Os arquitetos da cidade

Conheça como trabalham e o que pensam os profissionais responsáveis por redesenhar a capital mineira

por Carolina Daher 09/05/2016 13:23

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Maurício/Torres Miranda ARQ/Reprodução
(foto: Maurício/Torres Miranda ARQ/Reprodução)

Grandes cidades como Belo Horizonte vivem o dilema de crescerem de forma ordenada e em harmonia com a paisagem urbana. Sendo assim, o papel dos arquitetos na criação de obras belas e funcionais acaba sendo essencial no desenvolvimento da estrutura da cidade.

Pensando nisso, a Encontro conversou com os principais arquitetos de BH, na matéria de capa da edição 180 (confira a versão digital, completa), para saber como trabalham os nomes por trás da mudança do horizonte da capital. Aqui estão eles:

 

Os otimistas

Paulo Marcio/Encontro
Maurício Miranda e Júlio Tôrres em frente ao edifício Parque Avenida, da Odebrecht, na Raja Gabaglia: um dos projetos de destaque da dupla (foto: Paulo Marcio/Encontro)
A capital mineira vive uma época de grandes transformações. Desde o ano passado, está para ser votado na Câmara Municipal um projeto de lei do novo Plano Diretor de Belo Horizonte. De maneira geral, o objetivo das mudanças é reordenar o crescimento da cidade, atraindo o mercado imobiliário e a oferta de serviços, comércio e lazer para áreas de menor densidade. Os arquitetos Maurício Miranda e Júlio Tôrres enxergam aí a chance de BH se tornar uma cidade mais gentil. "Um dos pontos, por exemplo, é estimular que se criem jardins em áreas privadas", explica Júlio. "O empreendedor que recuar a construção e deixar uma área livre em frente ao prédio, por exemplo, vai ganhar em área construída."Para a dupla, se o plano for aprovado, as mudanças poderão ser vistas daqui a duas décadas. "Será um processo de autofagia. O que foi construído no passado que não tenha valor histórico dará lugar a novas edificações, que já vão surgir dentro desse conceito de uma cidade mais generosa", diz Maurício. Seu escritório, o Torres Miranda Arquitetura, já vem fazendo sua parte. Com projetos que começam em 25 mil reais, o escritório assina obras como o Parque Avenida - centro comercial recém-inaugurado na avenida Raja Gabaglia e que conta com uma grande área livre na frente do terreno - leva a assinatura da dupla. "Temos de levar em conta o lado comercial. Nem sempre o empreendedor percebe a importância dessa mudança de comportamento", diz Maurício. "E aí acho que é nossa obrigação, como arquitetos, esticar um pouco a corda e propor soluções que sejam boas para todos. Inclusive para a cidade."

Maurício Miranda

Onde nasceu: Belo Horizonte
Idade: 52 anos
Formação: UFMG em 1990
Número de projetos por ano: 50
Equipe: 15 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: A arquitetura é o exercício da capacidade de síntese de questões muito complexas

Júlio Tôrres

Onde nasceu: Itabira
Idade: 48 anos
Formação: UFRJ em 1991
Número de projetos por ano: 50
Uma frase que define seu trabalho: "Arquitetura é uma luta, não um milagre"

O agregador

Samuel Gê/Encontro
Alexandre Brasil projetou as faixas onduladas da rua Cláudio Manoel, na praça da Liberdade, obra da construtora Santa Bárbara: "As ondas podem servir de banco ou rampa" (foto: Samuel Gê/Encontro)
A mãe, Jussara Brasil, é artista plástica. José Dalmo Garcia, o pai, engenheiro. Alexandre Brasil cresceu em meio a arte e projetos. Seu destino foi unir essas duas influências através da arquitetura. Ele chegou a pensar em seguir pelo caminho da música, mas acabou ficando com a prancheta em vez do violão. Depois de trabalhar com os arquitetos Éolo Maia e Jô Vasconcellos durante dois anos, e no escritório do arquiteto Carico por outros seis anos, Alexandre criou, com outros quatro profissionais, a Arquitetos Associados. Em diversas publicações especializadas, o grupo é considerado um dos mais influentes da nova geração de arquitetos do país. Com diversos prêmios, incluindo o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pela Galeria Cláudia Andujar, em Inhotim, a Arquitetos Associados é um estúdio colaborativo. A cada projeto assumido pelo escritório - que começam na faixa de 10 mil reais -, o processo de trabalho é definido de acordo com os desejos do cliente. "Eles podem ou não ser feitos em grupo. Essa prática acaba fazendo com que nossas obras sejam muito diferentes umas das outras e não tenham uma marca estética definida", afirma.

