Ele está no auge

Empresário brilhante e pai de um estilo de liderança invejado e copiado, o construtor Rubens Menin está erguendo - com novos negócios - um dos maiores conglomerados empresariais do Brasil. Sua mais nova aposta, contudo, é a filantropia

por Carolina Daher e André Lamounier 09/10/2015 14:58

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Alexandre Rezende/Encontro
Rubens Menin, em seu escritório na nova sede da MRV, decorado com fotos dos netos: a família está sempre presente na vida do empresário (foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Bip, bip! O apito no celular é sinal de que chegou nova mensagem. Rubens Menin gira a cadeira e confere o aparelho. "Posso responder essa aqui? Me dá licença." Rubens havia postado, na manhã daquele dia, uma mensagem nas redes sociais que repercutia. "A arbitragem está tirando o brilho do Brasileirão. Não consigo entender o que está por trás disso", escreveu ele no Twitter, onde tem mais de 60 mil seguidores. Estava extravasando sua ira contra juízes que andaram apitando jogos de seu time do coração, o Atlético Mineiro. Todos os dias, uma nova mensagem é postada. Em geral, assuntos relacionados ao mercado da construção. Nossa conversa evolui e, de quando em quando, aparece novo bip! bip! Ele passa o olho, mas logo volta para a entrevista. Assim é o empresário Rubens Menin, 1,91 metro de altura, fundador da maior construtora do Brasil e uma das maiores do mundo, a MRV, com vendas de 6 bilhões de reais em 2014. Ele está sempre ligado. Seu celular não desliga nem mesmo à noite. É usuário assíduo do Twitter, uma de suas ferramentas preferidas. "Atualmente, é meu maior canal de informação", diz.

Rubens Menin está no auge. Aos 59 anos, desde os 23 na direção da companhia que fundou, esse engenheiro civil formado em 1978 na UFMG, em Belo Horizonte, é responsável não apenas pela estruturação da companhia, mas também pelo colossal período de crescimento por que tem passado a MRV.

Ser a maior construtora do país tinha tudo para ser má notícia no Brasil de hoje. O mercado está metido numa séria crise e a venda de imóveis despencou nos últimos anos. As construtoras estão com estoques abarrotados. Mas Menin não tem do que reclamar. Ele está, afinal, colado numa marca que parece pertencer a um outro Brasil: a MRV. Só na última década, a empresa cresceu 4 mil vezes (pulou de 120 milhões de reais para 5 bilhões de reais de receita líquida) e seu valor patrimonial cresceu mais de 6 mil vezes. Desde a fundação, a construtora já entregou quase 300 mil imóveis e tem, hoje, 25 mil funcionários. "Até o final de 2016, um em cada 200 brasileiros estará morando num imóvel construído pela empresa", diz ele. Em algumas cidades, como Uberlândia e Ribeirão Preto, um em cada 20 habitantes já vive num MRV. "O Rubens é um exemplo para o mundo", afirma Salim Mattar, dono da Localiza, maior locadora de carros da América Latina. "A MRV mudou a geografia das cidades brasileiras."

Cláudio Cunha/Encontro
Rubens Menin com a mulher, Beatriz (ao centro); o filho Rafael com a mulher, Cecília Vieira (à esq.); a filha Maria Fernanda com o marido, Rodrigo Maia (ao fundo), e o filho João Vitor com a mulher, Daniela Sales (à dir.), na casa de campo da família, em Nova Lima, onde se reúnem todos os fins de semana: "O senso de família dele (Rubens) é muito forte", diz a filha (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Com todo esse tamanho, a empresa vive um desafio: continuar crescendo num país em crise. É aí que cresce a figura de Rubens Menin. Quando a empresa anunciou, no dia 26 de março de 2014, que ele estava deixando a presidência executiva da MRV para se dedicar exclusivamente ao conselho de administração, veio a dúvida: ele estava parando? A sucessão na companhia vinha sendo forjada há pelo menos quatro anos, quando seu filho Rafael Menin e o sobrinho Eduardo Fischer assumiram os cargos de COO, equivalente ao de um vice-presidente de operações. Já um gigante da construção e com a casa arrumada, a empresa estava pronta para seguir em voo de cruzeiro, sem depender de seu fundador. O tempo, contudo, mostrou a importância do conhecimento acumulado pelos anos à frente da companhia, do jogo de cintura de quem conhece o mercado e da experiência de quem domina a estrutura da empresa, de cima a baixo. Rubens é ao mesmo tempo o grande estrategista e o operador dos novos negócios de seu conglomerado.

