Talento que cresce

Quem são os pequenos cantores da Grande BH que conquistaram o público e famosos em programa de TV. Eles, agora, querem aproveitar a súbita fama para catapultar a carreira na música

por Gui Torres 14/03/2016 14:41

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Victor Schwarner/Encontro
Madu (esq.), Pepê, Íris, Abgail e Tavinho: surpresos com a popularidade após a participação no The Voice Kids (foto: Victor Schwarner/Encontro)
Antes de completar 1 ano de vida, quando ainda vivia nos Estados Unidos, onde nasceu, durante um passeio de carro com a mãe, a pequena Iris Pereira se agitou ao ouvir pelo rádio a canção Umbrella, da cantora Rihanna, um hit na época. "De repente, ela começou a cantar o refrão da música. Fiquei muito surpresa, pois falava pouquissímas palavras", conta a mãe, Kelen Pereira. "Baixei todo o volume e mesmo assim ela continuou cantando." Com 1 ano e meio, outro sinal do que vinha pela frente: cantava toda a canção que encerrava os episódios do seriado americano Barney e seus Amigos, o preferido da garotinha. "Mais tarde, começou a escolher somente brinquedos musicais, que emitissem algum som", conta a mãe.

Nesse período, Iris foi diagnosticada com problemas respiratórios que fizeram sua capacidade pulmonar ser reduzida em 50%, decorrente de alergias e bronquites. Ainda assim, a voz já chamava a atenção e ela demonstrou a ideia fixa por cantar. "Só falava em ser cantora. Até me pedia para levá-la aos programas de TV, mas era muito pequena ainda e eu ficava bastante receosa", diz Kelen. Somente agora, aos 9 anos, morando na cidade mineira de Santa Luzia, veio a primeira experiência em frente às câmeras. Iris é uma das atrações do programa The Voice Kids, da TV Globo, que revela novos talentos mirins. A pré-seleção para a atração fez com que mãe e filha procurassem às pressas aulas de canto semanais para que Iris aprendesse o básico sobre graves, entonação, postura e modo de cantar. Mas, mesmo sem nunca ter tido antes aulas de canto, nem ninguém na família com qualquer ligação musical, a menina teve participação de destaque no programa. "Meu tom é um agudo bem afinado e com alcance incomum para a minha idade", diz a garota, sobre o que já ouviu de sua voz.

No palco, durante as audições às cegas, precisou apenas de 10 segundos para provar aos técnicos seu talento. Entoando Felicidade, um clássico do compositor Lupicínio Rodrigues, a pequena fez virar em tempo recorde as cadeiras dos jurados, os consagrados cantores Ivete Sangalo e Carlinhos Brown. O desempenho emocionante levou o cantor Victor, que também compõe o júri técnico e faz dupla com o irmão Leo, a uma conclusão: "Isso é coisa de quem tem talento na veia", disse. A voz marcante de Iris e seu carisma fizeram pipocar ligações no celular da mãe, que deixou o trabalho de cozinheira - fazia comidas naturais e congeladas para aumentar a renda familiar - para ficar por conta da pequena. "Ela já fez um show para quase 150 pessoas em Santa Luzia e também se apresentou em um evento de noivas", conta Kelen.

Victor Schwarner/Encontro
(foto: Victor Schwarner/Encontro)
Outro que se revelou prodígio musical mineiro, Otávio Leoni tem histórico bem diferente. Aos 12 anos, Tavinho, como é conhecido em algumas rodas de samba, cresceu vendo o pai, sambista, se apresentar à frente do grupo Partido Mineiro. "Quando ainda era bebê, nós o colocávamos sobre o tam-tam (instrumento de percussão) e ele até cochilava", lembra a mãe, Viviane Freitas. "Mais tarde, aos 3 anos, ele ganhou uma bateria infantil e com ela ia para o palco toda semana, acompanhando o pai. Ficava lá brincando e batendo as baquetas por até quatro horas", conta Viviane. A novidade também tirava o sossego em casa. "Ele adorava ouvir o DVD do Belo e acompanhar as músicas tocando a bateria." Há quatro anos, Tavinho começou a se apresentar sozinho em pequenos eventos, festas de família e saraus. "Meu coração é do samba", diz o garoto.

Para Carlinhos Brown, que virou a cadeira para o belo-horizontino no último segundo da música, ele é "um futuro Jamelão". A comparação rendeu fama rápida e os pais logo tomaram uma decisão: boa parte do grupo Partido Mineiro migrou para o Tavinho e Banda, projeto que eles lançaram em março numa casa de shows para 600 pessoas, dando gás à agenda que já tem apresentações marcadas para todos os fins de semana de março. "O que estiver dentro das nossas condições para dar continuidade ao sonho dele, nós vamos fazer, e com todas as forças", diz Viviane. Tavinho já tem até produtora para gerenciar sua carreira e vender os shows. "Tudo o que ele ganha é dele, e usamos a renda para pagar os custos das apresentações, comprar roupas novas para suas apresentações, bem como para as aulas de canto e a fonoaudióloga", afirma Viviane. "Mas também entrego o cartão de crédito quando ele quer sair com os amigos para comer uma pizza, ir ao cinema."