Alexandre Brasil

Onde nasceu: Belo Horizonte
Idade: 42 anos
Formação: UFMG em 1996
Número de projetos por ano: 8
Equipe: 13 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: "Um olhar para a paisagem"

O filósofo

Geraldo Goulart/Encontro
Eduardo Beggiato é responsável pelo projeto de revitalização da Praça da Estação: "Nunca imaginei que as noivas usariam o local como cenário para fotos" (foto: Geraldo Goulart/Encontro)
Vira e mexe, Eduardo recebe alguns seletos amigos para os concertos que faz em casa, no Sion. Ele fez aulas de piano quando criança e retomou o estudo há quatro anos. A emoção que o instrumento é capaz de arrancar dos ouvintes é o mesmo sentimento que ele procura trazer para seus projetos. Para ele, a cidade é como um grande coral, onde a maioria das vozes está ali para garantir a base. Os solos precisam ser pontuais. "Se uma ópera fosse uma sequência de árias, ninguém aguentaria", diz. "É assim na cidade. Imagine se todos os prédios quisessem ser um espetáculo?" Ao lado da sócia Edwiges Leal, as obras de seu escritório, o B&L Arquitetura, são marcadas pela sutileza. "A sensação que tenho é de que BH está virando uma gritaria. É tanta luz, tanto LED, que parece que os edifícios estão sempre prontos para o Natal", brinca. "Eu sei que na arquitetura é difícil, mas prefiro ter a minha presença percebida pelo silêncio e pela tranquilidade. "Entre muitos projetos assinados pela dupla, estão a revitalização das praças da Savassi e da Estação.

Eduardo Beggiato

Onde nasceu: Belo Horizonte
Idade: 55 anos
Formação: UFMG em 1983
Número de projetos por ano: 50
Equipe: 10 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: "Sem exageros"

O tradicional

Samuel Gê/Encontro
Oscar Ferreira em frente ao edifício de alto luxo que projetou para a Patrimar, no bairro São Pedro: "Minha principal preocupação é otimizar os espaços para criar conforto" (foto: Samuel Gê/Encontro)
A paixão de Oscar Ferreira pelo desenho vem dos tempos de garoto. O arquiteto conta que no cantinho de uma página do caderno de receitas da mãe, a funcionária pública Nelci Arlete, tem um desenho de um carrinho que ele fez quando tinha 2 anos de idade. "Sempre soube que seria arquiteto. Acho que a faculdade serve apenas para você pegar o linguajar, porque você já nasce com a percepção de espaço." Oscar, o menino que vivia com lápis e caderno nas mãos, não imaginava que um dia seria responsável por definir a forma como os belo-horizontinos moram. Ele foi um dos primeiros a investir nos espaços gourmet, hoje comuns em vários apartamentos. Queridinho do mercado imobiliário, tem mais de 1.500 obras espalhadas pela cidade. "Sou um homem de intuição e acho que está aí o grande segredo do sucesso. Consigo antecipar o que as pessoas desejam", diz. Entre seus projetos, que começam em torno de 30 mil reais, está cerca de um quarto de todas as edificações comerciais e residenciais instaladas no Belvedere.

Oscar Ferreira

Onde nasceu: Belo Horizonte
Idade: 68 anos
Formação: UFMG em 1971
Número de projetos por ano: 60
Equipe: 17 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: "Ambientes de bem-estar"

O negociador

Samuel Gê/Encontro
Alberto Dávila, no edifício High Houses, da construtora Caparaó, na rua Fernandes Tourinho: "Se um projeto não é genial, precisa ser, no mínimo, correto" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Quando chegou por aqui, na década de 1970, o equatoriano Alberto Dávila se perdia com o traçado de Belo Horizonte. A ortogonalidade de suas malhas das ruas e avenidas giradas a 45 graus confundia o senso de direção do jovem. "Eu pegava a rua São Paulo crente que ia sair em casa e parava na praça Sete", diz. Hoje, anda com desenvoltura na cidade que escolheu para viver. "Apesar de não ter nascido aqui, sou mineiro", diz ele, que veio parar em BH por obra do acaso. Ainda em Quito, sua cidade natal, resolveu fazer um curso de português na embaixada, que ficava próxima a sua casa. Foi quando apareceu a oportunidade de vir estudar em solo nacional. "O Brasil sempre foi um país referência em arquitetura. Naquele tempo, isso era ainda mais forte", lembra. Como os embaixadores eram mineiros, acabaram o convencendo a vir para Belo Horizonte. Apaixonou-se e o país correspondeu. "Aqui é a terra das oportunidades", diz. Alberto não perdeu tempo, tem mais de 2.500 obras espalhadas por todo o território brasileiro. Em seu escritório, que tem filiais em Brasília, Rio e São Paulo, os projetos variam de 150 mil a 4 milhões de reais. Na capital mineira, é de sua autoria o Minas Tênis Clube e o prédio Amadeus, na Savassi. Além de arquiteto, Alberto se define como homem de negócios. "Costumo brincar que, se um projeto não é genial, precisa ser, no mínimo, correto."

