Anjos da fauna

Animal silvestre pode ser criado em locais privados, fora de seu hábitat, desde que seja em área preservada e aprovada pelo Ibama. Muitos mineiros, de forma voluntária, têm construído abrigos e ajudado a preservar espécies raras

por Daniela Costa 17/09/2015 13:59

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Cláudio Cunha/Encontro
A veterinária Teresa Cristina Brini Motta cuida do tamanduá abrigado pela ONG Asas e Amigos: "Sempre atendemos animais silvestres, já que não existem muitos locais que fazem esse trabalho na capital" (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Eles chegam aos abrigos assustados e, não raras vezes, feridos e doentes. Em sua maioria, são animais silvestres resgatados por órgãos de proteção ao meio ambiente, por meio de denúncias. Alguns deles já em extinção. O fato é que nenhum desses animais deveria ter sido retirado de seu hábitat. A Lei de Crimes Ambientais é clara: quem tem animal silvestre em casa está sujeito a penalidade e multa. Somente em Belo Horizonte, mais de 7 mil animais são apreendidos por ano, a maioria deles aves, especialmente papagaios.

A legislação brasileira não permite a legalização de animal silvestre que em algum momento tenha sido retirado da natureza. "A lei se aplica a todos os casos, inclusive àqueles em que o animal já está há muitos anos em poder do suposto dono", explica Cecília Barreto, veterinária, responsável pelo Centro de Triagem do Ibama. Segundo ela, o animal silvestre só é legal quando nasce em criatório autorizado por órgão competente para comercializá-lo. "O processo se dá mediante emissão de nota fiscal e implantação de anilha de identificação nas aves e microchips nos mamíferos", diz.

As exceções acontecem em situações raras, quando o animal não tem condições de ser reintegrado à natureza. "Nesses casos, o juiz pode determinar que o dono passe a ser o depositário fiel do animal, mediante apresentação de relatórios mensais ao Ibama", explica a advogada Fernanda Bouchardet, especialista em direitos animais. Para ela, a medida é necessária, tendo em vista que o orgão não tem estrutura adequada para receber todos os animais abrigados de forma ilegal.

Marcus Vinicius/Dvulgação
A arara-azul e o mutum (abaixo) , algumas das espécies ameaçadas de extinção: eles vivem em criatórios, na Fazenda Cachoeira, no interior do estado. A ideia é reproduzir e depois reinserir na natureza (foto: Marcus Vinicius/Dvulgação)
Os animais que chegam ao Ibama são avaliados por uma equipe de veterinários e, na sequência, são anilhados, microchipados e vermifugados. Somente após estarem totalmente reabilitados é que são encaminhados para os abrigos. "Contamos com áreas de solturas em mata preservada, a maioria de propriedade privada, onde realizamos esse trabalho", diz Cecília. A parceria com pessoas físicas é que tem ajudado o órgão. O interessado pode se cadastrar no Ibama, que vai vistoriar a área disponibilizada e fazer o levantamento da fauna existente no local. Caso o ambiente seja adequado, o proprietário poderá construir viveiros para abrigar os animais, de forma temporária ou definitiva.

São várias as formas de ajudar. Há cinco anos, o advogado Crispim Zuim, de 46 anos, criou o projeto de proteção animal O Lobo Alfa. A princípio, o trabalho se limitava a resgatar cães e gatos abandonados, mas há um ano e meio participa do projeto Área de Soltura de Aves (Asas), junto ao Ibama. Ele construiu um grande viveiro para abrigar pássaros, temporariamente, na Fazenda Vale dos Sonhos, localizada na região metropolitana de BH. "Minha fazenda nunca foi produtiva, sempre foi para preservação ambiental. E o trabalho com os pássaros foi a forma que encontrei de ajudar as autoridades com os animais silvestres", diz Crispim.

Cláudio Cunha/Encontro
Na Fazenda Vale dos Sonhos, o advogado Crispim Zuim construiu um grande viveiro de pássaros e mantém uma área de soltura em mata preservada: "Foi a forma que encontrei de ajudar" (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Outra categoria de apoio são os chamados mantenedores da fauna, que abrigam animais de forma permanente, mas sem poder comercializá-los. É o caso da ONG Asas e Amigos, um braço da clínica veterinária Cães e Amigos. "Sempre atendemos animais silvestres e, como não existem muitos locais que fazem esse trabalho na capital, decidimos abrigar em nossa ONG aqueles que não podem mais ser reintegrados à natureza", diz a veterinária responsável, Teresa Cristina Brini Motta. Em sua maioria, são animais mutilados, vítimas do tráfico.

Há também os Criatórios Científicos com Fins de Conservação, que têm o objetivo de preservar as espécies em extinção. Há dois anos, a empresária Maria Cristina Cioglia Dias Gontijo mantém um criatório na Fazenda Cachoeira, localizada no interior do estado, onde acontece a reprodução de algumas espécies ameaçadas, entre elas o mutum e a arara-azul. "Formamos uma população cativa e depois a reintroduzimos na natureza", diz o veterinário Rogerio Venâncio Donatti, especialista em medicina de animais selvagens e exóticos e responsável pelo criatório.

O zoológico é o único mantenedor com fim de visitação pública. "A participação da população, tanto no combate ao tráfico de animais quanto participando dos projetos disponibilizados, é fundamental. Só assim conseguiremos preservar muitas espécies", diz Cecília.

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