O próximo passo do sambista mirim, que além de cantar toca pandeiro, tamborim, triângulo, violão, zabumba, guitarra, conga e reco-reco, é gravar um clipe. Contudo, por enquanto, o que tem feito mesmo a alegria do menino é a fama repentina e os olhares curiosos por onde passa. "Ser reconhecido na rua é o melhor", diz Tavinho. "Por isso, também estava ansioso para ir ao primeiro dia de aula depois das férias. Queria ver a reação dos meus amigos e foi superdivertido."

A sambista Aline Calixto não é de acompanhar o programa, mas por acaso estava diante da TV no dia em que o garoto se apresentou. "Ele canta sem vícios, sem imitar ninguém, e me deixou ainda mais encantada por escolher o caminho do samba, entoando uma música tão antiga", diz ela, que também começou a dar sinais da futura profissão muito cedo, aos 4 anos. A admiração fez com que Aline o chamasse para uma palinha em cima do trio da cantora, no carnaval deste ano, em BH. "Fiquei apaixonada", diz Aline.

Victor Schwarner/Encontro
(foto: Victor Schwarner/Encontro)
Bem diferente é a trajetória de Maria Eduarda Alvarenga, a Madu, de 13 anos, que se define como o peixe fora d'agua da família. Os pais, agentes de polícia, nunca passaram perto de um microfone. A cantada da igreja que frequentava quando criança é que fascinou a menina, a ponto de pedir ao avô para que a juntasse ao grupo. "Eu era tão pequena que nem me lembro disso, mas aconteceu e eu cantei para uma igreja cheia", conta ela. Como a vontade de soltar a voz não passou com os anos, a mãe, Luciane de Paula, a colocou em aulas de canto, aos 10 anos. Mas, até ser aprovada para se apresentar no The Voice Kids, a garota nunca tinha rompido os limites da igreja onde canta até hoje. "Estou achando muito engraçado falar que tenho fãs, pois até um mês atrás ninguém me conhecia e agora eu sou ídolo de alguém", diz.

E ela não exagera. Na rede de compartilhamento de fotos, o Instagram, ganhou até poema que guarda com carinho e mostra a quem duvida da fama que conquistou. Em alguns dos trechos, o minifã escreve: "Madu Alvarenga, um anjo, um amor. Chegou do nada, presente do Senhor. Famosa ou não, sempre vou te amar. Famosa ou não, é a melhor de BH. Não é amor de verão e nem amor de manhã, é amor para sempre, amor de fã". Apesar da magia do momento, a mãe prefere manter os pés firmes no chão. "Sou conservadora e acredito que está na hora de ela estudar, tirar notas boas, e não de fazer shows", diz. Madu concorda, mas deixa claro: "A música nunca vai sair de mim, posso me tornar advogada, médica, mas sempre terei isso comigo. No mínimo será um hobby que vou colocar em prática com meus filhos e, quem sabe, me apresentar em um ou outro lugar", diz a menina. Ivete Sangalo diria que é pouco. Na visão da cantora, Madu tem voz potente demais, brilhante e exata. "Canta sem fazer força", disse Ivete durante as audições.

Já o coleguinha João Pedro Santos, o Pepê Santos, fez virar as cadeiras da dupla Victor e Leo e de Carlinhos Brown com uma música que diz tudo sobre este momento: Um Degrau na Escada, de Chico Rey e Paraná. "Tem muito cavalo nesse motor", brincou o cantor Victor ao justificar a escolha pelo garoto de 14 anos, que canta desde os 6. Na época, ele ganhou uma pequena viola de madeira para interagir com o pai, que também começou a cantar com e mesma idade do filho e por anos fez parte de uma banda de BH. O pai também teve experiência como calouro, quando menino, ao participar de programas na extinta TV Itacolomi. Isso há quatro décadas. "Ele está realizando o meu sonho, de conquistar fama, subir ao palco e cantar para multidão", diz o pai, o consultor imobiliário Mauredson Martins. "É muito claro para nós que ele nasceu com esse dom e que vai dar continuidade ao talento da família", diz a mãe, a funcionária pública Adriana Souza. "Estamos vivendo um sonho e já acabei com meu estoque de lágrimas. Fico muito emocionada toda vez que revejo a apresentação, pois nunca imaginei que isso pudesse acontecer."

