Brincadeira de adulto

Bonecas que parecem crianças de verdade chegam a custar até 8 mil reais. E tem gente que coleciona e cuida como se fossem bebês. A procura é tão grande que encomendas, só para 2016

por Geórgea Choucair 19/11/2015 14:54

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Samuel Gê/Encontro
A administradora de empresas Bia de Souza Sá tem mais de 200 reborn em sua coleção: "Como não tive boneca na infância, quero agora" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Tente descobrir qual é o bebê verdadeiro entre as fofuras das fotos desta matéria. Se você escolheu qualquer um deles, errou! São todos bonecos, feitos de forma artesanal, com minuciosos detalhes. Produzidos com material inquebrável, possuem as mesmas características de um bebê real. A começar pelo peso, manchinhas na pele, expressões, covinhas, microvasos sanguíneos, brotoejas, marcas de nascença, mordidinhas de pernilongos e os cabelos colocados fio a fio, para dar mais autenticidade.

O trabalho manual é riquíssimo e somente bons artesãos conseguem criar esses "guti-guti" tão perfeitos, os reborn babies - ou renascidos. A onda desses bebês começou nos Estados Unidos, atingiu a Europa e Austrália e chegou como febre ao Brasil. Brinquedo, principalmente, de gente grande, essas criaturas têm conquistado variedade grande de pessoas: mulheres sem filhos ou maternais demais, do tipo mãe que quer eternizar os primeiros meses dos filhos. Ou, simplesmente, colecionadores, que chegam a pagar 8 mil reais - ou até mais - por boneca.

As artistas produtoras, conhecidas pelas clientelas como cegonhas, têm trabalhado em ritmo acelerado para atender à demanda. E não conseguem. Para ter uma reborn, é preciso pegar senha, entrar na fila e esperar pelo menos três meses. No caso das mais raras, essa fila pode chegar a um ano.

Lorena Barsand, de 27 anos, é publicitária e fanática por reborn babies. E apresenta a "prole":  Pedro, Layla, Miguel e Flora.  Lorena tem, na verdade, sete bebês reborn. A publicitária é caprichosa tanto na escolha dos nomes como das roupas. "Não visto qualquer coisa neles. E não gosto de colocar a roupa de um em outro", diz. No seu quarto, tem um berço reservado para os bonecos, assim como um espaço considerável do guarda-roupa.

Samuel Gê/Encontro
A publicitária Lorena Barsand paga caro também em roupas para cada um: "Sonho ser mãe. Talvez isso explique a paixão pelas reborns" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Lorena não tem filhos, embora seja um sonho. "Talvez isso explique a paixão pelas reborns", afirma. A coleção já rendeu grandes amizades. Ela chegou a viajar para o Rio de Janeiro com alguns dos seus bebês para encontros com outras "mães-reborneiras". Não é preciso nem dizer qual era o assunto preferido. "Sou estudiosa dos cuidados com as reborns e quero estar antenada com todos os lançamentos", diz. Ela também troca informações com outras colecionadoras pelas redes sociais.

O frisson causado pelos bebês leva as "cegonhas" a produzirem dia e noite. Em Contagem, a artista plástica Ana Paula Guimarães, de 29 anos, deixou a área financeira de uma multinacional para dedicar-se ao artesanato, principalmente à produção de bonecas. "Não é brinquedo, é uma peça de arte para colecionador", diz Ana Paula. Ela conta que alguns clientes chegam a comprar até duas bonecas por mês. Com mais de 15 clientes na fila de espera, só aceita encomendas para 2016. A produção é frenética: das 8h às 21h. Para ajudar no atendimento, ela conta com a ajuda da mãe, Maria Lúcia, e do irmão, Victor Hugo. "Não estamos dando conta das encomendas", diz. Victor, que era projetista em multinacional, também deixou o emprego em função das reborns.

As bonecas produzidas por Ana Paula já foram parar na Espanha, Austrália, Estados Unidos, México, Itália e Alemanha. Os bebês são feitos a partir de moldes importados de vinil ou silicone, em que são aplicadas camadas de tintas especiais para chegar à tonalidade da pele humana. Uma arte que exige dias de dedicação e paciência. Os cabelos são implantados com pelo de ovelha, cabra ou lhama. "As pessoas ficam encantadas com a perfeição dos detalhes", diz  Ana Paula.

Victor Schwaner/Encontro
Chamada pelos clientes de "cegonha", a artista plástica Cássia Robini Pimenta faz réplicas de bebês de verdade; "Pegamos um molde parecido com a criança e aplicamos as características" (foto: Victor Schwaner/Encontro)
Quanto mais próxima do real, mais disputada e cara. O valor depende dos detalhes, do acabamento. Elas não custam menos de 1 mil reais, mas há modelos que superam 8 mil reais. Comprada geralmente pela internet, na maioria das vezes, é vendida acompanhada de enxoval: fralda, manta, chupeta, pulserinha de maternidade, brinquedinho, borrifador para os cabelos.

Antes de fazer as encomendas, as clientes fazem descrição detalhada das características que querem no bebê: podem ser loiras, negras, asiáticas, com síndrome de Down. As idades também variam e podem chegar até a 7 anos. Há a opção ainda de fazer bonecas personalizadas, com réplicas de crianças reais. "É um bebê por aproximação. Pegamos um molde parecido com a criança e aplicamos a característica", explica a artista Cássia Robini Pimenta, de Belo Horizonte.

Foi o que fez a administradora de empresas Bia de Souza Sá,  de 41 anos. Ela tem em casa duas réplicas do filho Glayson Júnior,  que hoje tem 12  anos. Uma réplica foi feita tendo como referência fotos de Glayson com 20 dias de nascido e outra tentou reproduzir o garoto com 1 ano de idade.  Mas os dois não são os únicos "bebês" de Bia. Em sua casa no bairro Jardim Riacho das Pedras, em Contagem, ela coleciona mais de 200 bonecos, todos acomodados em um único quarto. Detalhe: ela já encomendou outros 26, entre eles, a réplica do príncipe George, filho do príncipe William e de Kate Middleton.

Gláucia Rodrigues/Encontro
Ana Paula Guimarães deixou emprego em multinacional para dedicar-se à produção dos bonecos: "Não é brinquedo, é uma peça de arte para colecionador" (foto: Gláucia Rodrigues/Encontro)
Separada e mãe de dois filhos -  além de Glayson, de Danielle Camila, de 21  anos -, Bia justifica o investimento de tempo, dinheiro e energia nas bonecas em função da sua história do passado. "Queria muito ter uma boneca na infância, mas minha mãe não tinha condições", explica. "Como não tive na infância, quero agora." A coleção começou a ser formada há cinco anos e ela chegou a comprar cinco bêbes em uma única semana.  Agora, são mais de 200 mil reais investidos na coleção, que ela jura não vender por nenhuma oferta.

Ainda não há estudos sobre os efeitos que um reborn pode causar em uma mulher adulta. Mas a psicóloga Marisa Sanabria ressalta que as mulheres costumam colecionar objetos como caixinhas de músicas, panos de bordados e até bonecas que remetem à atitude feminina de conservar, guardar e resguardar. "Isso pode representar a necessidade de resgatar desejos ou mesmo frustrações e impossibilidades da pessoa", explica ela.

O assunto, certamente, dá margem a controversias, mas o que ninguém pode negar é que os bonecos, de fato, parecem bebês de verdade. E dá mesmo vontade de cuidar.

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