Superação a cada passo

Ela teve a perna amputada aos 21 anos, após ter sido atropelada, mas não perdeu a alegria de viver. Usando uma prótese, retomou a faculdade, pratica esportes e estourou nas redes sociais. Apenas um ano após a tragédia, planeja contar sua história em livro e fundar uma ONG de apoio a amputados

por Guilherme Torres 09/12/2015 14:01

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Pedro Nicoli/Encontro
"Os amputados têm limitações, mas quero mostrar que a vida pode ser muito legal e que podemos fazer tudo o que quisermos", diz Paola Antonini (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Com um sorriso no rosto que não cessa e usando um vestidinho curto que evidencia a prótese na perna esquerda, Paola Antonini desce sozinha os dois lances de escada do apartamento da família para receber a reportagem de Encontro. "Ainda não estou 100%, mas bem perto", diz. Apesar de não atormentarem mais a garota, as cenas da madrugada trágica do dia 27 de dezembro de 2014 continuam vivas na memória.

Na data, momentos antes de pegar a estrada para curtir o réveillon em Búzios com o namorado, foi atingida em cheio pelo carro conduzido por Diandra Morais de Melo, que admitiu ter ingerido bebida alcoólica. Ela guardava a última bolsa no porta-malas do veículo parado na porta de casa, na avenida Raja Gabaglia. "Fiquei acordada e me lembro de tudo, da dor, do desespero das pessoas, mas passou e estou muito feliz", diz. "Também nunca me perguntei por que isso aconteceu comigo."

Arquivo pessoal
Com o namorado, Arthur Magalhães, voando de Parasail no Rio de Janeiro: "Ficamos preocupados em como ela reagiria à amputação. Acabou surpreendendo e, na verdade, foi quem colocou todo mundo para cima", diz Arthur (foto: Arquivo pessoal)
Com o membro dilacerado, Paola foi operada às pressas no hospital João XXIII. Foram 14 horas de cirurgia para tentar reverter a amputação, sem sucesso. Com apenas 21 anos, ela perdeu parte da perna, na altura da tíbia. Semanas depois, quando já se adaptava com a nova realidade, outra operação precisou ser feita para subir o corte e remover o joelho. Foi aí que a menina forte baqueou pela primeira (e única) vez. "Fiquei mal, mas pensei: estou viva e é isso o que importa. E são tantas as pessoas que conheci e tantas as palavras bonitas que escuto, que não sobra espaço para tristeza", afirma Paola. O pai, o engenheiro Antônio Tadeu França Costa, questiona: "Será que isso tinha de acontecer para ela ajudar outras pessoas? Eu não conhecia esse lado dela, essa força sem tamanho". Passados alguns dias do acidente, Paola ainda disse ao pai que preferia ela própria passar por essa fatalidade do que outra pessoa da casa. Justificou que seria muito mais triste o acidente acometer seu irmão mais novo, Cristiano, de 13 anos, um pré-adolescente; ou o do meio, Antônio Tadeu, de 19 anos, um apaixonado por esportes e que adora jogar tênis e futebol. Com a mãe, o pilar da casa, nem pensar, e sem chances com o pai, "pesado demais" para ser carregado para todos os lados. "Ela é um ser espiritualizado", diz ele.

Com tanto pensamento positivo e amparada pela legião de admiradores que foi conquistando por sua postura, de lá para cá, a vida da estudante deu uma guinada. Linda e com alguns trabalhos de modelo no currículo, sua história sensibilizou, alastrou-se com rapidez pelo país e trouxe a popularidade nas redes sociais, transformando-a em referência de superação e autoestima. E, principalmente, um exemplo de força para os amputados. Só no Instagram, rede social de compartilhamento de fotos e vídeos, ela ganhou quase 200 mil seguidores depois do acidente. Com o número expressivo, dignos de uma it-girl, Paola agora usa a fama para mostrar que sua vida e de muitos deficientes físicos pode ser normal. E mais: recheada de aventura e boas surpresas.

