Velho Mercado Novo

Comerciantes do local sofrem com falta de planejamento e abandono. Projetos culturais reacendem a esperança de revitalizar o prédio

por Rafael Campos - Encontro BH 17/08/2015 14:27

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Léo Araújo/Encontro
Prédio do Mercado Novo, entre a avenida Olegário Maciel e rua Tupis, no centro: erguido na década de 1960, nunca teve as obras concluídas (foto: Léo Araújo/Encontro)
O solitário gato circula à vontade pelo corredor de lojas fechadas e iluminado apenas pela luz natural que atravessa os cobogós. Logo à frente, no mesmo corredor, o movimento é outro. Clientes saboreiam o almoço do restaurante Tia Beth. Mas lá, não se consegue ouvir o telejornal do final da manhã, já que o som fica abafado pelo ruído insistente da impressora da gráfica ao lado.

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Estrutura precária: lojas fechadas e pedestres dividindo a rampa de acesso com veículos (foto: Léo Araújo/Encontro)
A cena se passa no interior do Mercado Novo, erguido na década de 1960, na avenida Olegário Maciel, no centro de BH. O local nunca tomou de fato para si o adjetivo de batismo. A construtora faliu e a obra não chegou a ser concluída. Resultado: comércios instalados sem organização ou lógica. No lugar de mais lojas, um estacionamento. A rampa de entrada dos veículos é a mesma dos frequentadores. Dos comerciantes se ouvem depoimentos saudosistas, mas também rancorosos, já que o sentimento é de que o local se transformou no patinho feio, ao compará-lo com o irmão mais velho, o Mercado Central, nascido em 1929. É comum também ouvir relatos do incêndio ocorrido em 2004, no primeiro andar do prédio, que deixou comerciantes e visitantes assustados.

Atualmente, o mercado é mais conhecido pelas gráficas, que somam 65, distribuídas em dois andares. Há também lojas de uniformes, embalagens, consertos de roupas, sebos, barbearia e lanchonetes. As bancas de hortifrúti estão no térreo. Entretanto, mais de 80 espaços estão com as portas fechadas, de acordo com Antônio Gabriel de Castro Filho, superintendente do mercado e diretor da Rege, empresa proprietária de 70% das lojas.

Em meio à ociosidade, há comerciantes que não se rendem ao clima de abandono do lugar. José Evangelista de Avila tem 69 anos, dos quais 30 dedicados à lanchonete no primeiro andar. "Criei meus quatro filhos com a ajuda desse negócio. Não saio daqui por nada", diz. Já Antônio Baião, de 67 anos, mais conhecido como Toninho Baião, aluga outra pequena loja onde comercializa vinis. Ele considera que o mercado merecia estar mais bem cuidado. "A iluminação é ruim e o visual não atrai tantas pessoas. Tem gente que entra e fica assustada. Sai correndo, achando que vai ter algum problema, mas aqui é seguro", afirma.

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Antônio Gabriel de Castro Filho, superintendente do mercado: "Vamos acabar de vez com a ideia de que aqui nada funciona" (foto: Léo Araújo/Encontro)
O superintendente Antônio Gabriel, que vivencia o edifício desde a década de 1970, ainda tem esperanças de que o mercado vire de vez essa página. Segundo ele, a situação começou a tomar novo rumo com a inauguração do Mercado das Borboletas, em 2010, na ponta esquerda do terceiro piso, até então inutilizado. O Borboletas, como é conhecido, deu uma sobrevida ao andar. Vários eventos com roupagem de alternativos atraíram a moçada e o inacabado cenário ganhou contornos underground.

"É difícil abater o artista brasileiro. Levamos na raça mesmo", diz Tarcísio de Campos Ribeiro, artista plástico e diretor do Mercado das Borboletas, sobre as dificuldades de tocar o projeto. De acordo com ele, o prédio sofre por não ter sido acabado e adequado às normais de engenharia atuais. "Estamos fazendo isso agora. Já gastamos cerca de R$ 20 mil", diz.

No fim de junho, comerciantes, moradores do entorno e visitantes viram reacender nova chama da esperança de ver o lugar, enfim, transformado. Com o nome de Apropria Mercado Novo, o projeto prevê ocupar o lado direito do terceiro piso, uma área de 4 mil metros quadrados, com o conceito de economia criativa. A intenção é atrair grupos de empreendedores especialmente da área cultural. Os interessados deverão arcar apenas com os custos do projeto de arquitetura e o valor do aluguel.  O superintendente Antônio Gabriel, entusiasmado com a iniciativa, espera começar as obras o quanto antes. "Vamos acabar de vez com a ideia de que aqui nada funciona", afirma. Este seria o pontapé para que todo o mercado seja revitalizado.

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Antônio Baião, vendedor de vinis: "Tem gente que entra e fica assustada. Sai correndo, achando que vai ter algum problema, mas aqui é seguro" (foto: Léo Araújo/Encontro)
Tal como alguns de seus corredores, a história do Mercado Novo é obscura. O prédio foi projetado para ser um dos mais modernos da América Latina. Em parceria com a iniciativa privada, foi erguido no terreno onde funcionava uma oficina especializada em trólebus e bondes. Entretanto, não foi totalmente acabado e, depois que a construtora faliu, os comerciantes que investiam no espaço mudaram os rumos para o Mercado Central. A partir daí, sucessivos problemas passaram a fazer parte da vida do lugar, como a presença de intermediários e atravessadores exercendo comércio ilegal e concorrência desonesta, conforme descrito no livro Belo Horizonte e Comércio – 100 anos de história, da Fundação João Pinheiro.

Para Vitor Diniz, presidente da Associação dos Moradores e Amigos da Área Central, agora, é preciso, sobretudo, encontrar a vocação do Mercado Novo. "As funções dele foram mudando ao longo dos anos. Hoje, atende empresários, por causa das gráficas e lojas de embalagens, por exemplo", afirma. As iniciativas de ocupação, para ele, são bem-vindas. "Os moradores da região e da cidade reconhecem o lugar como importante patrimônio, mas é preciso que circule por lá coisas positivas, melhorando o aspecto interno e externo. O entorno precisa disso", afirma. Fica a torcida para que o Mercado seja, de fato, novo.

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