'Crise exige criatividade'

Os abalos emocionais tornam-se mais frequentes em momentos de instabilidade política e econômica, segundo estudiosa. Dedicar-se a atividades prazerosas, como leitura e maior tempo com a família, são caminhos para buscar o bem-estar

por Geórgea Choucair 17/09/2015 14:55

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Pedro Nicoli/Encontro
(foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Quem, diante de uma situação de instabilidade, não sente insegurança, pessimismo e medo? Os sintomas se tornam mais frequentes na população em momentos de crise econômica. Em casos mais graves, podem até desencadear doenças psicossomáticas como depressão, ansiedade e síndrome do pânico, diz a psicóloga e psicanalista Sônia Eustáquia Fonseca, estudiosa do assunto. Com 37 anos de atuação na área, Sônia diz que só viu abalos emocionais tão fortes há 24 anos, com o confisco das aplicações, no período do governo Collor. Mas há um lado positivo. Buscar atividades prazerosas, como ler e estar mais próximo da família, além de estimular a criatividade, abre-se como novos caminhos. "Depois da crise, vamos ver muita coisa nova criada", afirma.

1 |  ENCONTRO -  Como a crise econômica e política afeta a vida emocional das pessoas?
SÔNIA FONSECA -
Em um momento como esse, as pessoas se sentem mais inseguras e pessimistas. Essas sensações fazem com que os neurotransmissores que irrigam o cérebro para que seja criativo, tenha memória boa e reaja frente aos obstáculos fiquem meio paralisados. Se a pessoa está menos criativa e mais triste, o trabalho e a escrita ficam piores. Aquele branco que costuma dar passa a ser mais frequente. A vida sexual da pessoa também é afetada.  Ela pode buscar o sexo até com frequência maior. Isso pode ser bom ou não.

2 | Quais as consequências do pessimismo?
Quando as pessoas estão mais otimistas, mais confiantes, o consumo aumenta, movimentando a economia e trazendo mais emprego, renda e prosperidade para a sociedade. Ocorre o oposto quando a população está pessimista, pois o consumo cai, gerando uma série de transtornos na vida prática e emocional das pessoas.

3 | O mundo econômico globalizado gera um desconforto psíquico maior?
Nós somos um organismo: corpo, mente e mundo externo. Se acontece algo no mundo externo, isso chama a atenção de toda a população, acredito que mais do que o necessário. Está sobrando pouca energia para o trabalho, amor, criação dos filhos, retenção de conteúdos.

4 | Que marcas a crise pode deixar nas pessoas?
Se é crise, vai passar, isso é fato. Entretanto, deixa marcas e cicatrizes que podem ser profundas. Por exemplo, um pai de família que perde o emprego perde junto muito da sua autoestima e esperança, tornando-se pessoa insegura. Com esse estado emocional, ele terá dificuldades nas entrevistas e testes para novo emprego, aumentando a probabilidade de ficar cada dia mais distante do mercado de trabalho. Excluído, ele se sentirá deprimido e desvalorizado, além, é claro, de ter perdas em sua credibilidade pessoal. É preciso ter criatividade para sair da crise, inventar coisas novas. Depois desse momento que vivemos hoje, vamos ver muita coisa criada, em termos de objeto, de tecnologia. O brasileiro, que já é criativo, vai se tornar mais criativo.

5 | Em toda a sua trajetória profissional, a senhora já vivenciou alguma crise que abalou de forma tão forte o emocional das pessoas?

Sim. Não foi no impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, pois serviu como uma solução. Foi com a inflação galopante, com quase 100% de aumento de preço no mês. Muitas pessoas tiveram toda a economia confiscada. Uma cliente minha, por exemplo, vendeu uma casa em Lagoa Santa e um apartamento no Santo Antônio para construir no Belvedere. Com o confisco, teve de alugar um apartamento para morar. Além da dificuldade financeira, entraram outros sintomas nesse momento. O impacto nas finanças traz reflexos no emocional também, que vai desde a baixa autoestima até mesmo a quadros ansiosos, mais severos. Se a pessoa tem predisposição para depressão, por exemplo, pode desenvolver um quadro depressivo forte. Grande parte da população se viu perdida com o confisco. Teve gente que morreu em razão da frustração, decepção e perda galopante.

6 | No aspecto psicológico, quem é mais atingido com a crise?
O empregado da iniciativa privada tem muito medo de ser demitido. O funcionário com estabilidade passa um pouco mais afastado da crise. Mas vai sentir também o impacto dos elevados preços dos produtos. A qualidade de vida a que estava acostumado sofre alguns abalos. Tenho percebido que esses profissionais estão tirando dinheiro de suas reservas, pois têm gastado mais. No geral, as coisas encareceram, não foi só o produto importado. E há ainda os familiares nesse quadro. Todo mundo foi afetado, de forma mais amena ou mais forte. O empreendedor vai ter de se reinventar. Uns vão dar conta, outros vão fracassar.

7 |  Há áreas mais afetadas?
A área de prestação de serviços é a primeira a ser cortada. Muita gente tem demitido os empregados domésticos e optado pela diarista. Caminhamos para um lugar que até não acho ruim, entre as poucas vantagens que vemos com a crise, pois temos de nos responsabilizar bastante pelo que vivemos, pela gestão da casa, dos filhos. O brasileiro vai ganhar com a maturidade.

8 |  Como identificar os sintomas dessas alterações emocionais?
Há os físicos, que seriam as dores e aumento das doenças em predisposição. No que se refere à condição emocional ou psíquica, há o aumento dos transtornos de pânico, dos quadros de ansiedade generalizada e dos mais depressivos. Os ataques de pânico são tomados de uma sudorese, como se algo péssimo fosse acontecer. A sensação é horrível, de desamparo, falta de proteção e de desintegração. No caso da depressão, há uma falta de sentido para a vida, um pessimismo. A pessoa se levanta da cama empurrada, com a sensação de que nada vai dar certo naquele dia, desanimada de fazer planos. Ou liga o piloto automático, que funciona como uma defesa.

9 |  Como evitar que essas alterações emocionais aconteçam?
O entretenimento e o lazer são boas saídas. Precisamos desse oásis. É importante dedicar-se a hábitos diferentes, como ler os livros que estão inacabados. A retomada de atividades relacionadas ao lar, como cozinhar, é muito boa também. Outro caminho é aconchegar-se à família. Se temos perdas, precisamos de ganhos. É preciso buscar mais as possibilidades no ser, e não no ter. O serviço voluntário ajuda em todas as crises da vida. Doar sem receber de volta faz muito bem.

10 |  Como o líder deve administrar os funcionários no momento de crise?

Deve buscar lá no fundo toda a carga de otimismo, mas é preciso ter realismo também. Se há a perspectiva de demissão na empresa, ele deve avisar aos funcionários, pois, se a pessoa está gastando muito ou planejando uma viagem, ela muda os projetos. Terá menos frustração. O chefe pode aproximar os funcionários dessa realidade. É importante ainda que o líder aponte caminhos para os funcionários melhorarem os currículos e forneça feedback das qualidades e até mesmo dos defeitos de cada um. O excesso de otimismo não ajuda, mas o pessimismo também não.

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