dos colegas, ele usa a habilidade de líder.  “Na minha maneira de ver, agora faço de forma mais inteligente. Eu me exponho e critico menos, mas trabalho, nos bastidores, tanto ou mais do que antes”, afirma.

Recém-contratado pelo Cruzeiro, ele volta agora aos gramados brasileiros depois de temporada de um ano na China. Com a visão de quem conheceu de perto o futebol europeu, ele fala nesta entrevista sobre os rumos do esporte no Brasil e sobre a expectativa de aprovação da MP 671 – cujo texto foi inspirado no movimento dos jogadores –,  a ser votada agora pelo Congresso.

ENCONTRO – Desde que você foi para a China, em 2014, de fundamental, o que mudou no futebol brasileiro?
PAULO ANDRÉ CREN BENINI – Nada. Mas houve ganhos. O maior é o nível de discussão sobre os pontos que levantamos. Esse nível está mais elevado. Antes, havia muita reclamação e poucas propostas e profundidade no debate. Nós demos notoriedade a vários pontos, como o fracasso e a inércia da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, e das federações. E tem a medida provisória, a MP 671. Ela é a nossa maior vitória – desde que seja aprovada na sua essência.

Mas há uma bancada contrária à aprovação. Vocês esperam dificuldade?
O jogo é pesado. Porém, temos defensores, como o senador Romário, a favor da transparência na gestão, limitação de mandato e outros pontos. A muleta dos dirigentes é um artigo da Constituição que dá aos clubes autonomia financeira e estatutária. É aí que empaca qualquer coisa que se tenta fazer. Nós, jogadores, não temos direito a voto. O governo diz não poder intervir porque fere a autonomia e a Fifa pune o futebol do país com a exclusão da Copa do Mundo. Para mim, isso é impossível. Contudo, o fato é que eles se escoram nesse artigo e com isso perdemos tempo e marcamos passo.

Vocês conseguiram colocar tudo o que queriam na MP? O que há de mais importante?
Acredito que 90% das nossas ideias estão lá. Nosso texto era melhor do que o da Casa Civil da presidente Dilma, principalmente quanto a quais são as punições, quem fiscaliza. O governo mexeu para que não houvesse inconstitucionalidades na MP. Mesmo assim, as ideias são muito melhores do que as vigentes. Para nós, o mais importante é o pagamento em dia. Ninguém paga em dia o salário e o direito de imagem. E o clube não é punido por isso. É fundamental a punição esportiva ao clube e ao dirigente, coisa que há muito acontece na Europa. Neste país, há pouca punição e, se conseguirmos fazer com que ela exista no futebol, já será um grande avanço.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)


O que vocês conquistaram até aqui já não é suficiente?
Quem se mobiliza socialmente percebe que foram várias e importantes pequenas vitórias. Apesar de ganharmos bastante, nós agimos em favor do esporte. O movimento se comunica bem com os jovens que estão tentando mudar o país. Quando um jovem vê seus ídolos se mobilizando para tentar mudar alguma coisa, ele pode se inspirar para conseguir melhorias no transporte público, na educação, na saúde etc.

Se a MP passar do jeito que vocês querem, o que ainda sobrará para consertar no futebol brasileiro?
Aí temos assunto para o resto do ano. Há o investimento a ser feito no RH dos clubes. Com assessores mais capacitados, esperamos, os dirigentes tomarão menos decisões ruins. Na área técnica, idem, pois tudo parte da capacitação. Na Europa toda, a prioridade é capacitar o treinador, porque é ele quem dá os rumos da tática, do desenvolvimento dos atletas e do esporte. No Brasil, não há nada nesse sentido. Aqui, um cara que apenas goste de futebol pode virar treinador. Lá, ele precisa ter licença. Morientes, ex-atacante do Real Madrid, parou de jogar e foi fazer o módulo 1 do curso de treinador para dirigir um time do sub-12, de menores de 12 anos. Se quiser times da Série A, ele terá de cursar cinco módulos por ano.  A propósito, nas férias, fui ver um jogo de meninos de 12 anos. Eram ao todo 16 jogadores e 12 deles estavam com camisas de clubes estrangeiros. Ou seja, mudou completamente a relação com os nossos craques. Isso é preocupante.

