Kalil conversa com a Encontro sobre seus 100 primeiros dias à frente da PBH

Ele comemora a economia de quase 300 milhões de reais, diz que não aceita pressões e toma para si uma frase de Juscelino Kubitschek: "Deus poupou-me do sentimento de medo"

por Alessandro Duarte e Rafael Campos 20/04/2017 10:29

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Denis Medeiros/Encontro
(foto: Denis Medeiros/Encontro)
O estilo é o mesmo dos tempos de Atlético. As respostas são curtas e objetivas. Por vezes, nem é preciso terminar a pergunta para que Alexandre Kalil já comece a respondê-la. Contudo, o sorriso aparece mais fácil em seu semblante. Isso mostra que Kalil está feliz com o início dos trabalhos à frente da Prefeitura de BH. De segunda a sexta, das 9h às 21h, ele fica em seu gabinete no segundo andar da sede da PBH, na avenida Afonso Pena, no centro. A correria da agenda o impede de sair para almoçar. "Peço uma salada com frango todos os dias. Tenho de segurar a onda, né?", diz Kalil, que por falta de tempo não está tendo muitas oportunidades de cozinhar seu prato predileto, charutos árabes. Mas a conversa fica séria quando o prefeito revela o tanto que ainda está para ser feito em BH. A saúde é a questão que mais o preocupou neste início de caminhada, assim como os mais pobres, que ele chama de "povo invisível". Um dia depois de ter completado os primeiros 100 dias de sua gestão, o prefeito Alexandre Kalil recebeu a equipe de Encontro, quando falou dos avanços já conquistados, como a abertura total do Hospital do Barreiro, o desejo de assumir a gestão do Anel Rodoviário e sua rotina de administrador da terceira maior capital do país.

Denis Medeiros/Encontro
(foto: Denis Medeiros/Encontro)
ENCONTRO - O senhor está feliz?
ALEXANDRE KALIL - Estou feliz. Está tudo tranquilo, mas ainda temos um senso de responsabilidade muito grande, pois estamos começando o trabalho. E o começo é muito difícil. Acredito nesta equipe e vamos dar conta do recado.

O que mais o marcou neste começo de gestão?
A invisibilidade do povo mais pobre desta cidade. Não são pobres, são invisíveis. O poder público não tomava conhecimento deles. Impressiona ver que da classe média para cima ninguém tem noção da pobreza desta cidade.

E o que está sendo feito para tornar essas pessoas visíveis?
Vamos reformar 28 Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), os asilos. Isso não dá voto. Eles estão caindo aos pedaços porque não dão voto. São idosos carentes e jogados nesta cidade. Ora, que é isso? Temos de cuidar do povo invisível desta cidade.

O que o senhor encontrou na PBH que estava muito pior e o que estava melhor do que imaginava?
A Saúde estava pior. Não ter remédio nos centros de saúde é muito grave. Assustou-nos bastante precisar abastecer uma cidade como BH de remédios. Agora, sobre a melhor coisa é difícil. A cidade ficou muito tempo parada por problemas de orçamento. Portanto, é difícil nos surpreendermos positivamente.

De acordo com a última pesquisa do Instituto Paraná, 63,5% dos belo-horizontinos avaliam positivamente sua gestão. Isso lhe dá alguma satisfação?
Não. Ainda é muito cedo para esculhambar o prefeito e ainda é cedo para falar que ele é muito bom. Temos de caminhar dentro da realidade. Noventa ou 100 dias é muito pouco. Nada disso me encanta. Nós ainda não começamos a botar nosso bloco na rua. Estamos começando a mexer o doce. Ele ainda não borbulhou. Pesquisa eu respeito, mas não muda meu jeito de pensar.

O senhor faz planos para a carreira?
De jeito nenhum. Isso é coisa de gente burra. E uma coisa que não sou é burro. Quem faz isso não está cuidando do que tem de cuidar. Tem de fazer plano para melhorar o trânsito, a segurança, a saúde...
Quem fazia muito plano neste país, agora, está tendo de fazer plano para não ser preso. Quem faz plano pensando em si mesmo, agora, está fazendo plano para ver qual quentinha vai comer.