Sem nunca ter feito aula de violão, mas com surpreendente aptidão para o instrumento e a música, Pepê não tem medo de ser mais um na multidão que tenta um lugar ao sol no concorrido e milionário mercado da música sertaneja. "Eu me espelho muito no Cristiano Araújo, no Leonardo e, principalmente, no Wesley Safadão, que para mim é mito", diz Pepê. "Quero cantar com ele." Fãs para dar apoio na empreitada, ele já tem aos montes. Em uma de suas redes sociais, o Instagram, o número de seguidores passou de 300 perfis para quase 10 mil em poucas horas. Na mesma rede de compartilhamento de fotos e também no Twitter, quase 10 fã-clubes foram criados por admiradores do adolescente. "Outro dia, saí para almoçar e três pessoas me reconheceram. O mais legal são as pessoas que pedem para tirar foto juntos", conta Pepê.

Victor Schwarner/Encontro
(foto: Victor Schwarner/Encontro)
Fora da competição desde a primeira batalha, que consiste em três crianças cantando juntas e uma permanece na disputa, ele agora só pensa em estar novamente em um palco e poder animar mais do que as festas da família e a plateia de bares e restaurantes, que vez ou outra pede para dar uma canjinha. "Há convites para ele se apresentar, mas é tudo tão novo que nem sabemos quanto cobrar", diz Adriana.

Entre todos os participantes da região metropolitana de BH, Abgail Barcelos, ou Biga, é a mais velha e a que convive com a música há mais tempo. Aos 15 anos, a garota dá sequência à paixão pela música mantida pelo avô, que tinha uma banda de samba, e pelo pai, que também canta e é contrabaixista. O primeiro contato com o microfone foi aos 2 anos, quando pediu para a mãe deixá-la cantar na igreja que frequentavam. Foi lá que ela soltou a voz pela primeira vez. "Ela não desafinou e isso encantou todo mundo", conta a mãe, Andreia Gomes. Anos depois, Abgail deu novo rumo ao desejo de cantar, entrando para o coral infantojuvenil do Palácio das Artes, onde está até hoje e divide o tempo com as aulas de canto, inglês, piano e sessões de fonoaudiologia. "Mesmo com alguma experiência e estudo, eu não esperava entrar para o The Voice, pois é muita gente boa concorrendo. Mas fiz o vídeo e mandei", conta. "Dois dias depois me ligaram da produção avisando que tinham gostado do material e me chamaram para a primeira audição, em BH."

Ela ainda teve de esperar sete meses para, finalmente, pisar no palco mais importante de sua vida até aqui. Lá, não deixou a desejar. Apesar de só o cantor Victor ter apertado o botão para virar a cadeira, a admiração pela mineira foi unânime. "É impressionante como você canta parecendo que está interpretando uma música suave, mas o que está saindo é um som violento, uma flecha cortando o ar que bateu aqui no meu coração", disse Victor. Cantando Insano, música pouco conhecida da banda Jamz - que ganhou uma das edições do extinto programa Super Star, também da Globo -, ele consquistou ainda Carlinhos Brown. "Tem uma afinação incrível. Que coisa mágica!", disse o cantor. Já Ivete Sangalo, que ouviu vários trechos da canção de olhos fechados, só conseguiu suspirar fundo e soltar "que linda". Apesar de ter sido até agora sua primeira apresentação sozinha em um palco, a menina já tem muitas certezas. "Ser cantora é a minha primeira, segunda e também a terceira opção do que quero fazer quando for adulta", diz Biga. "Meu sonho mesmo é ser uma Beyoncé, bater cabelo no palco e cantar a música Freakum Dress."

Com um estilo que mistura pop, black music e pitadas de MPB, já tem sua tímida legião de fãs. "Na semana seguinte à exibição das audições às cegas, aconteceu a volta às aulas e eu nunca tirei tanta foto na vida. Os colegas estavam achando o máximo ter uma 'cantora' na escola", diz Biga. A mãe, Andreia Gomes, não tira o sorriso do rosto e até deu um tempo no trabalho, no departamento pessoal de uma maternidade, para acompanhar a filha em todos os compromissos que têm surgido. "A caminhada dela não é de agora e é mesmo o que ela quer daqui para frente. O pai está morrendo de orgulho e vamos dar todo o apoio que pudermos", diz Andreia. Com quase 1,70 metro de altura, a ideia de ser modelo passou muitas vezes pela cabeça, mas é algo que não pensa mais. "Minha passarela será o palco", sonha a garota.

A empresária Daniela Assunção, do Acústico Estúdio, espaço que recebeu as crianças para a sessão de fotos que ilustra esta matéria, ficou emocionada com o desempenho dos pequenos. Apesar de nunca ter trabalhado com crianças em seu estúdio, ela conhece de muito perto as vozes de Milton Nascimento, Lenine, Elza Soares, entre outros ícones da música brasileira, e considera o nível das crianças melhor do que muitos adultos que já percorrem esse caminho. "Eles são mesmo uma aposta", diz Daniela.

Globo/Divulgação
(foto: Globo/Divulgação)

Globo/Divulgação
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