Ele não quer o lugar do R10

Aposta do Galo para a conquista de títulos na temporada, Robinho está determinado a ser campeão, mas evita comparações com Ronaldinho. Feliz com BH, já tem até comida mineira preferida: frango com quiabo

por Renan Damasceno 12/05/2016 13:45

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Bruno Cantini/Divulgação
Em pouco mais de dois meses no time, Robinho se diz motivado: "A camisa está caindo bem, todo mundo fica bonito com a camisa do Galão" (foto: Bruno Cantini/Divulgação)
Eterno menino da Vila Belmiro, o jogador Robinho amadureceu e amineirou-se. Não precisa de muito tempo de conversa para que a principal contratação do Atlético para a temporada comece a enumerar os motivos que o levou a se encantar por Belo Horizonte - lista que começa sempre pelo mesmo item: "huuum... frango com quiabo", brinca o jogador, em bate-papo com Encontro na Cidade do Galo, antes de abrir o sorriso que se tornou sua marca registrada, tão característico quanto suas pedaladas em campo e o pandeiro fora das quatro linhas.

"Belo Horizonte é uma cidade bonita, tranquila, que agradou muito à minha família", diz o atacante, que se mudou para a capital mineira com a mulher, Vivian, e os três filhos: Robson Júnior, de 8 anos; Gianluca, de 5, e a pequena Giulia, de 8 meses. "Claro que nossa rotina não muda tanto (em relação às outras cidades): é treino, casa, concentração, viagem. Mas é uma cidade bem tranquila. O mais importante é a tranquilidade da família, dos meus filhos, que estão gostando, estão bem aqui", afirma o atacante, que sempre leva os garotos ao CT e aos jogos - a briga é para ver quem fica com a bola do jogo quando o pai balança as redes.

Aos 32 anos, Robinho não é mais um garoto e tampouco se comporta como tal. Em pouco mais de dois meses com a camisa do Galo, recebe elogios dos funcionários do CT, dos jogadores e da comissão técnica pela educação, bom trato, seriedade nos treinos e alegria nos momentos de descontração. Esse comportamento o ajudou a se tornar prontamente um líder do grupo, ao lado de atletas experientes e multicampeões pelo clube, como o goleiro Victor, o lateral-direito Marcos Rocha e o zagueiro Leonardo Silva.

"O Robinho é um líder técnico por todo o seu potencial, por tudo aquilo que já fez pelo futebol, pelas conquistas. É um jogador importante não só pela capacidade técnica, mas por sua liderança e seu comprometimento", diz o goleiro Victor, um dos principais ídolos da torcida alvinegra. "No vestiário, ele brinca, é bastante animado, mas, a partir do momento que entra em campo, mostra-se bastante focado. Acho que é pela maturidade. Continua sendo extrovertido, mas de forma mais reservada em meio ao elenco", afirma.

O bom início no Galo, segundo Robinho, se deve justamente aos companheiros. "A recepção que eu tive dos jogadores facilitou bastante a adaptação", diz o jogador, que foi repatriado pelo Galo em fevereiro, depois de passagem pouco produtiva pelo chinês Guangzhou Evergrande. Na equipe treinada por Luiz Felipe Scolari, Robinho fez apenas três gols em 10 jogos e foi reserva na reta final do Mundial Interclubes, em dezembro, inclusive na semifinal contra o Barcelona.

A chegada ao Atlético se deveu muito, segundo o próprio presidente Daniel Nepomuceno, ao acerto do clube com a Dryworld, empresa canadense que confeccionará o uniforme do Atlético pelos próximos cinco anos. Por ser um jogador de renome internacional, disputado por outros clubes brasileiros, empresa e clube entenderam que Robinho, que assinou contrato por dois anos, seria importante para a estratégia de marketing da parceria. Além disso, a contratação do camisa 7, com passagem vitoriosa pelo futebol europeu, manteria o Galo no patamar de cima da disputa por grandes astros, preenchendo a lacuna deixada por Ronaldinho Gaúcho, que defendeu o Atlético por 88 partidas, entre junho de 2012 e julho de 2014.

Desde sua chegada, Robinho evita comparações com o R49, vencedor da Libertadores’2013, Mineiro’2013 e Recopa Sul-Americana’2014. "Ronaldinho fez a história dele aqui, é um jogador espetacular. E como falei desde o início: procuro fazer a minha história. Vou trabalhar bastante aqui no Galo para ser campeão. À exceção do Manchester City, fui campeão por onde passei e espero ser campeão também no Atlético", diz.

Somado a todo esse otimismo, os torcedores alvinegros não esquecem o vídeo que o jogador gravou ainda em 2006, quando atuava na Espanha: "Quando eu sair do Real Madrid, vou jogar no Atlético Mineiro. A torcida do Galo é fera, Mineirão lotado, engole a torcida do Cruzeiro. Engole. Galo, Galo, Galo...", dizia no vídeo, que viralizou nas redes sociais assim que a negociação foi concretizada, em janeiro. O jogador explicou que se tratava de uma brincadeira com o amigo e cruzeirense Fred, mas, sem dúvida, somou pontos com a massa do Galo.