Dono de uma personalidade extremamente afável, de hábitos simples, Rubens é carismático e querido pelas pessoas que o cercam. É também austero e obcecadamente disciplinado. Graças a isso, desenvolveu estilo próprio de liderar e empreender. Na última década, criou praticamente um novo negócio a cada dois anos, depois, claro, do esplendor da MRV. Primeiro, foi o banco Intermedium, no final de 1994. Com patrimônio líquido superior a 320 milhões de reais, o Intermedium já é considerado uma instituição financeira de referência quando o assunto é crédito imobiliário, cuja carteira cresceu espetaculares 75% nos últimos 12 meses. Depois, veio a Log Commercial Properties, empresa que constrói e aluga galpões comerciais de grande porte. Com apenas seis anos de vida, a Log já é a segunda maior do ramo (galpões logísticos) no Brasil. Cresceu mais de 50% no primeiro semestre deste ano, em relação a igual período de 2014. Possui 1,3 milhão de metros quadrados de área locada ou para locação futura, em 25 cidades, de nove estados brasileiros. Apesar da idade, a Log já se tornou uma espécie de joia da coroa do portfólio da MRV.

Em 2012, criou a Urbamais, empresa voltada para grandes loteamentos para as classes B e C. Já atua em SP, RJ, MG e no Nordeste. Somados, os valores de venda dos terrenos da Urbamais valem perto de 2 bilhões de reais. No mesmo ano, Menin fundou a AHS Development Group, nos Estados Unidos. Ele estava de olho num mercado que não para de crescer. "Depois da crise de 2008, apenas 58% dos americanos têm casa própria", diz Menin. "O resto vive de aluguel." A empresa constrói condomínios residenciais na Flórida (EUA) exclusivamente para locação. Até o final de 2016, a AHS terá mais de 2 mil apartamentos prontos, quando passará a explorar os mercados do Texas e da Geórgia. Log e Urbamais são controladas pela MRV. Já a AHS e o Intermedium pertencem à família Menin.

Samuel Gê/Encontro
Rafael Menin, 34 anos, copresidente da MRV, em obra da empresa, em Contagem: "Rubens acompanha 100% de tudo" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Mais recentemente, ele se tornou também investidor da rede de lojas mineira de material de construção  ABC da Construção, com 47 lojas, ao comprar 17% das ações. Com o aporte, a empresa já tem planos para expandir rumo a SP, RJ e ES. "Sou um construtor, nada me dá mais prazer do que ver um negócio ir para frente" diz.

Não bastasse tudo isso, Menin ainda liderou a criação da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), entidade que reúne as 26 maiores empresas do setor no Brasil, cuja presidência é ocupada por ele. A atividade o tem levado a viagens frequentes para Brasília e São Paulo, onde conversa com governadores, senadores e presidentes. Recentemente, esteve com Dilma Rousseff e com Lula. Na pauta, invariavelmente, a crise política.

A fórmula de Rubens é aparentemente simples. Mas só aparentemente. Na virada do ano, ele se impõe metas que persegue de forma determinada. Algumas pessoais, outras profissionais. Está sempre prospectando oportunidades. Quando vê que elas estão maduras, viram metas. Daí, ele busca um nome de absoluta confiança, de preferência, acostumado ao estilo Menin de ser, e o convida para tocar o negócio. Um a dois anos costuma ser o tempo necessário para o empreendimento tomar corpo e ficar do jeito que Menin gosta. É hora de começar o novo. Surgem novas metas.

Rubens não obedece a manuais de administração. Prefere levar em conta seu sentimento e suas convicções. Está rodeado pelos filhos, alguns sobrinhos e muitos amigos (inclusive, amigos dos filhos, que ele conhece desde os tempos da infância dos meninos). "Essa teoria de afastar a família dos negócios é uma grande bobagem", diz. Na casa dele, a lição foi passada desde cedo. Com 18 anos, todos os seus três herdeiros já atuavam em alguma área da companhia. "As pessoas gostam daquilo que conhecem", afirma. "Eu queria meus filhos gostando da empresa." Rafael Menin, o do meio, 34 anos, é hoje presidente da MRV, em cogestão com o primo Eduardo Fischer, 42 anos. A primogênita, Maria Fernanda, 36 anos, é advogada e vice-presidente jurídica da companhia. O caçula, João Vitor, 33 anos, dirige o banco Intermedium.

