A nova onda zen

É cada vez maior em BH o número de adeptos da meditação individual e em grupo, que buscam melhor qualidade de vida. A prática é recomendada por especialistas

por Marina Dias 19/02/2016 15:47

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Rogério Sol/Encontro
Grupos de BH se reúnem em locais públicos da cidade, como a praça do Papa: atividades abertas a quem se interessar (foto: Rogério Sol/Encontro)
Cansada de considerar estresse e ansiedade parte normal do dia a dia, e procurando viver a vida de forma mais plena – quem não quer? –, a estilista Camila Faria, de 31 anos, finalmente tomou uma decisão que já vinha ensaiando há alguns meses. Sentou-se no chão, de pernas cruzadas, fechou os olhos e, sentindo-se ainda tímida com a situação ("até parece que isso vai funcionar"), começou o exercício: inspira, expira. Inspira, expira. Lembrou-se da orientação de sentir o ar entrando mais frio e saindo quente das narinas, enquanto evita se engajar nos pensamentos que vierem. Inspira, expira. Logo vem à cabeça a importante reunião de trabalho do dia seguinte. "Foco", ela mesma intervém. Inspira, expira. Inspira, expira. Será que vai conseguir fazer isso todo dia? "Falta tempo e disciplina", reflete. Já corta o raciocínio. Inspira, expira. Quanto tempo será que se passou? Dá uma espiada de rabo de olho no relógio: "Só um minuto?".

Já se vão três meses desde os primeiros dias de meditação de Camila, mas não é difícil se lembrar das experiências iniciais. Aliás, para muita gente que já tentou se aventurar pelo caminho da meditação, a primeira vez (e segunda, terceira...) costuma funcionar mais ou menos assim. Afinal, num mundo movido pela velocidade de informação e que exige cada vez mais rapidez de raciocínio, parece até antinatural dedicar-se a acalmar o pensamento, dando um descanso para a mente. Mas é isso mesmo que a meditação, qualquer que seja sua vertente e filosofia, propõe: foco no momento presente, pois é nele que vivemos: não no passado, que já se foi, nem no futuro, que ainda não chegou.

Desde que se iniciou na prática, a estilista já se percebe mais paciente, mais presente, mais inteira, "sem pensar em mil coisas, ao mesmo tempo que estou fazendo outra", explica. E olha que ainda está na fase de meditar por 15 minutos por dia, ou algo próximo disso (nada perto das horas a fio que se costuma imaginar dos gurus). "Ainda estou no começo, mas já percebo mudanças", afirma. Assim como Camila, Belo Horizonte está cheia de iniciantes no mundo da meditação, praticada em casa, em templos budistas, em aulas de ioga, em praças públicas ou em grupos que combinam encontros pelas redes sociais. É difícil hoje não ter um conhecido que medite ou não ter visto alguém se aventurando no mantra "Om" na praça da Liberdade, do Papa ou outros espaços.

Pedro Nicoli/Encontro
"Se passo por uma situação estressante, um dia tumultuado, medito onde eu estiver. Deixa o dia mais leve", diz a empresária Stael Lasmar (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
A tendência foi percebida por Carol Rache, blogueira de BH conhecida pela experiência com ioga e meditação – e a principal incentivadora de Camila, de quem é amiga há 10 anos, em sua iniciação à prática. Além das amigas, as seguidoras da it girl nas redes sociais, onde fala sobre a experiência e conta sobre seus retiros (o último foi na Amazônia, em janeiro), são algumas das novas entusiastas. "Recebo feedback das seguidoras pedindo mais informações e agradecendo pelas dicas. Mesmo porque, meditar é de graça e pode ser feito em qualquer local. É muito democrático", diz. "Muitas delas dizem que a vida mudou depois de começarem a meditar. E realmente muda", afirma.

Que o diga a gerente de financiamento Juliana Ferraz de Abreu, de 29 anos. No final de 2014, ela teve uma crise de ansiedade e síndrome do pânico que a levaram, entre outras coisas, a passar noites em claro. Depois de uma visita ao psiquiatra, começou um tratamento para depressão e passou a tomar medicamento para dormir. Ainda sem conseguir melhorar de vez, e já no ponto de tentar qualquer caminho alternativo, decidiu fazer uma aula experimental de ioga, na qual havia uma sessão de meditação. Gostou tanto que nunca mais largou o curso. Com a prática da meditação, em que ela entoa um mantra e se concentra na respiração, ela controlou a ansiedade, está mais focada e com menos medo de lidar com o dia a dia. Além disso, não precisa mais de remédio para dormir. "Se eu tivesse começado a meditar antes, garanto que eu nunca tinha teria chegado a esse ponto", afirma. "Agora, digo que, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, se meditar o bicho some."

Além da aula três vezes por semana e da meditação diária (duas vezes ao dia) em casa, Juliana já participou da meditação da lua cheia – evento que é promovido por diferentes grupos na cidade e acontece uma vez por mês, no primeiro dia dessa fase lunar. "Acho que a prática deveria ser incentivada não só nos espaços públicos da cidade, em que ela já vem crescendo, mas também em escolas, hospitais e outros ambientes que podem ser estressantes e agitados. Não tem nada igual", diz.