A relação com a Câmara Municipal foi conturbada no início da gestão, o que culminou com a saída de seu líder de governo, o Gilson Reis (PCdoB), depois de 20 dias de escolhido. E o senhor precisa dos vereadores para aprovar projetos importantes, como a reforma administrativa...
Não há projetos importantes. Só a reforma administrativa. E ela está sendo feita, tocada a pleno vapor com o corte de secretarias e a diminuição de cargos comissionados. Só no primeiro bimestre, em relação ao mesmo período do ano passado, economizamos 285 milhões de reais. O que aconteceu é que demoramos para nos fazer entender. Demoramos também para entender a Câmara. Quando assumi pessoalmente essa conversa, construímos uma maioria e levamos com tranquilidade. Atender as demandas republicanas e legítimas do Legislativo é uma obrigação. E estamos fazendo. Atendi os movimentos sociais. É um ato de sensibilidade do prefeito entender que eles existem. Não podemos ignorá-los nem obedecer a eles.

Denis Medeiros/Encontro
"Ainda é muito cedo para esculhambar o prefeito e ainda é cedo para falar que ele é muito bom. Temos de caminhar dentro da realidade" (foto: Denis Medeiros/Encontro)
O senhor está satisfeito com Leo Burguês (PSL) como seu representante junto aos vereadores? Muita gente criticou a escolha.
Estou satisfeito. Sempre vai haver algum motivo de chiadeira. Se você for pegar o caso das coxinhas (quando era presidente da Câmara, Burguês foi acusado de privilegiar o bufê de sua madastra na compra de lanches para a Casa), não é nada perto do prejuízo estimado de 6 bilhões de dólares na Petrobras, por corrupção e má gestão. Todo mundo chia. Você tem de acostumar a ter coragem. Se você não tiver coragem, não governa.

Esse foi um aprendizado dos 100 dias de governo?
Não. Foi um aprendizado da minha vida mesmo. Escuto todo mundo e sou obrigado a aprender com todos. Mas não tenho medo de ninguém. Até lembrando uma frase de um homem que sentou nesta cadeira e que vou plagiar: "Deus poupou-me do sentimento de medo". Quem dizia isso era JK.

A prefeitura anunciou mais uma revitalização do hipercentro. Muitas das medidas anunciadas já foram executadas em um passado recente, como a retirada de camelôs. Como evitar que tais problemas retornem no futuro?
Esses problemas retornaram porque deixaram. Estava resolvido. Era só tomar conta do hipercentro. Conseguiram limpar o centro e simplesmente não tiveram a coragem de manter o trabalho. Vamos ter de refazer um trabalho que estava pronto. Isso é jogar dinheiro fora. É um serviço complexo que envolve a parte de ação social, de segurança pública e de política urbana. Estava marcado para ser feito em 60 dias. Aí o Ministério Público nos pediu mais 30, então vai se prorrogar por 90 dias. Temos de levar os ambulantes para um lugar onde eles possam trabalhar. Já cadastramos a maioria deles e 90% vêm do desemprego da construção civil.

O senhor foi a Brasília cobrar dinheiro para a Saúde. E voltou satisfeito. Como tem sido sua relação com os governos federal e estadual?
Não voltei muito satisfeito porque, apesar de a conversa ter sido boa, há muito trabalho a ser feito ainda. Mas o certo é que vamos abrir o Hospital do Barreiro. A abertura será em três etapas. A primeira em julho, a segunda em agosto e a terceira em outubro, quando ele vai funcionar 100%. Esse cronograma está pronto e o compromisso do governo federal está feito. A relação tem sido boa, tanto com o governo federal quanto com o estadual.

O aeroporto da Pampulha vai voltar a operar voos comerciais? Como o senhor vai contornar a queixa dos moradores do entorno?
Todo mundo chia. O interesse não é de quem está no entorno. É da maioria. Quem está no entorno do Mineirão também se queixa do estacionamento. Mas o Mineirão já existia quando construíram casas ali. A mesma coisa sobre o aeroporto da Pampulha. Veja a data de construção dele e a data do bairro Jaraguá. Todo mundo que construiu lá já sabia do aeroporto. Se você for escutar a queixa de quem mora perto, a cidade não ganha. Vamos revitalizar uma área que está morta. BH é a única cidade grande que não tem um aeroporto. Se depender de nós, a revitalização vai sair.

Após um acidente grave no Anel Rodoviário, o senhor manifestou o desejo de assumir a gestão da via, hoje do Dnit. Isso seria viável? Não iria onerar ainda mais a PBH?
Mesmo antes do acidente, quando recebemos o pessoal do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes), solicitei que me dessem os projetos e o dinheiro para realizá-los. Assim eu transformaria o Anel em uma grande avenida. Temos ali uma questão de polícia, de ordem. Conseguiríamos também resolver os gargalos que mais congestionam. Mas parece que não interessa a ninguém passar a gestão da obra.