Gláucia Rodrigues/Encontro
Rodrigo Resende, diretor de marketing e vendas, 34 anos: jovem executivo que entrou na empresa com 22 anos, indicado por um dos filhos de Menin (foto: Gláucia Rodrigues/Encontro)
Menin não descarta colaboradores experientes, está sempre rodeado dos chamados "cabelos brancos". Mas quem o conhece sabe que ele adora apostar na fúria do jovem empreendedor. Acredita que as grandes inovações e a ruptura com ideias vencidas surgem desse time. Ele aponta inúmeras mudanças promovidas pela dupla de presidentes da MRV (Rafael Menin e Eduardo Fischer) desde que assumiram o bastão, há pouco mais de um ano. "Há exemplos de sobra em todos os departamentos da empresa, como no financeiro", diz. "Os dois são muito bem preparados. Mais do que eu." Fato é que o desempenho da MRV nos últimos 12 meses é de assustar. Só no segundo trimestre de 2015, o lucro foi 50% maior que o do primeiro trimestre deste mesmo ano. Não só as vendas, mas também as unidades em construção não param de crescer. "O Rubens tem incrível capacidade de identificar talentos", diz o empresário Alex Veiga, dono da construtora Patrimar e sócio de Menin em alguns empreendimentos. Entre os executivos da MRV, há vários na casa dos 30 anos, como Rodrigo Resende, 34 anos, diretor de marketing e vendas. "Ele tem ideias absolutamente inovadoras", diz Resende. Na área de marketing, por exemplo, foi de Rubens a sugestão para que a MRV investisse forte nas vendas on-line, ainda nos anos 2000, e nas chamadas mídias sociais para se comunicar com clientes. A internet, hoje, responde por 40% das vendas.

A história de Rodrigo Resende é também ilustrativa do perfil do empresário. Resende é oriundo do "grupo dos 40". Nome dado ao desafio que Menin impôs aos três filhos quando estes ingressaram na empresa: tinham de indicar 40 amigos do colégio ou da faculdade para trabalharem com eles na MRV. "Ele queria nomes com talento e de nossa confiança", lembra Maria Fernanda. Os meninos cumpriram a meta. Surgiram nomes que hoje figuram no primeiro escalão da MRV, como Rafael Pires, diretor no Nordeste; Ricardo Paixão, diretor de relações com investidores (ambos colegas de faculdade de Rafael Menin); além do próprio Rodrigo Resende, que estudou no colégio Loyola com João Vitor Menin. "Meu pai sempre procurou ter os amigos próximos", diz a filha, cuja melhor amiga de infância, Juliana Lopes, é arquiteta da empresa e também egressa do "grupo dos 40".

A sua maneira, Rubens foi criando vínculos dos filhos com seu negócio. A MRV, assim como suas outras empresas, tornou-se uma grande família. Apesar do jeito amigo, Rubens sempre foi extremamente rigoroso. Seja com funcionários, seja com seus filhos, seja consigo mesmo. Em 2013, quando o ponteiro da balança bateu nos 120 quilos, ele se assustou. Decidiu emagrecer e fez disso uma de suas metas pessoais na virada do ano. Alguns meses depois, já pesava 15 quilos a menos. Manteve a medida, mas não sem esforço. Por recomendação da nutróloga Ana Cláudia Cançado, riscou do cardápio quase tudo que um bom descendente de italiano - como ele - gosta: pizza e massa. O pior, contudo, estava por vir. Era preciso cortar de vez a cerveja, uma de suas bebidas prediletas. "Eu adoro uma cervejinha, mas, desde então, nunca mais tomei nenhum copo", diz ele. "Comigo é assim, tudo ou nada".