Alberto Dávila

Onde nasceu: Quito, Equador
Idade: 64 anos
Formação: UFMG em 1974
Número de projetos por ano: 40
Equipe: 69 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: "Organizar o espaço com profissionalismo"

O visionário

Cláudio Cunha/Encontro
O imponente prédio comercial Domani Business Center, da Caparaó, na rua da Bahia, Lourdes, é um dos projetos mais emblemáticos de Bernardo Farkasvölgyi: "Eu amo o que faço" (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
As noites costumam ser longas para Bernardo Farkasvölgyi. A partir das 23h, ele transforma o espaço gourmet de sua cobertura, em Lourdes, em escritório particular. Espalha sobre a mesa de madeira seus lápis de cor. Coloca um som ambiente. A playlist é eclética, com músicas de Peter Gabriel, Coldplay e The Police. Às vezes, serve-se com uma taça de vinho. E aí começa a brincadeira. "Eu amo o que faço. Fico horas desenhando e, quando percebo, o sol está nascendo", diz. Apesar de ser ligado a novas tendências tecnológicas - seu escritório foi o primeiro em Minas a trabalhar com a plataforma BIM (Building Information Modeling), que permite modelos tridimensionais nos quais os edifícios, antes mesmo de serem construídos, já são reais em todas as suas complexidades e exigências -, Bernardo é o homem do traço. "Não sei usar muito bem o computador, ainda uso a prancheta", diz ele, que tem entre seus projetos o Domani Business Center, prédio emblemático na rua da Bahia, em Lourdes, e a revitalização do Hotel Golden Tulip, no centro (Boulevard Arrudas). "Trabalho com tanto prazer, tanta alegria, que acho que isso aparece nos projetos", diz.

Bernardo Farkasvölgyi

Onde nasceu: Belo Horizonte
Idade: 49 anos
Formação: Instituto Metodista Izabela Hendrix, em 1989
Número de projetos por ano
: 36
Equipe: 43 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: "Busca da felicidade"

O artista

Cláudio Cunha/Encontro
Gustavo Penna no anexo da Academia Mineira de Letras, na rua da Bahia, que leva sua assinatura: "Só andando você percebe a cidade como ela verdadeiramente é, com seus cheiros, arquitetura e personagens" (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Construída em 1906, a casinha branca na avenida Álvares Cabral, bem em frente à Conexão Aeroporto, é um retalho preservado da história do centro da cidade. No imóvel, que pertenceu a seu bisavô, Gustavo Penna fincou seu escritório. "Aqui vivem diversos fantasmas, mas são todos parentes", brinca. Com mais de 50 prêmios conquistados durante 42 anos de carreira, uma das principais características do arquiteto é a leveza, tanto na vida quanto em suas obras. "Dois objetos não ocupam o mesmo lugar no espaço, por isso fazer uma obra que vai ocupar um espaço no mundo é uma responsabilidade imensa", diz ele, que perdeu as contas de quantas obras tem na capital. "Passa de cem, mas não chega a mil", diz, rindo. É um artista de grandes estruturas, como o Novo Mineirão, o Expominas e o anexo da Academia Mineira de Letras. "Costumo dizer aos clientes que farei tudo o que eles desejam. A minha função é ouvir e interpretar as palavras e as entrelinhas", diz. "E as palavras são fundamentais para espacializar uma ideia. Por exemplo, quando se diz aconchego, as formas imediatamente se curvam", diz.

Gustavo Penna

Onde nasceu: Belo Horizonte
Idade: 66 anos
Formação: UFMG em 1973
Número de projetos por ano: 50
Equipe: 25 pessoas
Uma frase que define seu trabalho: "Sempre me surpreendo"

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