O desafio da precisão

Os carros autônomos, apesar de ainda distantes da realidade brasileira, já circulam em cidades laboratório de outros países. Mas ainda dependem de mapas para se manterem atualizados

por Fábio Doyle 13/05/2016 08:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Divulgação
Parafernália de câmeras e sensores no carro da Here alemã: similares rodam em 32 países coletando dados para atualizar seus mapas (foto: Divulgação)
Na corrida pela viabilização dos carros autônomos, que dispensam o motorista, as atenções agora se concentram na confiabilidade dos mapas digitais que servirão de guia para que eles ofereçam total segurança.

A questão esbarra nas constantes alterações da paisagem urbana, nas obras que mudam os parâmetros das estradas, em desvios que surgem de repente, nas marcas que se apagam e nos infindáveis  fatores que o comando humano pode enxergar e corrigir, mas que os sensores robóticos não têm (ainda) a sensibilidade para administrar.

Com a tecnologia self-driving já pronta, a indústria investe agora em soluções que acompanhem a mutação das ruas e estradas. No Brasil essa realidade parece distante, mas nos EUA e Europa nem tanto. Quem for à Califórnia, por exemplo, fatalmente encontrará carros levando sobre o teto um sensor a laser com várias câmeras em busca de todos os ângulos das ruas de Berkeley.

Carros autônomos já não são uma visão rara nas estradas da Califórnia. Mais de uma centena desses veículos está sendo testada em vias públicas. Mas o carro a que nos referimos é diferente: seu piloto é humano e mantém as mãos firmes ao volante. O veículo, apelidado de "George" pela Here, empresa berlinense de mapeamento pertencente à BMW, Audi e Daimler, não está se "autodirigindo", mas coletando dados para que outros possam fazê-lo.

Para cada segundo de sua jornada, um GPS de alta precisão no teto do George coleta e armazena latitude, longitude e altitude mais de 10 vezes; um sistema de tração motora inercial grava suas curvas, trajeto e rolagem 100 vezes; e o escaneador a laser calcula sua distância a partir de cerca de 600 mil pontos diferentes, como árvores, meio-fios e prédios.

Simultaneamente, quatro câmeras gravam imagem panorâmica de 360 graus e 96 megapixel a cada seis metros que o veículo se movimenta. Um dia de direção pode acumular mais de 100 gigabytes de dados. Isso permite à Here construir uma imagem tridimensional extremamente detalhada da rota do George – o que os cartógrafos digitais chamam de mapa digital de alta definição  (HD).

Antes, achava-se que veículos autônomos seriam capazes de se posicionar  utilizando os mapas de baixa definição, hoje encontrados nos aparelhos de navegação e aplicativos de rotas. Os sensores fariam o resto. A questão é que o carro autônomo precisa funcionar com total segurança em todos as situações. "Você não precisa realmente de um mapa para se manter na faixa correta de rolagem", diz John Ristevski, vice-presidente de captura real da Here. Mas em uma rodovia com cinco faixas, é preciso saber em qual delas está, qual é segura para atravessar e qual é o ponto exato para pegar a rampa de saída. O problema é que as marcações de estradas podem se apagar ou mesmo ficar escondidas sob a sujeira na pista.

Uma solução parcial para isso é o sistema de sensores a laser de reconhecimento chamado LIDARs, que calcula a distância ao iluminar o alvo com uma luz a laser e calculando o tempo gasto para a luz voltar à fonte inicial.

Divulgação
O GPS no teto do carro (detalhe) coleta e armazena informações sobre latitude, longitude e altitude: um sistema de tração motora grava suas curvas, trajeto e rolagem (foto: Divulgação)
O que mapas HD proporcionam aos carros autônomos é a capacidade de antecipar curvas, cruzamentos e trevos. Os sistemas convencionais  de GPS têm precisão de apenas cerca de cinco metros, mas são imprecisos em vales e ficam desorientados em túneis. Mapas HD eliminam esses gaps.

Em busca da precisão, a Here experimenta várias plataformas. Uma envolve interpretação de características como pontes, sinais de trânsito em rodovias e guarda-corpos de imagens feitas pelo veículo de mapeamento, para então compará-las com o que o carro "enxerga".

Algumas empresas automobilísticas, incluindo Nissan, Ford, Kia e Tesla, apostam que a tecnologia de veículos autônomos estará pronta até 2020. A Volvo vai oferecer carros totalmente autônomos para 100 motoristas, já no ano que vem. Tudo isso aumenta a pressão para acelerar o mapeamento mundial em alta definição antes que os carros sem motoristas saiam das lojas para as ruas. A Here tem centenas de carros como o George mapeando estradas em 32 países.

A análise e o processamento de dados de tantos veículos são outro desafio.  A empresa desenvolveu algoritmos para resolver, automaticamente, questões como as marcações das faixas e os limites dos pavimentos. Mesmo assim, os dados coletados pelo George começam a envelhecer assim que são coletados. Os mapas nunca conseguirão ser completamente atualizados, admite Mr. Ristevski.

Os veículos de mapeamento são enviados constantemente para as grandes cidades do mundo, mas essas revisitas ocorrem uma vez por ano, na melhor das hipóteses. Uma solução parcial seria o uso do que Ristevski chama de "dados-sonda": os traços digitais de milhões de pessoas que utilizam smartphones e sistemas de navegação em seus carros.

A Here recebe cerca de 2 bilhões de informações individuais desses dados por dia, permitindo detectar rapidamente alterações importantes. Quanto mais carros forem equipados com itens de direção inteligente, mais a tecnologia direcionará veículos em direção à autonomia total.

A Here trabalha também com informações aéreas de baixa altitude, como fiação, pontes, árvores e detalhes de prédios de até 15 andares. Esses dados poderão ser usados para a navegação de outro tipo de veículo robótico, os drones, o que explica o fato de uma empresa com ambição de fazer entregas por meio de drones, Amazon, estar em negociação para se tornar sócia da alemã Here.

Últimas notícias

Comentários