Isso seria feito com dinheiro do Dnit?
O Dnit tem o dinheiro. Isso não é coisa para prefeitura assumir. Eu assumiria a parte técnica do problema. Poderia colocar agentes da BHTrans, da Guarda Municipal, mas o dinheiro para a obra eu preciso receber.

O novo terminal rodoviário e o novo centro administrativo são projetos que foram deixados mesmo de lado ou o senhor está mudando de ideia?
Só burro não muda de ideia, mas ninguém ainda me convenceu de que seria boa ideia tirar um ou outro do papel.

Denis Medeiros/Encontro
"Quem fazia muito plano neste país, agora, está tendo de fazer plano para não ser preso" (foto: Denis Medeiros/Encontro)
Por que resolveu se comunicar com os moradores pelo Twitter? É o senhor mesmo quem escreve?
Tenho Twitter há sete anos. É a ferramenta que eu sempre usei. Do mesmo jeito que usei no Atlético, eu uso na prefeitura. É uma ferramenta independente de comunicação da qual não abrimos mão. Não sou eu quem digito, mas o que eu falo tem de sair ipsis litteris.

Ainda sobre o Twitter, muitos dos seguidores se referem ao senhor como "pai", herança do Ronaldinho Gaúcho, que o chamou assim depois da conquista da Taça Libertadores. O senhor se diverte com isso?
Acho muito legal o carinho que a torcida do Atlético tem comigo. Espero que os cidadãos belo-horizontinos também tenham. É uma forma carinhosa de ser reconhecido. Ninguém chama quem não gosta de pai.

O senhor manteve alguma atividade que tinha antes de ser prefeito?
Todas. Tomo chope, vou para o sítio e ando de motocicleta. Isso aqui é uma vida normal. Anormal é o Atlético. Ali não tem sábado ou domingo. Mas sou o prefeito e fico com o celular ligado. Quando caiu uma forte chuva em BH (18 de março), eu estava de pijama vendo televisão. Aí tive de levantar, botar a calça e ver o que tinha acontecido. A PBH não me dá casa, só me dá um carro, que piorou. Antes era um importado, hoje é um Fusion. E tem ainda a segurança, com a qual tenho de me acostumar. Mas estou me acostumando. São dois seguranças. Um é atleticano e o outro é cruzeirense. Bom que tem um para me zoar e outro para reclamar.

O senhor continua trazendo almoço para a prefeitura?
Sim. Não dá tempo de ir a restaurante. Aí a comida vem cá. Compro a comida com meu dinheiro. Peço a mesma coisa todos os dias, uma salada com frango.

Qual é a sua comida predileta?
Não é salada com frango (risos). É o charutinho árabe. Sou eu que faço. Mas tem de segurar a onda também, né? Se comer risoto todo dia, com essa tendência que eu tenho, vou explodir. Estou com a boca bem fechadinha.

Qual é a sua reação quando o comparam com o Dória?
A comparação é infeliz. Ele tinha de três a quatro minutos no horário eleitoral. Eu tive 20 segundos na TV. Ele já teve cargo no governo federal. Eu nunca. Sou completamente diferente dele. Não quer dizer que eu seja melhor ou pior, mas diferente. Tenho outro estilo de vida. Outro estilo de pensar as coisas.

Alguns vereadores o questionaram sobre os 40 mil reais gastos na viagem a Brasília. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
As viagens sempre aconteceram aqui na prefeitura. Mas elas não apareciam no DOM (Diário Oficial do Município). Eu vou colocar todas no DOM. Isso é transparência. Foi a primeira e não será a última. Fui lá e tive uma agenda marcada às pressas com o presidente Michel Temer. Fui ao Ministério das Cidades e à Caixa Econômica Federal. Eu me reuni com 30 deputados e levei 18 parlamentares ao Ministério da Saúde. Garantimos nessa viagem a reabertura do Hospital do Barreiro e conseguimos mais 9 mil apartamentos para a desapropriação da região do Izidora. Mas esse questionamento é culpa do jeito capiau de ser. Somos a terceira capital do país. Achar que não posso fretar avião é coisa medíocre, de capiau. Tirei esse ranço do Atlético e vou tirar esse ranço da prefeitura. Isso é complexo de inferioridade. E eu não tenho isso.

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