Pedro Nicoli/Encontro
Turma do tênis: encontros frequentes e amizade de muitos anos. Da esq. para a dir., Anuar Donato, Alexandre Vilela, Rubens Menin, Flávio Franco e Marco Túlio Guimarães. "Somos uma grande panelinha", diz Vilela (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Durante a semana, segue dieta balanceada. Segunda-feira tem sopinha de legumes no jantar. De terça a quinta-feira, salada com grelhado. Entre as refeições, pequenos lanches. O relógio apontava para as 4h da tarde quando dona Antônia, que há 21 anos trabalha na MRV, adentra pela porta. "Tá na hora do meu lanche!", diz. "Aceita uma frutinha?", pergunta ele. Dona Antônia lhe entrega uma tigela pequena com pedaços de melão. Havia no máximo três fatias cortadas. Ele espeta o garfo na própria tigela e come a fruta sem pressa. No dia seguinte, enquanto conversávamos no mesmo horário, o mesmo ritual. A diferença foi que, dessa vez, dona Antônia lhe trouxe uma vitamina pastosa. "Ele gosta de uma mistura de água de coco, banana e aquele pó ‘uei, uei’… como se fala mesmo?", indaga Antônia. "É whey protein (suplemento proteico à base de soro de leite)"?, perguntamos para ela. "Isso mesmo", responde. Há 22 anos o empresário faz check-up com o cardiologista Samuel Vianney. "É um paciente excelente, não dá trabalho", afirma o médico. "Ele gosta da vida e tem projetos a longo prazo, por isso sabe se cuidar." Rubens adora falar sobre medicina, profissão que quase o seduziu quando jovem. Tem fama de ser hipocondríaco e, coincidência ou não, seu único genro e as duas noras são todos médicos. Faz musculação duas vezes por semana na academia do prédio onde mora, no Belvedere, orientado pelo personal trainer Rodrigo Dias. Nos fins de semana, joga tênis. A alimentação espartana é interrompida das 18h de sexta às 18h de domingo, quando Rubens esquece as calorias e se permite bons jantares, regados a bons vinhos. "É uma recompensa pelo sacrifício", diz ele, um apreciador de comida mineira. "Adoro arroz, tutu e couve por cima; de sobremesa, goiabada."

A cultura corporativa de suas empresas não é diferente. Nem poderia. Metas individuais atreladas a bônus generosos constituem parte da personalidade da MRV e das demais companhias que têm no sangue o nome Menin. "Meu pai tem perfil pessoal e profissional muito parecidos", afirma o filho João Vitor. Dessa maneira, Rubens vem construindo um exército de funcionários que pensam como donos. Não importa se o negócio é construção, banco, loteamento ou galpão logístico. A filosofia dos discípulos de Rubens é a mesma. Isso inclui duas outras marcas: o "hábito de gastar sola de sapato" e o estilo "mão na massa". Nada de acompanhar a distância. "Nesta empresa é preciso sujar a mão de cimento", diz o empresário. "O Rubens acompanha 100% de tudo", diz o filho Rafael. Entre os executivos, a fama de Rubens Menin é a de ser um líder exigente, mas com grande habilidade. "Ele pega na mão, mostra o caminho, delega e cobra muito", diz Eduardo Fischer.

Duas vezes por semana, Menin acorda antes do sol e embarca em seu jato executivo para vistoriar obras. Tem de viajar muito. A MRV está presente em 133 cidades de 19 estados, mais o Distrito Federal. "Quer me ver feliz, me mande para as regionais", diz. Chamado de Rubão pelos amigos, viveu durante a infância e adolescência no bairro Santa Efigênia, região Leste de BH. Seguiu a profissão dos pais. Sua mãe, Maura, foi a terceira mulher formada em engenharia em Minas Gerais. O pai, Geraldo, deu o primeiro empurrão ao futuro construtor. Com a ajuda financeira paterna, resolveu investir na construção de 10 moradias de baixo custo. Dois anos depois, em 1979, fundou a MRV, em sociedade com o primo Mário (o "M") e a Vega Engenharia, o "V" (o "R" é de Rubens). Atualmente, tanto Mário quanto a Vega não mais integram a sociedade.

Samuel Gê/Reprodução
Rubens Menin com o pai, Geraldo, a mãe, Maura, ambos engenheiros, e a mulher, Beatriz, em foto de 1998: inspiração e apoio na família para seguir carreira (foto: Samuel Gê/Reprodução)
A maior herança que Rubens recebeu dos pais, diz ele, foram os exemplos de ética, força de trabalho e conceito familiar. De fato, são três características presentes na trajetória do empresário. No campo da ética, suas empresas nunca estiveram envolvidas em qualquer escândalo de corrupção e ele sempre demonstrou zelo pelas questões morais. São duas as palavras da vez nas conversas de Rubens: "filantropia" e "capital cívico", definido como as ações que estimulam a cooperação entre as pessoas. Sua secretária, Vanessa (há 22 anos na empresa), guarda na gaveta um monte de cópias do artigo "Corrupção e Capital Cívico", de André Lara Resende, publicado em julho deste ano. Ele pega o telefone: "Vanessa, por favor, traz aquele artigo". Logo entra ela com cópias para todos.

