Museu do Escravo de Belo Vale será reformado

A cidade mineira, na região do Vale do Paraopeba, é sede do único museu dedicado inteiramente à escravidão. Projeto pretende requalificar o espaço e provocar reflexões contemporâneas sobre o tema

por Rafael Campos 18/07/2016 14:28

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Roberto Rocha/Encontro
O Museu do Escravo, em Belo Vale: casarão que abriga quase 4 mil peças antigas será reformado neste segundo semestre (foto: Roberto Rocha/Encontro)
O casarão imita o estilo colonial das edificações mineiras do século XVIII, mas o que ele abriga representa um capítulo verídico da história do Brasil. Fica em Belo Vale, a 86 km de Belo Horizonte, no Vale do Paraopeba, o único museu do país inteiramente dedicado à escravidão, período que compreende os anos de 1530 a 1888. A importância histórica do lugar atraiu a atenção de professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Eles estão mergulhados no processo de requalificação do espaço, que abriga quase 4 mil objetos antigos. A iniciativa faz parte de ação de compensação ambiental do Grupo Gerdau, que atua na região. Além de melhorar a parte estrutural do museu, a meta é inserir reflexões contemporâneas acerca do tema.

Roberto Rocha/Encontro
O coordenador do projeto de requalificação do museu, José Eustáquio Machado: "A sintonia entre o grupo de trabalho, a prefeitura e a comunidade tem sido fundamental" (foto: Roberto Rocha/Encontro)
O protagonista de toda essa história é o padre belo-valense Luciano Penido, de 94 anos. Há três décadas, ele conseguiu o terreno para construir o prédio no centro do município, atrás da igreja matriz de São Gonçalo da Ponte, datada de 1764. O lugar passou a ser ocupado por antiguidades que o então administrador da basílica Senhor do Bom Jesus, em Congonhas, conseguiu por meio de doações. "Construí o museu para dar relevo à minha querida cidade e mostrar que a Igreja não era omissa em relação à questão dos escravos", diz o padre, que atualmente mora no Rio de Janeiro (RJ) e atua na paróquia de Santo Afonso, no bairro da Tijuca.

O casarão de seis cômodos e janelas grandes representa a Casa-grande. Ao fundo, fica a construção em formato de U, a Senzala, que abriga a reprodução do pelourinho, com a estátua de um negro amarrado em um tronco. "É a parte do museu pela qual as pessoas mais se interessam. Alguns sentem até arrepios", diz José Felipe Neto, um dos quatro monitores. Lá estão expostos instrumentos de tortura, de trabalho e um túmulo que guarda ossos de um escravo não identificado. Há ainda os objetos que fizeram parte do filme Zumbi - Quilombo dos Palmares, doados pelo cineasta Cacá Diegues.

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Algumas peças foram utilizadas nas filmagens do filme Zumbi - Quilombo dos Palmares, de Cacá Diegues (foto: Roberto Rocha/Encontro)
Mas é na parte interna do casarão que os visitantes têm acesso a uma infinidade de peças: pratarias, utensílios domésticos antigos, imagens sacras e documentos que datam do período da abolição da escravatura. "A sintonia entre o grupo de trabalho, a prefeitura e a comunidade tem sido fundamental", diz José Eustáquio Machado, coordenador do projeto de requalificação arquitetônica e museológica do espaço e que pretende transformá-lo em mais um polo de cultura da região (veja o mapa no fim do texto).

Eduardo França Paiva, professor do Departamento de História da UFMG, também está à frente dos trabalhos de requalificação. Seu objetivo é propor um olhar mais amplo sobre o tema. "É importante reconhecer o papel que os escravos tiveram na construção do Brasil, na forma de falar, de organizar a família e de se relacionar com a fauna e a flora", diz Eduardo, uma das referências do assunto no país. Ainda de acordo com o professor, outro desejo é o de mostrar que a escravidão não existiu apenas nos engenhos ou casarões, mas também na parte urbana das cidades nos séculos XVIII e XIX.

Responsável pela revitalização museológica, o professor Renné Lommez Gomes está diante de um grande desafio, até porque o  museu não será fechado para as reformas. "A mudança é lenta e delicada. Lida com arquitetura e restauro de objetos. Qualquer passo em falso pode colocar tudo em risco", explica ele, que já trabalhou em outros projetos museográficos importantes, como do Memorial Minas Gerais Vale, na praça da Liberdade. Há muito trabalho pela frente, mas Lommez revela que a principal motivação está no entorno do casarão. "Fui seduzido pela forma carinhosa com que a comunidade enxerga o museu", diz. Belo-valense e uma das monitoras do espaço, Grasiele Regina Ribeiro ressalta que as visitas vêm aumentando e a ideia é manter a interação, sobretudo, com a comunidade negra da região. "Isso faz parte da história de todos nós", diz a moça, que participa da festa de congado, realizada em outubro. O museu é um dos pontos de passagem do cortejo. "É a nossa porta de entrada", diz Eliana dos Santos, secretária de Cultura da cidade e coordenadora do museu. Para ela, o lugar tem um potencial muito grande para atrair mais turistas do país e do exterior.

Apesar de não muito visíveis, algumas ações já foram executadas, como a criação de um banco de dados para catalogação do acervo, um inventário e a contabilidade das peças. Neste segundo semestre, terão início as obras emergenciais, custeadas pela prefeitura da cidade. Cerca de 250 mil reais serão gastos com reparos na fundação, no telhado e nas paredes que apresentam infiltrações. "Aproximadamente 70% dos nossos turistas chegam aqui atraídos pelo museu", diz José Lapa dos Santos, prefeito de Belo Vale. Motivos não faltam para valorizar e preservar um importante capítulo da nossa história.

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Jornal publicado no dia da abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, é um dos itens do Museu da Escravidão (foto: Roberto Rocha/Encontro)

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Algemas de braços e pernas, usadas para evitar a fuga de escravos, também faz parte do acervo do museu, em Belo Vale-MG (foto: Roberto Rocha/Encontro)

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