Geraldo Goulart/Encontro
A postura da estudante surpreendeu até mesmo os pais, Tadeu Costa e Diva Antonini: "Eu não conhecia esse lado dela, essa força sem tamanho", diz Tadeu (foto: Geraldo Goulart/Encontro)
Paola gosta de se superar. Depois de pedir para entrar novamente no mar, algo que deveria ser feito com cautela, devido ao pouco tempo de cirurgia, ela decidiu encarar as aulas de dança, um exercício de paciência e equilíbrio para quem está reaprendendo a andar. Mesmo um pouco fora do compasso, o desafio, com treino em grupo e individual, ajuda na autonomia do corpo. "Eu não tinha nenhuma habilidade e talento nem mesmo antes do acidente, mas decidi fazer a aula. Há movimentos que não consigo fazer, mas no geral fico superanimada", diz ela. Agora, está apaixonada pelo skate, outra modalidade que também nunca havia praticado. "Fico em pé nele mais fácil hoje do que quando tinha a perna. Não será rápido para aprender, mas vou tentar de tudo. Quero criar desafios."

Quem está sempre por perto apoiando as novas peripécias de Paola é Arthur Magalhães, de 22 anos, com quem começou a namorar duas semanas antes do acidente. "Ela tenta se superar o tempo inteiro, mas no começo, como sempre foi muito vaidosa, ficamos preocupados de como reagiria à amputação. Acabou surpreendendo e, na verdade, foi quem colocou todo mundo para cima. E eu fiquei sempre por perto, para quando ela precisasse da minha força, mas estou aqui esperando até hoje", diz  Arthur, achando graça. O último desafio, em outubro, foi de dar frio na barriga. Também ao lado do namorado, ela experimentou o Parasail, esporte que consiste num voo sentado de paraquedas, preso em uma lancha, que pode chegar a 80 metros de altura. "De fato, os amputados têm limitações, mas quero mostrar que a vida pode ser muito legal, muito divertida e que podemos fazer tudo o que realmente quisermos", diz Paola.

Geraldo Goulart/Encontro
Com os novos colegas do curso de jornalismo, na PUC Minas: "Meu sonho é ser apresentadora", diz Paola (foto: Geraldo Goulart/Encontro)
Com tantas histórias de superação para contar e mostrar, ela lançou seu canal no YouTube. Em formato de diário virtual, mostra seu dia a dia e o que tem aprendido depois do acidente. Já são quase 20 mil inscritos e muitos curiosos para saber mais sobre a loirinha que não para de sorrir. "Claro que tem dias que eu fico nervosa, estressada, mas nunca em relação à prótese, pois isso jamais me incomodou ou me chateou", afirma.  As perguntas são tantas que Paola até produziu um vídeo em que conta 50 fatos sobre ela e, mais recente, outro em que responde a diversas perguntas de internautas. "A ideia era de me aproximar mais das pessoas e mostrar minhas dificuldades, erros e as coisas engraçadas que acontecem comigo", explica ela, que divide seu tempo entre ir às sessões de fisioterapia, ao psicólogo e à academia.

Com a superexposição, os convites para participar de eventos ou fazer parcerias comerciais não param de chegar. Um deles, que ela considera a maior emoção até aqui, foi para participar do desfile beneficente anual da ONG Proação, ocorrido em agosto. O evento, realizado há 10 anos, é famoso por reunir marcas de renome da capital e celebridades na passarela. Dessa vez, porém, não teve para ninguém: quando Paola deu os primeiros passos no palco do Palácio das Artes, o público de quase 2 mil pessoas ficou de pé para aplaudi-la. Poucos sabiam, mas naquela noite era a estreia da garota na passarela, que devido à estatura mediana só havia feito até ali trabalhos como modelo fotográfica. E, para completar o desafio, decidiu usar um discreto, mas temido, saltinho, que exigiu mais de um mês de treino. "Eu não conhecia a Paola, mas o acidente me chocou demais, tenho uma filha e também me coloquei no lugar daquela mãe", diz a diretora social da ONG, Márcia Prudente. "Fiquei com aquela imagem na cabeça e meses depois tive a ideia de chamá-la para o desfile. Ela achou o máximo e topou. A Paola tem uma alegria que impressiona e digo que agora ela tem cadeira cativa no desfile, será nossa garota-propaganda."