Há alguns anos, os olhos de Menin voltaram-se para os Estados Unidos, onde tem casa. Ele admira o jeito americano de fazer negócios e, mais recentemente, a cultura filantrópica daquele país. "Lá, isso é muito forte", diz. "Aqui também deveria ser". Rubens faz parte das estatísticas dos empresários brasileiros que investem sistematicamente dinheiro do próprio bolso em causas sociais. Dedica também tempo e influência à filantropia. A MRV acaba de inaugurar um instituto, onde quer aplicar os princípios do negócio (foco e metas) para obter escala nas iniciativas sociais (ver box).

Caçula de uma família de quatro filhos, Rubens Menin é, segundo ele próprio, um homem de sorte. "Isso é uma das coisas mais importantes do mundo. Não estou falando de superstição. Sorte é ciência exata", afirma o engenheiro.  "O sucesso é consequência de três fatores: talento, transpiração e sorte. Para cada Bill Gates, existem outros duzentos profissionais brilhantes, mas que não tiveram a mesma chance." Rubens Menin é, de acordo com os amigos, um exemplo de trabalho. Quando montou a MRV, dirigia um Fusquinha branco. Diz a lenda que era o carro mais rodado de BH. "Ele percorria a cidade inteira, visitando obras e procurando terrenos", lembra o empresário Alexandre Vilela, amigo de infância. "O Rubens conhecia todos os atalhos e sempre teve muita pressa para resolver tudo no menor tempo." Logo que se formou, Vilela montou uma empresa de engenharia. A firma cresceu e depois foi comprada (60%) pela MRV. "Ele tem uma capacidade de trabalho que é rara de se ver", diz outro velho amigo, o construtor Alex Veiga, da Patrimar.

Cláudio Cunha/Encontro
Alex Veiga, dono da construtora Patrimar: "Ele é um aglutinador de pessoas de bem" (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
A agenda de compromissos de Rubens revela sua dedicação à família. "Ele cuida de quem gosta", afirma a filha, Maria Fernanda. "É um exemplo de fidelidade." Às terças-feiras, não abre mão de jantar em casa na companhia dos filhos, genro e noras. "A gente conversa, filosofa, troca ideias", diz Menin. "Minha mãe fazia isso e eu quis continuar." Às segundas-feiras, almoça sempre com o filho Rafael. Às quintas, costuma sair do escritório e ir para o apartamento de Maria Fernanda, com quem joga baralho. Os fins de semana são com todos reunidos na casa de campo, em Nova Lima, construída exclusivamente para esse fim. A casa funciona como uma pousada. São oito confortáveis suítes para atender filhos e netos. Foi num desses encontros que Rubens ensinou a neta Maria Beatriz, de 7 anos, a ler as primeiras sílabas. Os dois adoram brincar de forca. Com João Pedro, de 8 anos, o negócio é contar as moedas que o avô junta durante toda a semana. Rubens é do tipo que se abaixa para pegar uma moeda de cinco centavos quando cai ao chão. "Faço questão que meus netos saibam o valor do dinheiro, desde pequenos", afirma. "Na minha época, era diferente. Lá em casa, todas as bicicletas vieram dos tios. Não consigo desperdiçar nada." Há um caso na história familiar que é um clássico. Na primeira vez que Rubens levou os filhos para Disney, em 1989, foi acompanhado de um casal de amigos com duas crianças. Ao chegar lá, o casal comprou um copo de refrigerante para cada filho. Já Menin comprou apenas um copo e mais três canudos. "Até hoje me chamam de pão-duro por conta disso", diz.

Os métodos de Rubens promover economia em família, atualmente, se modernizaram. Ele, a mulher e os filhos mantêm no WhatsApp um grupo intitulado "Tesoura", por onde compartilham ideias de como reduzir despesas na casa de cada um. Nesse grupo, nada de mensagens genéricas, apenas assuntos de economia doméstica. "Sei que meus filhos são menos austeros do que eu; e que meus netos serão menos ainda", afirma. "Mas isso não me incomoda. Faz parte da vida." Rubens também sabe desfrutar os prazeres que o dinheiro traz. Sempre a seu estilo: discretamente, sem algazarra ou fanfarronice. Gosta de se hospedar em bons hotéis quando viaja pelo mundo, sempre ao lado da advogada e artista plástica Beatriz Menin, sua mulher há 38 anos. "Sem demagogia, dinheiro demais atrapalha", diz ele. "É perigoso, pode desvirtuar a cabeça e tirar os pés do chão." Como exemplo de "pé no chão", cita os carros que compra. "Gosto de automóvel seguro", diz. "Esse negócio de ter carro bonito para mostrar para os outros não é comigo. Isso é com tudo na minha vida."

