Popstars dos livros

Elas causam frenesi por onde passam, têm milhares de seguidores nas redes sociais e já se acostumaram a ver seus títulos se esgotarem nas livrarias. Quem são as escritoras mineiras que figuram no topo da lista das preferidas do público jovem

por Marina Dias 17/11/2015 16:37

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Gritos emocionados, lágrimas que escorrem pelo rosto, baderna típica de jovens cheios de energia. Os seguranças tentam organizar, atrás de uma fita, a multidão de adolescentes que vai se aglomerando mais e mais. À medida que a distância entre fãs e ídolo diminui, aumenta o nervosismo. É felicidade que não cabe em si: o momento de tocar naquela figura venerada e até então virtual chegou. O ídolo sorri de forma sincera e tranquila, enquanto oferece um abraço. Mais lágrimas. Elogios, novo abraço, selfie e, finalmente, o tão desejado autógrafo é registrado na primeira página do livro. Isso mesmo que você acabou de ler: do livro.

A cena descrita acima não é fictícia. Pode ser vista em qualquer lançamento recente de livros dos escritores bambambãs para o público jovem pelo mundo e pelo Brasil. Aliás, o público juvenil já é maioria nas bienais mais famosas do país. Visitantes entre 15 e 29 anos somaram 56% do público da Bienal do Rio deste ano, que aconteceu em setembro passado. Na edição anterior, de 2013, já representavam 51%.

O fenômeno em si não é novo. A chamada "geração Harry Potter", ainda no final da década de 1990, foi quem inaugurou o frenesi infantojuvenil com a chamada literatura de entretenimento. Jovens obcecados devoravam na velocidade da luz os volumes da série e criaram fã-clubes dos personagens - e tudo isso foi intensificado pela adaptação das obras para filmes.

De lá para cá, o comportamento tem se ampliado, abrindo também mais portas para autores brasileiros. A belo-horizontina Paula Pimenta, por exemplo, autora das séries Fazendo o Meu Filme e Minha Vida Fora de Série, é a escritora brasileira que mais vendeu livros em 2014 (dividindo o primeiro lugar com Augusto Cury). E deve fechar 2015 com 1 milhão de cópias vendidas de suas obras. Não é pouca coisa. "Se antes a maioria dos adolescentes lia o que a escola mandava, nos últimos anos, a coisa virou. A venda juvenil por impulso é o triplo do que se vende por indicação da escola. Houve uma inversão nesses números", afirma Marcus Teles, sócio da rede de livrarias Leitura. "E os escritores daqui  também viraram popstars. Alguns shoppings proibiram lançamentos de livros juvenis, tamanha a confusão devido ao número de pessoas."

As editoras têm ficado de olho no fenômeno. Segundo estimativa de 2013 da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, existem pelo menos 120 editoras brasileiras que publicam obras infantojuvenis e oferecem cerca de 30 mil títulos em português. Além disso, uma estratégia tem sido criar selos exclusivos (ou quase) para obras voltadas a esse público. No grupo Record, maior conglomerado editorial da América Latina, foi criado o selo Galera, totalmente focado nessa faixa etária - e pelo qual são publicados autores como Meg Cabot e a paulistana Carina Rissi. No selo Gutenberg, do grupo mineiro Autêntica, esse nicho já responde por 70% das vendas.

"É um segmento que só cresce", diz a diretora da Autêntica, Rejane Dias. Mesmo tendo publicado o primeiro Fazendo Meu Filme, em 2008, ela afirma que o "boom" desse nicho foi por volta de 2010, sendo que as bienais dos últimos três anos já estavam totalmente tomadas pelos jovens. "É o que nos salvou da crise neste ano", afirma Rejane.

Nesse nicho, algumas mineiras têm se dado muito bem. Uma das grandes responsáveis por esse retorno citado por Rejane Dias, por exemplo, é a própria a Paula Pimenta. Em 2006, quando terminou de escrever sua primeira obra de ficção, várias editoras não toparam publicá-la, alegando que adolescentes não liam livros grossos (Fazendo Meu Filme 1 tem 320 páginas). Quando a editora Gutenberg aceitou o "manuscrito" e fez o lançamento, no final de 2008, o livro saiu com tiragem de 1 mil exemplares, esgotados em um ano. Paula insistiu no caminho. Depois de muita propaganda boca a boca, marketing da editora, trabalho duro da escritora, um contexto favorável para esse tipo de lançamento, o quarto livro, lançado três anos depois, já teve tiragem de 10 mil exemplares, esgotados em um mês. "Foi quando comecei a perceber a dimensão de tudo aquilo. No lançamento, tive de entrar por trás na livraria no Rio de Janeiro, de tanta gente que havia. Disseram que isso só tinha acontecido quando Fernando Henrique Cardoso tinha ido dar uma palestra lá", conta Paula.

