E o sono que não vem

Por mais tentador que seja, usar tablets e smartphones na hora de dormir deve ser evitado. A luz dos aparelhos pode inibir o sono e gerar problemas como ansiedade, ganho de peso e depressão

por Marina Dias 13/04/2015 14:56

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(foto: Shutterstock)
O dia tem poucas horas para o educador físico Kenji Takahashi. Ele, que é empresário, personal trainer e coordena seis estúdios de treinamento funcional em três cidades, trabalha no mínimo 12 horas diárias, sendo que parte do trabalho é pelo celular, por onde realiza reuniões e alimenta redes sociais. Quando chega em casa, à noite, ainda posta artigos e dicas de exercícios físicos na internet. Resultado: quase sempre, perde a hora de dormir.  "Quando vejo, já são três da manhã", diz. Nas vezes em que tenta dormir mais cedo - afinal, sente sonolência durante a tarde -, ele desliga todos os aparelhos eletrônicos antes de se deitar. Contudo, diz que, ainda assim, tem dificuldade para adormecer. "Fico muito ligado", explica.

Kenji não está sozinho. A mobilidade permitida por aparelhos como tablets e smartphones faz com que seja fácil ficar conectado até altas horas, inclusive quando já se está deitado na cama. E esse hábito tem sido cada vez mais condenado por especialistas, que alertam para as consequências negativas do uso noturno de aparelhos eletrônicos. Segundo pesquisas, não é apenas pelo fato de as pessoas ficarem mentalmente ocupadas até mais tarde que a prática é prejudicial ao sono. Nosso relógio biológico é fisicamente sensível a esses gadgets. Isso porque a luz emitida por eles influencia o ciclo sono-vigília, atrasando o adormecimento.
 
A principal hipótese é de que essa influência se dê pela inibição da liberação de melatonina, hormônio considerado responsável por avisar ao corpo quando está na hora de dormir. Segundo a pesquisadora belo-horizontina Mariana Figueiro, do Centro de Pesquisa da Luz do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, a luz azul de ondas curtas, característica dos novos aparelhos com autoiluminação, é especialmente influente nessa inibição. Isso porque fotorreceptores dos nossos olhos (de onde são emitidos sinais ao cérebro quanto à secreção da melatonina) são muito sensíveis a esse tipo de luminosidade. Assim, se a pessoa usar até muito tarde esses aparelhos, terá uma alteração na liberação de melatonina, o que, segundo se acredita, atrasa o sinal do sono em nosso corpo.
 
Alexandre Rezende/Encontro
O empresário Kenji Takahashi usa diariamente o smartphone até a hora de dormir, o que atrapalha seu sono: "Demoro a adormecer, pois fico muito ligado" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Figueiro explica que, geralmente, a quantidade de luz a que somos expostos em nossas casas está abaixo do nível de ativação desse processo de atraso no sono. As luzes dos quartos, por exemplo, são menos fortes e de cor quente - não azul. Já os novos aparelhos de autoiluminação têm luz mais brilhante, mais azul. Além disso, são usados mais próximos dos olhos, o que aumenta a quantidade de luminosidade captada. "Esse problema é maior, porque estamos mais suscetíveis a receber a quantidade necessária de luz para desencadear esse processo quando o aparelho está mais próximo dos olhos", afirma Mariana.

Dessa forma, os usuários dos gadgets podem demorar mais a dormir e, como o horário de acordar costuma se manter - para que se cumpram compromissos como trabalhar, estudar, resolver problemas no horário comercial -, as horas de sono são comprometidas. Segundo o psiquiatra Maurício Viotti, médico do sono, é preciso ter a consciência de que dormir é importante para o corpo e pode haver consequências sérias, no longo prazo, para quem dorme pouco. Se o hábito continuar por meses, diz ele, isso pode gerar desgaste, tensão e afetar a memória, além de problemas físicos, como ganho de peso.  "Há estudos mostrando que pessoas que trabalham em turnos - e portanto dormem menos -, têm insônia. Está comprovado, por exemplo, que esse comportamento gera mais problemas cardiovasculares, alterações metabólicas, pode causar diabetes e afetar a imunidade. Esse hábito gera um estresse biológico", afirma Maurício.
 
Ainda de acordo com o especialista, não há tantas informações sobre as consequências específicas em crianças, pois os estudos são feitos, normalmente, em adultos. Contudo, ele afirma que algumas das reações comuns desse grupo quando privados de sono são irritação e dificuldade de concentração, o que pode gerar baixa no rendimento escolar.  Foi o que aconteceu com o estudante Vitor Loureiro, de 13 anos. Segundo sua mãe, a publicitária Andrea Loureiro, ele não conseguia se concentrar nos estudos, o que comprometeu seu desempenho na escola, e tinha dificuldade para dormir depois que se deitava. "Os jovens têm consumo grande desse tipo de equipamento, e o hábito deles é ficar horas em chats no smartphone. Há grupos de WhatsApp nos quais as pessoas viram a noite conversando", diz Andrea.
 
Alexandre Rezende/Encontro
Ao perceber a dificuldade de concentração do filho Vitor, a publicitária Andrea Loureiro pediu que o garoto ficasse 30 dias sem smartphone: "Agora, consigo me concentrar melhor e durmo com mais facilidade", diz Vitor (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Depois de procurar especialistas e conversar com o filho sobre como resolver a questão, Andrea e Vitor se entenderam e foi o próprio garoto quem deu o celular à mãe, para um teste de 30 dias sem o aparelho - período que terminou recentemente. Segundo Vitor, ele está conseguindo se concentrar mais na aula e tem tido mais facilidade para adormecer. "Antes, mesmo que eu parasse de mexer no celular e fosse me deitar, custava para dormir", diz ele, que, agora, está em uma onda bem diferente da de seus colegas. "Eles viram a noite no WhatsApp, mandam mensagens até de madrugada. No dia seguinte, morrem de sono na aula", diz.
 
E não adianta achar que isso se compensa dormindo durante as tardes. A recomendação médica quanto ao sono é não apenas dormir o tempo suficiente, mas também durante a noite. Segundo o neurologista Rogério Gomes Beato, médico do sono, há funções do corpo que são realizadas especificamente no período noturno, como a liberação de certos hormônios. Por isso, o ideal é sincronizar o relógio biológico (o seu "tempo") com o relógio social (horários de funcionamento convencionados pela sociedade) e o ambiental (dia e noite). Assim, dorme-se o suficiente, na hora adequada, sem atrapalhar a vida pessoal ou profissional. O especialista lembra que o problema de dormir pouco é um fenômeno mundial, fruto do modo como vive a sociedade de hoje. Mas não deixa de ressaltar: "É importante manter um ritmo e ter uma rotina relacionada ao sono." Para isso, mexer no celular ou no tablet à noite, nem pensar!

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