Rubens e Beatriz são um casal surpreendentemente simples. Segundo ela, o companheirismo e a admiração que têm um pelo outro é o que faz com que o casamento seja tão longevo e feliz. "Ele sempre foi precoce em tudo", afirma Beatriz. "Formou-se novo na faculdade, começou a vida muito cedo. Casamos e tivemos filhos cedo." Para manter os que gostam por perto, o casal comprou três andares num prédio para onde vão se mudar, juntamente com os filhos Rafael e João Vitor. Irão morar em frente ao prédio onde vive a filha, Maria Fernanda. "O senso dele de família é muito forte", diz a filha. "Trabalhamos e passamos os fins de semana juntos. Estamos sempre ligados e temos relação de muita qualidade, diferentemente de tantas famílias que têm atritos por conta da convivência."

João Carlos Martins/Encontro
Álvaro Teixeira da Costa, presidente do grupo Diários Associados: "É o exemplo mais formidável de sucesso" (foto: João Carlos Martins/Encontro)
Com os amigos, a história se repete. Ele circula com frequência entre dois grupos, o da confraria do vinho e o da turma do tênis. Com os primeiros, reúne-se uma vez por mês e, ocasionalmente, fazem viagens para o exterior. Neste ano, irão para Piemonte, na Itália, onde degustarão os famosos vinhos Barolos. Nesses passeios, nada de acompanhante. Só o grupo de amigos. Para a turma do esporte, ele organiza um campeonato anual batizado de "Rubão Closed (fechado)". O nome tem várias interpretações. Primeiro, é uma brincadeira para fazer contraponto aos torneios abertos dos profissionais, como o US Open. Segundo, demonstra que é fechado mesmo. Rubens vive rodeado de muitos amigos, mas só entre eles. "Somos uma grande panelinha", brinca um dos membros, o empresário Alexandre Vilela.

Para manter seus amigos ligados entre si, Rubens também investe tempo e dinheiro. A quadra de tênis em que jogam foi construída por ele, num terreno comprado - por ele - só para isso, no bairro São Bento, região Centro-Sul da cidade. "Ele é um aglutinador de pessoas do bem", diz Alex Veiga, da Patrimar.

Frequentador dos estádios de futebol, é torcedor apaixonado pelo Atlético. Quando menino, pegava ônibus para assistir a seu time jogar no estádio do Sete de Setembro, como era chamado o atual Independência. "Estava lá quando o Galo foi bicampeão do Mineiro, em 1963", recorda. Para expressar toda essa paixão, Rubens decidiu doar o terreno de 120 mil metros quadrados no bairro Califórnia, região Noroeste da capital, onde será construído o estádio do Galo. O terreno está avaliado em 60 milhões de reais. Também doou o projeto arquitetônico (mais 1,5 milhão de reais), fora o que já investiu com estudos e taxas (outros 4 milhões de reais). "Todo grande clube precisa ter seu próprio campo, caso contrário, não sobrevive", diz o empresário. "Somos 4,5 milhões de belo-horizontinos e mais de 7 milhões de torcedores. O Galo é importante para muita gente. Este é meu lado Dom Quixote", fala, em referência ao herói sonhador criado pelo escritor Miguel de Cervantes. "Rubens é o exemplo mais formidável de empresário bem-sucedido, em todos os sentidos", afirma Álvaro Teixeira da Costa, presidente do grupo Diários Associados e amigo do construtor há mais de 20 anos.