Rogério Sol/Encontro
Juliana Ferraz abandonou os remédios para dormir: "Digo que, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, se meditar o bicho some" (foto: Rogério Sol/Encontro)
Mas por que os praticantes reportam essa sensação de momento presente, de contato consigo mesmo e maior concentração? Apesar de haver muitas vertentes da meditação e propostas variadas, elas costumam ter em comum a orientação para que o praticante se concentre em algo específico, como objeto, respiração e mantra, ou que deixe seus pensamentos surgirem, mas sem se apegar a eles. A ideia é evitar aquela corrente em que um pensamento leva a outro, que leva a outro, e no final já se começa a imaginar o que teria acontecido em situações passadas se as atitudes fossem diferentes e levassem a outro futuro. Em resumo: o intuito é manter-se no presente. "Temos a tendência de aumentar problemas, fazer tempestade em copo d’água e focar mais no que é difícil ou ruim. É preciso perceber esse movimento e não se envolver em energia negativa. E a meditação ajuda no processo", afirma a vice-presidente da Associação Mineira de Yoga (Amyoga), Dinorah Rumin Penha.

Segundo o abade Mokughen, fundador do Templo Zen das Alterosas, a meditação zazen, praticada pelos budistas, quer dizer exatamente "sentar-se concentrado". O intuito da prática, então, seria justamente focar no agora e religar-se a sua natureza interna. "A prática de meditação começou há 2.500 anos. Desde então, tem trazido benefícios para quem se propõe a tentar. E sem contraindicações", afirma.

Além dos benefícios mais subjetivos e difíceis de medir, como a maior facilidade para relativizar problemas, evitar entrar no círculo vicioso da negatividade e aceitar-se melhor, já há efeitos comprovados cientificamente e muitos outros sendo pesquisados no momento. "Pesquisa-se meditação desde a década de 1970, nos mais respeitados centros científicos do mundo, e há efeitos perceptíveis no organismo", diz o psiquiatra Frederico Porto. "É uma prática que desenvolve a meta-atenção, que é uma percepção que normalmente não se tem. Isso reduz a ansiedade, melhora a concentração, o controle emocional e tem sido inclusive indicada como recurso de saúde", afirma.

Pedro Nicoli/Encontro
A blogueira Carol Rache viaja para retiros em todo o país e é uma estimuladora dos iniciantes: "Recebo feedback das seguidoras pedindo mais informações e agradecendo pelas dicas" (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Segundo ele, a aceitação científica que a prática vem ganhando é um dos motivos pelos quais a meditação tem se popularizado cada vez mais. Além disso, sua desvinculação da religião (com práticas como a mindfulness, que não faz parte de nenhuma vertente espiritual) permitiu a adesão de pessoas sem religião ou ligadas a outras crenças. Porto explica que há três formas de abordar a meditação, sendo uma mais ligada à espiritualidade, quando se fala mais sobre compaixão, iluminação; uma relacionada à medicina, que envolve impactos na saúde; e outra ligada à performance, mais voltada à tomada de decisões e controle emocional, muito procurada por executivos e atletas.

Como alguns dos resultados envolvem aspectos positivos até para a produtividade no ambiente de trabalho, já existem empresas incentivando a prática em horário de expediente. O engenheiro de produção Henrique Rocha, de 29 anos, fez um curso de meditação transcendental pago, em parte, pela empresa onde trabalha. Hoje, medita duas vezes por dia, em sessões de 20 minutos – uma delas costuma ser logo antes do almoço, na sala de reuniões. "Na primeira semana, já tive boa disposição, estava menos impaciente e menos estressado", afirma. "E esses efeitos geram ganhos profissionais, como mais facilidade de lidar com clientes e com situações-limite", diz. Outras nove pessoas da empresa estão fazendo o curso no momento: sinal de que tem dado certo.

Os espaços de meditação da cidade também estão em alta. No centro de raja ioga Brahma Kumaris, em BH, as duas turmas de janeiro tiveram mais do dobro de inscrições que o esperado (passaram de 40 alunos por curso). Responsável pela realização do Medita BH – que fez sucesso no ano passado na cidade, com eventos na praça Sete, praça da Savassi, Parque Municipal e praça do Papa, dos quais participaram mais de 5 mil pessoas –, o centro já planeja novas edições em 2016, tanto na capital quanto em outras cidades do estado.

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A estilista Camila Faria começou a meditar há três meses e se sente mais calma: "Ainda estou no começo, mas já percebo mudanças" (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
A empresária Stael Lasmar, de 48 anos, é uma das que fizeram curso de meditação para iniciar-se na prática. Foi orientada quanto ao exercício em si e quanto à teoria. Para ela, um dos melhores efeitos da meditação é a possibilidade de praticá-la em momentos curtos ao longo do dia. "Se passo por uma situação estressante, um dia tumultuado, medito onde eu estiver. Deixa o dia mais leve", diz.

Apesar de ser uma experiência subjetiva, compartilhar com amigos e conhecidos também é uma forma válida de se meditar. A jornalista e hoje coach de meditação Juliana Minardi, de 32 anos, participa de um Círculo de Meditantes que faz encontros quinzenais, muitas vezes, em espaços públicos, como a praça do Papa. Alguns dos encontros são abertos a quem tiver interesse. "Tenho percebido que as pessoas estão bem interessadas no tema. O mundo está muito agitado; os padrões de beleza, de consumo e de trabalho têm ocupado as mentes e ofuscado a visão do que realmente é importante", afirma.

É verdade que não há contraindicação para a prática, mas ela requer disciplina. Os efeitos aparecem com o tempo e enquanto a meditação é feita – os praticantes costumam dizer, inclusive, que, quando estão sem meditar, sentem falta do bem-estar que ela proporciona. Assim, é preciso achar um tempinho na agenda (nem que sejam 15 minutos) e tentar fazer disso uma rotina diária. "Mas acho que, no fundo, algumas pessoas têm é um pouco de medo de se confrontar com seus pensamentos mais profundos, pois nem sempre o que vem à tona é agradável", diz Carol Rache. "No entanto, elas devem saber que esse é o primeiro passo para se conhecer e se perdoar. A partir daí, começam a liberdade e o amor." Vale a pena tentar.

 



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