E por qual motivo?
Acho que é exatamente a questão do despreparo do formador e o desinteresse no investimento, por parte dos clubes, na capacitação deles. Hoje os clubes têm um centro de treinamento incrível. Há quarto com ar-condicionado para a molecada, a alimentação é de primeira. Mas falta gente capacitada para levar o menino do ponto A ao B. Enfim, falta aos clubes do futebol brasileiro metodologia.

Quais são as outras bandeiras do movimento?
Tem ainda a questão do calendário, que depende única e exclusivamente da CBF. Melhor não brigar com ela – foi o que decidimos. Mas uma das coisas que queremos regulamentar é a participação dos atletas no processo eleitoral das entidades. Isso está previsto em lei ainda não regulamentada. Nós defendemos um modelo, baseado no americano, em que os atletas, independentemente do número, representem 20% do colégio eleitoral. É o suficiente para nos tornarmos importantes na tomada das decisões.

O movimento de vocês é elitista? Afinal, as grandes estrelas ganham centenas de vezes mais do que a maioria dos trabalhadores brasileiros.
A categoria gira hoje em torno de 18 mil a 20 mil profissionais registrados, dos quais 85% ganham até dois salários mínimos e jogam só quatro ou cinco meses por ano, tendo de fazer bico no resto do tempo. De dois a cinco salários mínimos são mais 10%. E apenas 5% ganham altos salários. Se pensarmos em quem ganha mais de R$ 100 mil mensais, não deve dar nem 1% da categoria. Então, quem fala em elitismo é por ignorância da realidade. Além disso, como é que alguém do futebol, aos 20 anos de idade, sem patrimônio e ainda buscando seu lugar ao sol, pode se expor e se opor ao sistema atual? E aqueles que nem titulares são? Sobra necessariamente para os que têm melhores condições e podem aguentar o tranco. Foi assim comigo. Eu sabia que poderia ficar sem contrato e ser afastado do Brasil. Eu lutei pelo que achava correto. Quando tinha 20 anos, não faria nunca isso que fiz.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)


Vocês defendem um piso?
Defendemos o teto de gasto com o futebol profissional. Ele deve ser de 70% da receita do clube. Se o Bom Senso fosse um movimento de classe, jamais defenderíamos isso, pois redunda em redução do valor dos contratos. Mas é em prol do futebol. Pensando na sustentabilidade do futebol, concordamos que os contratos devam ser reduzidos. Os atuais, por lei, não podem. Mas os próximos, sim. Defendemos também que o clube não contraia dívidas. Ele não pode ser deficitário.

O Bom Senso não poderia extrapolar e doutrinar alguns jogadores, com base em um código de ética?
Não. Dentro de campo, muitas decisões são tomadas na base da emoção. Todos os atletas são formados nos clubes durante cinco ou seis anos. Os exemplos, a maneira de se comportar dentro e fora de campo, teoricamente, foram aprendidos no clube. Estes têm mais responsabilidades na formação dos atletas – incluindo se eles gostam de noitada, se são ou não pouco profissionais.

Os campeonatos estaduais ajudam ou atrapalham?
Atrapalham muito. Eles foram importantes quando não se conseguia sair de Porto Alegre para o Recife e voltar no mesmo dia. Mas o mundo mudou e o futebol também. Os clubes pequenos  atrasam a vida dos grandes, não revelam mais ninguém, não têm estabilidade. É necessário um novo modelo.

Qual deveria ser o papel dos pequenos clubes?
Eles deveriam ter um calendário, jogar o ano inteiro e ser capazes de se bancar na série A do campeonato nacional. Com um campeonato nacional regionalizado, os custos seriam praticamente os mesmos que eles têm hoje, pois as viagens seriam curtas, eles teriam previsibilidade nas datas e conseguiriam manter o nível deles, que nada tem a ver com o dos grandes. Seu papel deve ser fomentar, fornecer substância para a elite. Se conseguirem uma gestão eficiente, vão subir via escalada natural, da série D para a C, até chegar à A.

