Dentinho salvador

Estudos avaliam a eficácia das células-tronco do dente de leite para reverter doenças degenerativas. Mesmo sem resultados conclusivos, muitos pais têm optado por guardá-los em clínicas

por Geórgea Choucair 22/04/2015 16:12

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Denis Medeiros/Encontro
Davi, de 8 anos, com a mãe, Elaine de Almeida, que armazenou em laboratório os dentes de leite dele: esperança de que sejam úteis em tratamento para regenerar a córnea (foto: Denis Medeiros/Encontro)
O dentinho de leite que as mães colocam em pingentes e as crianças guardam embaixo dos travesseiros para as fadas ganhou função muito mais nobre: ser fonte de células-tronco. Um grupo de mais de 300 pesquisadores dentro e fora do Brasil está debruçado em estudos que revelam que a polpa do dente de leite tem grande quantidade de células mesenquimais, responsáveis pela formação dos tecidos ósseos, cartilaginosos, musculares e adiposos. Dessa forma, pode ter eficácia na reversão de mais de 350 doenças degenerativas como mal de Alzheimer e Parkinson, lúpus e até infarto, AVC, disfunção do miocárdio e restauração da córnea humana.

Cláudio Cunha/Encontro
"As pesquisas ainda estão em desenvolvimento, mas os resultados já são suficientes para trazer enorme otimismo", diz a odontopediatra Ana Cristina Braga, uma das mais respeitadas da capital (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
"O dente de leite é um material muito rico em célula-tronco para ser descartado e virar pingente", afirma o biotecnólogo Nelson Foresto Lizier, um dos grandes estudiosos do tema há uma década. Lizier é diretor científico do Centro de Criogenia Brasil, clínica com sede em São Paulo que coleta, processa e armazena células-tronco de diversas fontes. Esses bancos e os centros de coleta são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A grande questão é que, embora as pesquisas tenham apontado que esse material pode ser útil no futuro para o tratamento de inúmeras doenças, ainda não há comprovação de que as células do dente de leite tenham mesmo tal potencial.

Até agora, o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), por exemplo, não se manifestou sobre o tema. Mas isso não impede que um grupo de odontopediatras mineiros, coordenado pelos professores Júlio Carlos Noronha e Maria de Lourdes de Andrade Massara, reúnam-se em BH para estudar o assunto. "As pesquisas ainda estão sendo desenvolvidas e seus resultados em animal experimental já têm demonstrado imenso potencial de utilização, para um futuro muito próximo", afirma a odontopediatra Ana Cristina Braga, uma das integrantes do grupo. "É um avanço científico de extrema importância, que merece ser acompanhado muito de perto." Ela ressalta que a coleta não precisa acontecer logo que cair o primeiro dente. "São 20 dentes de leite. A perda faz parte do processo fisiológico natural", diz.

JC Martins/Encontro
Luiza Machado, de 11 anos, com os pais, Antônio e Raquel Machado: "Esperamos que ela nunca precise usar. Mas, diante da disponibilidade, decidimos fazer o investimento", diz Antônio (foto: JC Martins/Encontro)
Em Minas, ainda não há laboratórios de armazenamento, mas os dentinhos extraídos de algumas crianças já começam a ser guardados, representando precaução a mais para o futuro. Essa coleta é feita por clínicas, que enviam os dentes para congelamento em laboratórios de outros estados. Para aproveitar a polpa, eles devem ser extraídos pelo dentista e transportados até 72 horas depois. "A coleta é feita quando o dente começa a amolecer, pouco antes de cair naturalmente", explica o cirurgião-dentista Marcos Gribel, da Odontologia Gribel, uma das que realizam esse trabalho na capital mineira.

Na avaliação do dentista, o uso dessas células-tronco pode representar uma revolução na vida das pessoas. "As células podem melhorar a qualidade de vida de toda a família, já que o tratamento não fica restrito ao doador", diz Gribel. "Perdemos de 30 a 50 milhões de células por dia. Se for possível repor essas células, a pessoa terá, por exemplo, longevidade", explica o médico pediatra Carlos Alexandre Ayoub, diretor clínico da clínica paulista Criogenia Brasil.

Divulgação
"Perdemos milhões de células por dia. Se for possível repor, a pessoa terá longevidade", diz o médico pediatra Carlos Alexandre Ayoub (foto: Divulgação)
Na esperança de conseguir um tratamento para regenerar a córnea, o pequeno Davi Miranda Moreira de Almeida, de 8 anos, teve seus primeiros dentinhos enviados para um laboratório que faz armazenamento em São Paulo. "Aguardamos agora um profissional habilitado para usar a célula-tronco da polpa do dente", diz a mãe do menino, a empresária Elaine Cristina Moreira de Almeida. Davi  nasceu prematuro, com 31 semanas e pesando apenas 1,15 kg. Foi logo diagnosticado com catarata congênita, que acontece por alterações na formação do cristalino e pode causar cegueira. Com 3 meses, Davi precisou ser operado para retirada de cristalino e hoje enxerga apenas com um dos olhos. "O outro tem visão encorpada", diz Elaine. O padrasto do menino, o corretor de imóveis Rinaldo Fiorini, tem duas filhas, Sophia, de 16 anos, e Isabella, de 18. "Pena que não tive tempo de guardar o dente de leite delas", diz.

Luiza Tavares Vieira Machado, de 11 anos, pôde guardar alguns dentinhos de lembrança. Mas os últimos foram enviados para São Paulo e congelados. "Fizemos por precaução e possibilidade de uso em tratamento futuro", afirma o pai, o engenheiro agrônomo Antônio Olinto Vieira Machado. As células-tronco são tratadas hoje pelos cientistas como "seguro de vida". É assim que pensam os pais de Luiza. "Esperamos que ela nunca precise usar. Mas, diante da disponibilidade, decidimos fazer o investimento", afirma Antônio Machado.  Se tivesse tido tempo, diz, teria feito o mesmo com os dentinhos da outra filha, Natália, de 16 anos. Os últimos dentes de Luiza prometem ser o seguro de toda a família. Os primeiros foram guardados por ela dentro de uma caixinha e agora passaram a ser vistos com outro valor. E que valor!

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