Para o presidente da Academia Mineira de Letras, Olavo Romano, além de esse tipo de livro ter o atrativo de ser escrito conforme o ponto de vista de personagens da idade dos leitores, os autores ainda se valem de recursos midiáticos, o que ajuda na divulgação. "É uma sacada e tanto. Os autores mantêm contato com leitores por meio da internet, então, quando o livro sai, já fez um caminho prévio, de certa maneira", afirma. "É um processo muito inovador, contemporâneo, e representa um novo paradigma para as gerações mais antigas, que não têm domínio, afinidade ou tanto gosto pela coisa ágil e constante, como os jovens", diz Olavo.

De fato, não se pode negligenciar o papel da internet nesse fenômeno. Há os escritores já conhecidos, como Paula, que mantêm a fidelização de leitores alimentando blogs e redes sociais entre um livro e outro; há os influenciadores digitais - que recomendam títulos a seus milhares de seguidores - e, por fim, a visibilidade que a rede dá a potenciais autores por meio de textos postados on-line.

É o caso da mineira de Leopoldina Bruna Vieira, que já era sucesso da internet com o blog Depois dos Quinze, desde 2008, quando, quatro anos depois, foi convidada pela Gutenberg para publicar um livro — cuja primeira tiragem já foi de 10 mil exemplares. "Como todo mundo que escreve, eu tinha o sonho de publicar um livro, e a internet me fez acreditar que isso era possível, já que, antes mesmo da proposta da editora, eu já tinha uma quantidade bacana de leitores", afirma. A blogueira, youtuber e escritora, que se mudou para São Paulo e já se sustenta sozinha por lá, ainda pretende publicar outras obras, mas não quer se afastar da internet. "As pessoas acham que passar horas on-line é desperdício de tempo, mas tudo depende do que você faz quando está on-line. Descobri minha profissão graças às redes sociais e ao meu blog, que antes era um hobby", diz.

Quem também se beneficiou da rede foi Isabela Freitas, autora de Não se Apega, Não e Não se Iluda, Não. Ela conta que a editora Intrínseca a procurou, por e-mail, interessada em assinar dois livros de cara - sendo que ela mesma poderia apresentar os projetos dos livros, com muita liberdade para escolher formato e temas. Faz sentido, afinal, já deviam conhecer bem o estilo despojado da escritora, que foi sucesso no Twitter e, por sugestão de alguns dos 25 mil seguidores da época, criou o blog em que falava de relacionamento, dia a dia e escrevia crônicas. Isabela, que desistiu do curso de direito no oitavo período para se dedicar à escrita, conta que as fãs, conectadas 24 horas por dia, querem saber de tudo: quando virão os próximos livros, como estão seus pais, o namorado... E tudo isso exige trabalho, como posts frequentes no blog, fotos no Instagram, vídeos no YouTube, etc. "Se fico uma semana sem postar foto do meu namorado, já perguntam se eu terminei", diz.

Para Isabela, que vendeu, até agora, 350 mil exemplares só do primeiro livro, suas obras têm feito sucesso não apenas pelo público cativo que já tinha. Ela ressalta a importância da linguagem fácil, no estilo da internet, que coloca nas histórias, para atração de leitores. "É como se fossem amigas conversando", afirma.

Linguagem leve e texto de ritmo ágil são também características dos livros da belo-horizontina Laura Conrado, ganhadora do Prêmio Jovem Brasileiro como destaque na Literatura em 2012. Ela tem feito sucesso com temáticas do dia a dia tratadas de forma honesta e com muito bom humor, especialmente ao retratar situações constrangedoras pelas quais todos passamos na vida. No primeiro livro, Freud, Me Tira Dessa, Laura insere uma dose de psicanálise no gênero que tem sido conhecido como "chick-lit" (literatura de menina) caracterizado pelo bom humor, protagonistas femininas e temas que envolvem desafios contemporâneos das mulheres.

A fórmula tem funcionado. Laura, que usou o "método tradicional" e bateu de porta à porta de editoras à procura de alguma que publicasse seu primeiro livro - "foi um exercício de autoestima", diz -, já está no quinto título, além de ter criado um blog há mais ou menos um ano e meio. Ela conta que sua inspiração são escritoras das décadas de 1970 e 1980, e o que faz é colocar isso em uma embalagem mais comercial. "Tenho consciência de que o que eu faço é literatura de entretenimento. Mas sou segura do meu trabalho, e acho que a qualidade da literatura independe do gênero", afirma, mandando um recado para quem não é fã desse tipo de literatura.