Pedro Nicoli/Encontro
O médico Fabrício Daniel de Lima, responsável pela nova perna: "Ela chegou aqui muito determinada e no primeiro dia com a prótese já começou a andar sozinha" (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
No mesmo mês, Paola também retomou outra meta temporariamente interrompida pelo acidente, a faculdade de jornalismo. Recém-aprovada no vestibular, no início do ano ela tentou, por duas vezes, frequentar as aulas, porém, ainda sem prótese e com dificuldades para se locomover, acabou trancando a matrícula. "As pessoas são muito atenciosas comigo e estou amando essa independência. Ando para todo lado, subo e desço os morros sozinha", conta ela, que sonha ser apresentadora. Por enquanto, a mãe a leva todos os dias à PUC Minas, mas o próximo passo é voltar a dirigir. "Com essa mudança no corpo, minha carteira foi anulada e agora tenho de fazer outro exame, mas em breve quero estar dirigindo e mais independente", afirma Paola.

Ela também foi convidada pela cantora e amiga Manu Gavassi, musa teen que tem mais de 10 milhões de seguidores nas redes sociais, para estar em seu novo clipe, Camiseta, lançado em meados de novembro. No mesmo mês, participou também do programa Encontro com Fátima Bernades. Quem filtra e acompanha todos os convites que a garota recebe é a mãe, Diva Antonini. "Minha vida ficou um pouco mais tumultuada. Tenho uma loja, três filhos, marido, a casa para cuidar, mas adoro participar desses momentos. Agora, eu não sou mais a Diva, sou a ‘mãe da Paola’. As pessoas me param em vários lugares e perguntam: ‘É você a mãe da Paola?’", diz Diva.

Arquivo pessoal
Paola com Fátima Bernardes e a mãe, Diva, nos bastidores do programa global, onde foi entrevistada, em novembro (foto: Arquivo pessoal)
Além do carisma, outro ponto chama a atenção das pessoas: raramente ela não deixa a prótese à mostra e dispensou a cobertura de espuma e meia- calça que simula o formato e cor semelhantes ao da outra perna. A peça, que pesa 2,2 quilos, tem joelho biônico e  custou cerca de 130 mil reais (valor custeado pela família, assim como todas as despesas extras após o acidente), está sempre em evidência em shorts curtos, minissaias ou vestidos. "É algo que agora faz parte de mim, do meu corpo, e a forma mais natural de contar isso é deixando à vista", diz Paola. O fisioterapeuta e protesista Fabrício Daniel de Lima, responsável pela nova perna, conta que a postura de Paola destoa de tudo que já viu em quase 15 anos de profissão e 3 mil casos atendidos. "Ela chegou aqui muito determinada e no primeiro dia com a prótese já começou a andar sozinha", diz Fabrício. "Não adianta nada a perna ser computadorizada e inteligente se a Paola não tivesse a determinação de querer caminhar."

Com processo criminal que o Ministério Público move contra a condutora que causou o acidente e apesar das ações indenizatórias em que a família ainda dará entrada, Paola diz não ter sede de fazer justiça nem quer guardar mágoas. Ela está engajada é em sensibilizar as pessoas que misturam álcool e direção de forma imprudente. Para isso, quer contar sua história em um livro e, futuramente, fundar uma ONG para ajudar crianças e adultos amputados por acidente ou câncer a resgatar a vontade de viver e a autoestima. "Quero falar, principalmente, para as crianças, pois é muito mais difícil elas entenderem por que aquilo está acontecendo. Mostrar que minha vida é superlegal e a delas também será", diz. Apesar da garra e euforia de quem teve a chance de nascer de novo, Paola não tem pressa para tirar os projetos do papel. Nada mais natural para quem precisa agora, com calma, dar um passo de cada vez.

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