Gáucia Rodrigues/Encontro
(foto: Gáucia Rodrigues/Encontro)
Às 17h, pontualmente, nossa conversa é interrompida. "Vocês podem me dar licença um minutinho?", pede ele. "Preciso acompanhar o mercado." Ele gira a cadeira, abre a tela de seu computador e vê como fecharam as ações da MRV, na bolsa de valores. Liga para sua assessora, Simone Abdala (trabalham juntos há 30 anos), e pede: "Por favor, traga o fechamento do dia". As ações registraram ligeira queda. Mas isso não o afetou. Para tirar o humor de Rubens Menin, são necessários outros dois fatores. Um deles é quando o Galo perde um jogo, principalmente se foi por culpa do juiz. O outro, quando a internet não responde. Ele pega seu iPad para mostrar, em tempo real, o andamento das obras da AHS, sua empresa nos EUA. O relógio do iPad gira, gira, gira, e nada! Está off-line. Ele pega o telefone, chama a secretária e diz, em tom aborrecido: "O que houve? Estou sem internet!". Rubens Menin tem de estar sempre ligado. Bip, bip! Chega nova mensagem pelo wi-fi. Ufa, a internet voltou. Rubens Menin também. Porque, com ele, é tudo ou nada.

Gláucia Rodrigues/Encontro
Prédio doado pelo empresário para a Cidade dos Meninos São Vicente de Paula, em Ribeirão das Neves: só na última década, ele doou do próprio bolso 12 milhões de reais para a entidade (foto: Gláucia Rodrigues/Encontro)
O empresário filantropo

Rubens Menin começou a se dedicar à filantropia há cerca de 20 anos, ao bancar uma clínica de saúde no bairro Sagrada Família, na região Leste de Belo Horizonte, a pedido do então prefeito da capital, Célio de Castro. A clínica tinha médicos, dentistas e psicólogos e atendia, por dia, 80 crianças oriundas de bairros pobres da cidade. A experiência mexeu com a sensibilidade do construtor. Ele decidiu fazer bem mais. Em 2007, doou um prédio inteiro de 12 apartamentos para a Cidade dos Meninos São Vicente de Paula, em Ribeirão das Neves, entidade criada pelo empresário Jairo Azevedo, do grupo Seculus, outro mecenas da filantropia mineira.

O imóvel, batizado de Residencial MRV, abriga hoje 192 crianças que vivem com 12 mães sociais. Mais recentemente, Menin construiu um segundo prédio, para ser o Centro Infantil da entidade, que atende outras 1.000 crianças. À medida que suas iniciativas ganhavam corpo, Menin entendeu que deveria estabelecer um foco – e priorizou o apoio à criança e o estímulo ao seu desenvolvimento. Só nos últimos 10 anos, o empresário já tirou, do próprio bolso, 12 milhões de reais para a Cidade dos Meninos. O escopo, no entanto, não se limita ao envio de dinheiro ou à construção de imóveis. "O Rubens dá muito mais que isso", diz Jairo Azevedo. "Ele se preocupa verdadeiramente com as crianças, dá ideias, participa."

Menin faz parte de uma nova e crescente safra de empresários brasileiros que dedicam dinheiro, tempo e influência à filantropia. São empresários que decidiram combinar seu perfil empreendedor com as causas sociais. Em vez de buscar alívio para necessidades de curto prazo, almejam mudanças de longa duração. Por esse motivo, a MRV optou por criar, em 2015, seu próprio instituto, dedicado a investir em saúde e educação para crianças. Para garantir longevidade ao Instituto Social MRV, Menin resolveu ir além dos aportes esporádicos que faz do próprio bolso e decidiu doar cerca de 6 milhões de reais por ano à entidade. Com o lançamento do instituto, em julho, Menin assumiu um papel na sociedade diferente daquele de "apenas" construir casas para quem não tem moradia. Ele quer ser protagonista das transformações sociais. "Estou entrando no terceiro terço da minha vida", diz ele. "Quero passar por este mundo e deixar marcas." Rubens Menin também quer desafiar o senso comum. Está empenhado em tentar convencer pares a fazer o mesmo, inspirado no exemplo dos americanos Bill Gates e Warren Buffett, que criaram um instituto (o The Giving Pledge) dedicado a persuadir endinheirados do mundo inteiro a doar parte de suas conquistas. "Quanto mais se tem, mais se deve doar", diz Menin. Ele se refere ao Instituto MRV como se fosse o mais novo "bebê" de seus negócios. De fato, quem conhece o perfil do empresário sabe que suas iniciativas filantrópicas estão apenas na infância, diante do tamanho que poderão ter no futuro. Com o nascimento de seu nono neto, João Vitor Salles Menin, no fim de setembro, Rubens terá agora duas crianças para embalar. E esta é uma história que está só no começo.



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