Segundo a professora Graça Paulino, da Faculdade de Educação da UFMG, o fato de pertencer à literatura de entretenimento não invalida a leitura, e pais ou educadores não devem carregar esse preconceito. "Pode-se ler para entreter-se, emocionar-se, para mudar a visão de mundo, para encantar-se com a linguagem. Cada um deve ler o que prefere, e não o que o obrigam a ler. Isso é o mais importante no processo", afirma Graça.

Tentando seguir essa máxima, no colégio Santo Agostinho, os alunos do 7º ano têm a oportunidade de escolher algumas das leituras que farão ao longo do curso - e, segundo a professora de língua portuguesa Fernanda Braga, as autoras mineiras volta e meia aparecem entre as preferidas. Neste ano, também adotaram um livro de crônicas da Paula Pimenta como leitura obrigatória. "Consegui unir o trabalho de gêneros literários com a escolha de uma autora que os alunos iriam curtir", afirma Fernanda. "Eles se identificaram com a linguagem usada, com as situações. E, como eram crônicas, tocavam em assuntos cotidianos menos específicos do dia a dia feminino, ao contrário dos romances", explica. Segundo ela, a ideia foi um sucesso, e os pequenos tiveram também a chance de conversar com a autora sobre o processo da escrita - um dos compromissos mais comuns na agenda dessas escritoras, aliás, é ir a escolas e dar palestras - e de tietar um pouquinho.

Quem é PhD em presença nas escolas é a mineira Stella Maris Rezende, uma das mais conceituadas escritoras brasileiras para o público infantojuvenil. Ganhadora por quatro vezes do prêmio Jabuti e conhecida pelo primor com a linguagem, Stella reconhece o sucesso da literatura de livros de rápido consumo, mas acredita que os jovens, aos poucos, passam a buscar mais. "Muitos deles sentem necessidade de leituras mais condizentes com a complexidade da condição humana, de textos em que a linguagem é saboreada devagar, porque nela existem ingredientes que surpreendem", afirma. "O importante desses sucessos de vendas é que eles estão formando um bom número de leitores."

Autora de dezenas de títulos e com várias obras novas no forno, ela pode ter razão. De qualquer forma, independentemente do gênero, o que importa é que jovens estão lendo livros. E, como disse Machado de Assis, "se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?"

Victor Schwaner/Encontro
(foto: Victor Schwaner/Encontro)


Três perguntas para Meg Cabot

Ela inspirou 10 entre 10 autoras do gênero chick-lit. A mineira Paula Pimenta, por exemplo, cita o livro O Diário da Princesa, obra que catapultou Cabot ao estrelato internacional, como um de seus preferidos e motivo pelo qual quis ser escritora. A americana, que esteve em BH para lançamento do 11º livro da série da princesa, já tem mais de 25 milhões de cópias vendidas no mundo e mais de 1,5 milhão no Brasil. Pouco antes da sessão de autógrafos, que juntou cerca de 200 fãs em uma livraria da capital em outubro passado, Meg conversou com Encontro.

O que mudou desde que lançou o primeiro livro da série O Diário da Princesa, há 15 anos?
Hoje, a interação com os fãs é bem maior, devido ao desenvolvimento das redes sociais. Eu já conversava com eles via e-mail, mas agora tenho contato bem maior. É muito divertido, é uma maneira de autores se conectarem com leitores do mundo todo, saber o que pensam, suas sugestões. Mas também é um novo trabalho, e realmente dá muito trabalho! (Risos)

O que diria para quem acredita que adolescentes não gostam de ler?
Eles amam ler! Quando fui tentar publicar meu livro, alguns editores diziam o mesmo, que jovens não liam livros com muitas páginas. E também havia uma ideia de que as obras deveriam sempre ter lições de moral, só porque eram para jovens. Eu não concordo. Podem até ter, mas acho que ler por diversão também vale.

Por que decidiu lançar o 11º livro, seis anos após a publicação da última sequência?
Neste ano, a série faz 15 anos, então quis comemorar, lançar algo novo. Os fãs pediam muito uma continuação e que a protagonista, que é uma princesa, se casasse – especialmente depois que aconteceu o casamento real entre o príncipe William e Kate Middleton. Eu achava que isso não seria suficiente para sustentar um livro, então, quando pensei em uma trama familiar, que está presente na obra, achei que poderia lançá-la. Este é um livro para jovens adultos, pois a protagonista já está com 26 anos, seus dilemas são outros hoje. E a história acompanha os fãs que começaram a ler há 15 anos. Estou muito feliz!

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