Pacificadora do sorriso fácil

A primeira mulher negra a comandar uma secretaria de estado conseguiu, em 2015, fechar acordo histórico com os quase 200 mil professores e garantir o cumprimento de antigas demandas

por Carolina Daher 06/01/2016 16:32

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Leo Araújo/Encontro
A secretária Macaé Evaristo: seu nome foi escolhido pelo pai e significa "céu sem nuvens": "Tomei isso para a minha vida", diz (foto: Leo Araújo/Encontro)

A primeira tempestade da vida de Macaé Evaristo precipitou ainda menina. Aos 10 anos, perdeu o pai para um câncer. Sua mãe, Maria Antônia, viu- -se sozinha com quatro filhas pequenas para criar. Como professora da rede estadual, o salário era apertado. Desânimo, no entanto, nunca entrou na modesta casa dos Evaristos, em São Gonçalo do Pará, no Centro-Oeste mineiro. Se faltava luxo, existiam em abundância livros, rodas de poesia e discussões sobre educação e arte. Na escola pública da pequena cidade, a garota aprendeu a ler, escrever e entendeu que para ensinar é preciso, acima de tudo, paixão pelo ofício. Do baú de recordações, resgata imagens da professora Lourdes Bernadete, "uma mulher à frente do seu tempo", que levava seus alunos para conhecer os escritores nas tardes de autógrafo na vizinha Divinópolis. "Atravessávamos pontes e estradas de terra. Era um grande acontecimento", diz Macaé. "Professoras assim são verdadeiras inspirações, você quer ser como elas."

Aos 18 anos, Macaé deixou o interior para tentar ganhar a vida na capital. Fez concurso. Queria, assim como Maria Antônia e Lourdes, ser professora. Já estabelecida em BH, investiu na carreira. Graduou-se em serviço social e fez mestrado em educação. Na rede municipal, atuou como professora, coordenadora, diretora, gerente e secretária do município. Em 2015, o currículo ganhou novo status.

Aos 50 anos, assumiu a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais. Uma das suas primeiras medidas foi abrir diálogo com os professores, que culminou na assinatura de um acordo histórico com a categoria, garantindo o atendimento de demandas antigas, como o pagamento do piso nacional, reajuste de 31,78% do salário, em dois anos, e aposentadoria de mais de 26 mil servidores. Conseguiu, ainda, a proeza de dobrar para 300 milhões de reais a verba destinada à merenda escolar.  Macaé é a única mulher em um secretariado composto por mais 20 homens, e também a primeira negra a assumir uma secretaria de estado em Minas Gerais.

"As pessoas acham que, conforme ocupamos determinados cargos, o preconceito diminui, mas não é assim", diz ela, responsável pela criação da Campanha AfroConsciência, que luta pelo reconhecimento e valorização da história e da cultura dos africanos na sociedade brasileira. Encarregada de um orçamento de pouco mais de 9 bilhões de reais, ela sabe que precisará fechar a prova de matemática para garantir uma educação melhor para os mais de 2 milhões de alunos da rede estadual. "A verba ainda é pequena, e precisamos usar os recursos da forma mais democrática possível", diz.

Macaé sabe bem o que diz. Viveu na pele as dificuldades daqueles que trabalham em sala de aula. Na década de 1980, quando ainda era professora em uma escola no bairro Tupi, perdeu as contas de quantas vezes pediu aos amigos que trabalhavam em escritórios a doação de folhas de formulário contínuo. Era ali, nas costas das páginas usadas, que ela rodava no mimeógrafo as provas dos estudantes. "Sei exatamente onde o calo aperta. Na educação, fiz a linha de produção completa", afirma.

Seu nome foi escolhido pelo pai. Seu Osvaldo costumava explicar que a palavra macaé significa "céu sem nuvens" em tupi-guarani. "Tomei isso para a minha vida." Para a mulher Macaé, que desde muito cedo aprendeu a se desviar das tempestades, o céu no horizonte é sempre azul. "Sou uma pessoa geneticamente feliz", diz, em gargalhadas, uma de suas marcas registradas.

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