O guardião da memória

O arquiteto e urbanista coordena projetos que valorizam a história do Vale do Paraopeba, região do estado que remonta à época do ouro

por Rafael Campos 11/01/2017 14:03

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Roberto Rocha/Encontro
O arquiteto e urbanista José Eustáquio, em Belo Vale: "Passei a acorrer atrás de novos conhecimentos com o único objetivo de tornar o mundo mais humano" (foto: Roberto Rocha/Encontro)
Patrimônio

José Eustáquio Machado 
60 anos
Nasceu em Corinto (MG)
Casado, 2 filhas
Arquiteto e urbanista pela UFMG, mestre em tecnologia/educação tecnológica pelo Cefet e doutor em geografia espacial pela Unesp-Rio Claro (SP)

Na década de 1980, José Eustáquio Machado ganhou o maior presente de sua vida: as filhas gêmeas Violeta e Julia. Ele, a mulher, Miriam, e as meninas moravam no bairro Carlos Prates, região Noroeste de Belo Horizonte. Certo dia, ao sair com as crianças para brincar em uma praça perto de casa, teve uma triste surpresa. Os jardins eram repletos de plantas conhecidas como coroas-de-cristo, aquelas com espinhos, cujas folhas liberam um líquido viscoso que pode até cegar. Ele ficou indignado. "Era a única praça perto de casa e a vegetação oferecia riscos." Recém-formado em arquitetura e urbanismo pela UFMG, a situação significou uma guinada em sua atuação. "Minhas ideias foram colocadas em xeque", afirma Taquinho, como é mais conhecido. "Passei a correr atrás de novos conhecimentos com o único objetivo de tornar o mundo mais humano."

O destino resolveu dar uma mãozinha. Ele e sua mulher decidiram procurar um sítio para os fins de semana. Foi quando conheceram a região do Vale do Rio Paraopeba, formada por municípios como Brumadinho, Belo Vale, Bonfim e Moeda. Ficaram encantados e passaram a desbravar o lugar em um "jipinho" e, claro, com as crianças a bordo.

Taquinho foi convidado então a atuar em um projeto envolvendo a metalúrgica Gerdau e o Ministério Público. A empresa precisava dar contrapartidas por causa da exploração de uma mina de ferro na região. O arquiteto e urbanista, um apaixonado pelo patrimônio histórico, uniu o útil ao agradável. "A região do Vale do Paraopeba mantém uma Minas Gerais ancestral. Lá, os modos de vida dos últimos séculos são preservados", diz Taquinho, que poderia, assim, contribuir para a conservação da cultura local e valorizar, sobretudo, as pessoas.

Hoje, ele coordena a requalificação do Museu do Escravo, em Belo Vale, a 86 km de BH. Trata-se do único museu integralmente dedicado à escravidão, com acervo que reúne mais de 4 mil peças. O projeto está a pleno vapor. Já foi criado, por exemplo, banco de dados para catalogar os objetos que remontam ao século XVIII. Além disso, Taquinho batalhou e conseguiu que as obras emergenciais do casarão que abriga as peças fossem custeadas pela prefeitura da cidade. Ele sabe que, além da importância histórica, o espaço representa a identidade de seus moradores. Tamanho compromisso com o projeto exigiu alguns sacrifícios. "A verba não era suficiente para tanto trabalho, por isso, achei melhor abrir mão do meu pagamento", afirma o arquiteto, que conseguiu que os seus parceiros fizessem o mesmo. "Costumo atrair pessoas assim", diz.

Outro trabalho de Taquinho é no distrito de São Caetano da Moeda, mais conhecido como Moeda Velha. O vilarejo mantém ruínas de uma casa de fundição clandestina do século XVIII. Sua meta é conservar os vestígios históricos e contribuir para que os antigos moradores possam colher frutos por ter mantido praticamente intactos traços do passado. "Isso também é patrimônio", diz.

O arquiteto comanda desde 2012, ano de sua aposentadoria na UFMG, a Oficina da Casa Arquitetura, escritório que busca, como gosta de dizer, facilitar a vida das pessoas. Com as filhas criadas – hoje elas têm 29 anos -, Taquinho não pretende parar tão cedo a busca incessante por tornar o mundo mais humano, em outras palavras, com menos espinhos.

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