Do franzino guardador de carros em São Vicente, na Baixada Santista, a Rei das Pedaladas, o caminho de sucesso de Robinho teve um início semelhante ao de milhares de atletas brasileiros: na pobreza. Morador de bairro carente, trabalhava vigiando carros em frente ao cemitério do Parque Bitaru - o que lhe rendeu, no início de carreira no futebol de salão, o apelido de "Neguinho do Cemi". Ainda no futsal, passou por agremiações menores como Beira-Mar e Portuários, antes de chegar ao Santos, em 1993, quando chamou a atenção de ninguém menos que Pelé, que supervisionava as categorias de base.
O Santos é um dos maiores celeiros de craques do futebol brasileiro. De lá já saíram gênios como Zito, Coutinho, Pelé e Pepe, além de Clodoaldo, Edu e Lima. Coube a Robinho ser o expoente de uma geração que marcou o ressurgimento do Santos no cenário nacional.

Ele chegou à categoria profissional no início de 2002, aos 18 anos, ao lado de outros jovens promissores como o lateral-esquerdo Leo, o volante Elano e o atacante Diego. A estreia foi contra o Guarani, em que o Santos venceu por 2 a 0. O treinador gaúcho Celso Roth, que comandava o time à época, tem acompanhado o bom momento do jogador. "Robinho sempre foi franzino. Agora está um pouco mais desenhado fisicamente e com maturidade de quem viveu muito o futebol. E o mais importante: ele está feliz", diz Roth, por telefone.  "Robinho sempre foi aglutinador, bom de grupo. Pelos jogos, parece-me que ele reencontrou no Atlético o momento que viveu no Santos."

A temporada de 2002 foi mágica para os Meninos da Vila. Já sob o comando de Emerson Leão, o Santos foi campeão brasileiro, dando fim ao jejum de 18 anos. Na decisão contra o Corinthians, Robinho aplicou um drible passando as pernas oito vezes sobre a bola antes de sofrer pênalti do lateral Rogério. O lance lhe rendeu o apelido de Rei das Pedaladas. Robinho e Diego levaram o Santos à decisão da Libertadores’2003, perdendo para o Boca Juniors, mas se sagrou bicampeão brasileiro no ano seguinte, marcando 21 gols em 37 partidas.

Instagram/Reprodução
Robinho faz questão de levar os filhos Robson Júnior, de 8 anos, e Gianluca, de 5, aos treinos e aos jogos: a família está gostando tanto da cidade que o craque já procura casa para comprar por aqui. Entre as opções de local está o Vale dos Cristais, em Nova Lima (foto: Instagram/Reprodução)
Os dois títulos nacionais credenciaram Robinho para o futebol europeu. Em 2005, em negociação na casa dos 50 milhões de reais, foi para o galáctico Real Madrid. Com 21 anos, dividia o vestiário com astros como Zinedine Zidane, David Beckham, Roberto Carlos e Ronaldo. Não chegou a se firmar, ainda assim conquistou dois títulos espanhóis antes de se transferir para o Manchester City, em setembro de 2008, o momento mais crítico de sua carreira.

No clube inglês, que desembolsou 40 milhões de euros pelo brasileiro (à época cerca de 96 milhões de reais), Robinho até teve um início animador, mas acabou indo para a reserva ao ter desentendimentos com o técnico italiano Roberto Mancini. As farpas culminaram no primeiro de dois retornos de Robinho ao Santos, em 2010 - o outro retorno foi em 2014, até junho do ano passado. Na Vila Belmiro, já um jogador tarimbado, ajudou a moldar a geração promissora de Neymar e Paulo Henrique Ganso, com títulos do Paulista e da Copa do Brasil, além de conseguir a convocação para a Copa do Mundo’2010 - o segundo mundial de sua carreira, depois de ser reserva na equipe de Carlos Alberto Parreira, em 2006.

Robinho teve mais quatro anos produtivos na Europa, defendendo o Milan e dividindo os holofotes com estrelas como o sueco Ibahimovic e Ronaldinho. Em meados do ano passado, ao encerrar sua segunda passagem pelo Santos, assinou com o milionário futebol chinês por seis meses. Em fevereiro, ele chegou ao Atlético com alguns desafios: o principal deles, provar que, aos 32 anos, ainda pode jogar em alto nível, depois de passagem frustrante pelo Guangzhou.

"Um fator importante foi o interesse que ele demonstrou ao vir para o Atlético, isso ajuda muito. Foi uma congruência dele com o clube e do clube com ele. Foi uma adaptação rápida, porque ele está à vontade", afirma Carlinhos Neves, coordenador técnico do Atlético, contente com o início da trajetória de Robinho no Galo. "Não é surpresa. Conheço o Robinho desde a seleção olímpica, depois na principal, e no futebol da China, mesmo nós trabalhando em times opostos. Ele tem esse lado alegre, mas nunca foi só isso. Ele é agregador, respeita dos veteranos aos meninos da base. É um cara importante para o grupo", afirma Carlinhos.

"À vontade" talvez seja a melhor forma de definir o início da trajetória de Robinho no Atlético. Com 10 gols nas primeiras 10 partidas, incluindo três gols em um mesmo jogo contra o Villa Nova e o Tombense, pelo Mineiro, o atacante vive sua melhor média de gols da carreira em começo de trabalho. Guarda a esperança do torcedor atleticano de liderar a equipe do técnico Diego Aguirre ao bicampeonato da Libertadores e à quebra do jejum de 45 anos sem títulos do Campeonato Brasileiro. Sentindo-se em casa, Robinho está motivado e, como ele mesmo brinca: "A camisa está caindo bem, todo mundo fica bonito com a camisa do Galão".

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