Afinal, consumir leite faz mal ou não?

Especialistas ainda divergem sobre se há mais vantagens ou malefícios. Mas todos concordam em uma coisa: é essencial garantir a ingestão de nutrientes como cálcio e proteínas, mesmo que por outras fontes

por Marina Dias 30/03/2017 15:45

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A polêmica da ingestão de leite (e lácteos, em geral) ainda está longe de acabar. O alimento, que por séculos foi considerado não só importante como essencial na rotina alimentar humana, começou, há algumas décadas, a ser apontado como maléfico e agente causador de determinadas doenças. De lá para cá, já foram feitas pesquisas com resultados para ambos os lados e nem entre especialistas há consenso sobre o tema.

Primeiro foi a vez da gordura do leite, na época em que gorduras estavam sendo apontadas como vilãs e principal motivo para aumento da obesidade, infarto e outras condições. Foi quando se passou a indicar o consumo de leites e iogurtes desnatados ou semidesnatados - ou seja, com redução do teor de gordura -, que mantinham as propriedades positivas do alimento sem prejudicar o corpo. Em seguida, foi a vez da lactose, açúcar do leite que algumas pessoas vão perdendo a capacidade de digerir ao longo dos anos. A intolerância a esse açúcar se tornou outro motivo para os lácteos serem questionados, e uma profusão de produtos sem lactose tomou conta das prateleiras de supermercados. Tudo na intenção de se garantir a ingestão de laticínios aos consumidores, apesar das indagações.

Washington Possato/Divulgação
"Se você gosta, pode continuar tomando, sim. A Organização Mundial da Saúde (OMS), aliás, recomenda o consumo de três porções de laticínios por dia", diz Márcio Atalla, educador físico pós-graduado em nutrição (foto: Washington Possato/Divulgação)
"Os questionadores são minoria", diz o educador físico pós-graduado em nutrição Márcio Atalla, que esteve em BH para a 2ª edição do Circuito de Palestras #BebaMaisLeite. "Nas classes C, D e E, por exemplo, essa discussão quase não existe. É pequena a parcela da população influenciada por essa linha de pensamento, que ainda carece de pesquisa científica." Segundo Atalla, o leite é considerado um alimento de alta densidade, o que quer dizer que tem baixa quantidade de calorias para a alta quantidade de nutrientes.  Além disso, ele afirma que laticínios são uma opção acessível para ingestão diária de proteína e cálcio, essenciais para a saúde humana. "Se você gosta, pode continuar tomando, sim. A Organização Mundial da Saúde (OMS), aliás, recomenda o consumo de três porções de laticínios por dia", completa.

A necessidade de cálcio é um dos principais motivos pelos quais os defensores do leite indicam seu consumo. Entre outras propriedades, o mineral é um dos componentes que garantem a saúde dos ossos e previnem a osteoporose. "Os lácteos são os principais produtos que temos hoje para fornecer a quantidade ideal de cálcio", explica Márcio Lauria, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - regional Minas. Para se ter ideia, a recomendação de ingestão diária de cálcio para adultos entre 19 e 50 anos é de 1000 mg [a título de comparação, um copo de leite possui cerca 244 mg]. De acordo com o endocrinologista, alguns produtos de origem vegetal também contêm grande quantidade do mineral, como as verduras verde-escuras. No entanto, a biodisponibilidade dos lácteos, ou seja, sua eficácia de absorção, é maior do que a de outras fontes de cálcio. "Então a quantidade de alimento a ser ingerida para se obter a mesma quantidade do elemento teria de ser muito grande", afirma.

Correntes contrárias ao consumo do leite questionam a relevância dos lácteos para o controle da osteoporose, citando o "paradoxo do cálcio": o fato de países entre os maiores consumidores de laticínios também estarem entre os que mais têm casos da doença. A OMS reconhece o paradoxo, mas sugere cautela ao invocá-lo. Também é como se posiciona a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. "A questão é baseada em estudos observacionais, então é preciso cuidado na interpretação. A observação poderia ser também de que o caso seria pior se não houvesse a ingestão de cálcio nesses povos", afirma o endocrinologista. "É como dizer que caminhar engorda, pois alguém observou que há muitas pessoas acima do peso caminhando. Desconheço estudos que tenham demonstrado o paradoxo pelo método da intervenção, e não da observação."

Pedro Nicoli/Encontro
"O nosso corpo não está preparado para absorver todos os elementos do leite de vaca. O leite materno, para o qual estamos adaptados, não contém os mesmos elementos, nem na mesma quantidade", esclarece o nutrólogo Lucas Penchel (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Entre os profissionais contrários à ingestão do leite está o nutrólogo Lucas Penchel. Segundo ele, além das pessoas que têm intolerância à lactose ou alergia a proteínas do leite, há a possibilidade de se ser hipersensível ao alimento, o que pode causar inúmeros sintomas, como queda de cabelo, alteração imunológica, problemas intestinais, entre outros. "Há exames genéticos e de sangue que podem ser feitos para identificar hipersensibilidade. Mas peço a meus pacientes fazerem o teste de ficar um mês sem laticínios. Até agora, todos reportaram melhorias em diferentes sintomas, como menos TPM, pele menos oleosa e imunidade melhor", afirma. "Eles não precisam acreditar em mim. É só fazer o teste", garante.

Penchel explica que a caseína, uma das proteínas do leite, é altamente inflamatória para o corpo humano. "O nosso corpo não está preparado para absorver todos os elementos do leite de vaca. O leite materno, para o qual estamos adaptados, não contém os mesmos elementos, nem na mesma quantidade. Além disso, o leite tem inúmeros aditivos para manter a validade alta, a conservação etc.", diz.

O nutrólogo afirma que já há vários estudos científicos que indicam malefícios do consumo de leite, mas que esse hábito é tão institucionalizado - "tem apoio do governo, pressão das indústrias" - que é difícil mudar a mentalidade e retirar o produto da rotina alimentar, mesmo sendo possível substituir seus nutrientes por outras fontes. "De fato, ainda não é consenso na comunidade científica, mas toda teoria passa por três etapas: primeiro, é ridicularizada, depois, contestada e, por fim, aceita", diz. E completa afirmando que essa teoria estaria na segunda etapa, senão, não haveria estudos sendo feitos a respeito ou tantos eventos realizados para divulgar posições a favor e contra seu consumo.

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