Mas, ao propor campeonato nacional regionalizado, automaticamente, não seria o fim das federações estaduais?
Não somos contra as federações. Pelo contrário, elas são fundamentais para que o futebol e o seu desenvolvimento possam chegar a todos os cantos do Brasil. Acreditamos que elas deveriam ter um papel ainda mais importante de fomento do esporte, na capacitação dos profissionais, na disseminação das metodologias desenvolvidas pela CBF. Não concordamos com o fato de as federações terem tanto poder, com a maioria dos votos no Colégio Eleitoral da CBF, e o modelo de campeonato estadual que elas praticam.

Você saiu do Corinthians e foi jogar na China. Estava atrapalhando?
Já existia o Bom Senso, cujo intuito sempre foi defender o futebol. Nisso aí, algumas posições minhas deixaram a diretoria e o clube em situação desconfortável, pois este é um movimento crítico aos cartolas. Querendo ou não, nesse meio, sempre há o receio dos clubes em relação às retaliações, sejam elas esportivas ou políticas. Eu era o capitão do time, vinha jogando bem. Mas chegou o momento da renovação do contrato. Eu falei à diretoria que queria renovar de modo a encerrar a minha carreira no Corinthians. Não houve resposta. O tem po foi passando, o pessoal me enrolando, até que entendi: o silêncio era uma resposta e, por causa dessa ambiência toda, acabei optando por aceitar a proposta do Shangai Shenhua, de Shangai. Na China foi maravilhoso, gostei demais. Comecei a aprender chinês, até já estava escrevendo direitinho. Mas voltei porque a exigência era baixíssima. Eu sentia falta de futebol competitivo, só o dinheiro não me motiva.

Cláudio Cunha
(foto: Cláudio Cunha)


Mas as coisas não estão mudando por lá, já que na China houve o segundo maior investimento do planeta em futebol?
Sim. O primeiro-ministro, Li Keqiang, é apaixonado pelo jogo e decretou ser o futebol política e prioridade de Estado. Lá eles vão ensiná-lo nas escolas e, dentro de uns 30 anos, a China será uma potência futebolística. Mesmo porque, sabendo da paixão de Keqiang, as grandes empresas chinesas compraram times de futebol e estão investindo pesado para ficar próximas do governo e lucrar com o esporte e outros negócios. O bilionário Jack Ma, dono do site Alibaba, por exemplo, ficou com metade do Guangzhou Evergrande. Foi esse time que levou o Ricardo Goulart. Mas lá ainda estão engatinhando em processos, em entender como é que se faz futebol.

Entre você ir e voltar, por aqui o clima político mudou muito. Você foi às ruas protestar?
Em 2013 eu estava lá. Dessa vez eu não fui – até porque tinha jogo. Mesmo que estivesse de folga, não iria, porque não havia uma bandeira em comum. Tinha gente contra a corrupção, tinha gente contra e a favor da Dilma, tinha gente pela volta da ditadura... Eu sou pela democracia e contra a intolerância. Não creio que o impeachment seja a solução. Um dos grandes problemas do Brasil está no Congresso Nacional e na maneira com que se faz política. Sou a favor da reforma política e acredito que ela não virá do Congresso. A única opção que vejo é a convocação de uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política. Fora isso, acho que é impossível governar, independentemente de partido.

Você chegou ao Cruzeiro num momento em que o ápice, parece, passou. Como está sendo jogar aqui em Belo Horizonte? O que espera do time?
Eu estava treinando em Orlando para jogar o campeonato americano. Mas não pude resistir a uma chamada do bicampeão brasileiro, que joga bonito, para frente, e isso por exigência da torcida. Isso tudo me convenceu. Agradeço à diretoria, que acreditou e bancou o meu nome. Agora, chegar a um time que foi campeão dois anos seguidos e que se desfez de alguns grandes jogadores não é fácil. Eu espero ajudar a equipe. Fui extremamente bem recebido pelo clube, os jogadores me acolheram, hoje já tenho uma relação avançada com eles, estou bem feliz em BH.

Quando você parar de jogar bola, vai ser técnico ou político?
Sinceramente, não sei. Eu não tenho muita paciência para essas opções. O convívio parlamentar exige estômago. A carreira de técnico também, pois às vezes o profissional monta o time, que vai indo muito bem, mas, de repente, seu melhor jogador se machuca, o  time decai, perde três jogos seguidos e o técnico é demitido. Assim não dá.

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