Conheça a nova geração de profissionais do design de interiores

Ambientes abertos e integrados, janelas e portas escancaradas para a paisagem e referências vindas do Instagram. Os novos arquitetos e designers estão conectados ao mundo, mostram-se atentos aos desejos dos clientes e usam uma linguagem moderna em projetos cheios de história

por Carolina Daher 13/06/2017 14:38

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Paulo Márcio, Cláudio Cunha e Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Paulo Márcio, Cláudio Cunha e Ronaldo Dolabella/Encontro)
Ele não vê a hora de nascer os primeiros cabelos brancos. Aos 31 anos, o designer de interiores Pedro Felix, que se forma em arquitetura neste semestre, sente um certo preconceito quando se vê diante de um novo cliente. "A cara de menino assusta e, às vezes, até atrapalha fechar um negócio", diz. Do outro lado, o freguês torce o nariz quando pensa em entregar um projeto grande para alguém que não aparenta ter muita experiência. Bobagem. O que poucos sabem é que tem uma nova geração de designers fazendo bonito no mercado da capital. Com trinta e poucos anos - os mais velhos estão no início dos quarenta - esses jovens vêm deixando sua marca com projetos ousados e cheios de personalidade.

Marcelo Alvarenga, de 43 anos, da Play Arquitetura, marcou de fazer a foto para esta reportagem em uma casa assinada por ele em um condomínio em Nova Lima. "Não tem número na frente, mas você logo vai ver um balanço na entrada", explicou. E lá estava o tal balanço enfeitando um imóvel localizado no alto de um terreno com uma vista deslumbrante para as montanhas. "Portas abertas, ambientes integrados e o aproveitamento máximo da natureza ao redor, seja através de um jardim ou da paisagem, isso é moderno", diz ele.

Com muitas viagens no currículo, passagens por escritórios de renomes e cursos em outros países, as novas caras da arquitetura e do design mineiro têm em comum um despojamento natural de quem tem um mundo inteiro pela frente para conquistar. Eles são conectados. Têm acesso ao que se faz aqui e do outro lado do planeta. Marina Dubal, por exemplo, coleciona revistas especializadas do Japão e da Suécia. "Quero beber de outras fontes", diz, no auge de seus 36 anos. Já Ana Lívia Werdine, de 34, está sempre ligada nas redes sociais. Hoje, cerca de 20% dos seus clientes vêm através do Instagram. "Por ali, ele já sabe se meu estilo combina com o dele."

Para o professor de arquitetura da PUC Minas Diogo Carvalho, de 32 anos, os novos profissionais estão cada vez mais interessados em entender o processo da criação. "Hoje sabemos que a criatividade não é um dom e, sim, uma habilidade humana passível de desenvolvimento, assim eliminamos o mito do arquiteto gênio", explica. Com isso, qualquer um está pronto para criar espaços e produtos de qualidade. "E eles estão muito atentos às novas tecnologias." Camila Ferreira, de 35 anos, é uma que entendeu que a verdadeira função do profissional é aliar a técnica aos desejos dos clientes. "As pessoas querem um arquiteto que escute. Afinal, a casa é delas", diz.

Sarah James, a caçula da turma, com 30 anos, é defensora da liberdade máxima na arquitetura. Sua inspiração vem de mulheres da metade do século passado, como Ray Eames, Charlotte Perriand e Florence Kanoll, que revolucionaram o jeito de morar. Em pleno século XXI, ela faz o mesmo. "Não existe certo ou errado. Uma pessoa pode muito bem querer não ter uma cozinha em casa e outra pode querer transformar a sala inteira em uma cozinha. Por que não?", questiona. "Nada é mais contemporâneo do que viver do jeito que se quer, sem precisar seguir modelos."

Conheça a história de sete profissionais que não têm medo de quebrar tradições e estão reiventando o jeito de o mineiro morar.

Dupla com bagagem

Paulo Márcio/Encontro
(foto: Paulo Márcio/Encontro)
Marcelo Alvarenga, de 43 anos, e Juliana Figueiró, de 42, formam a Play Arquitetura - nome que vem de Playmobil, apelido de Marcelo nos tempos de faculdade. Foi nos corredores da UFMG que a dupla se conheceu. Mas só em 2008, quando Juliana retornava de um mestrado de três anos em Barcelona e Marcelo deixava o escritório de Isay Weinfeld, em São Paulo - onde trabalhou por sete anos -, eles resolveram fundar o próprio escritório. "Temos por hábito o coletivo e na arquitetura é sempre bom não ficar em um único universo e ter mais de um olhar", explica Marcelo. Entre suas obras está uma casa de 800 m2 em Nova Lima. Lá, eles fincaram um imóvel exuberante, cercado por uma vista de 360 graus. "Nossa marca é uma arquitetura bem detalhada, que não quer dizer enfeitada", diz Juliana. Linhas retas, formas simples, cores neutras, espaços claros e amplos. Para Juliana, o chamado design escandinavo continua em alta. "Alguns profissionais conhecidos nacionalmente, tais como o Isay e o Marcio Kogan, acabaram determinando um estilo de morar", diz Marcelo. Ou seja, casas com portas abertas para o exterior, que tiram partido máximo da natureza. "Despojamento, essa é a palavra", completa Marcelo.

Filippo Bamberghi/Divulgação
Na sala de jantar, o clássico permeia a decoração, com objetos como a mesa Jorge Zalszupin e as cadeiras Lucio, de Sergio Rodrigues (foto: Filippo Bamberghi/Divulgação)

Filippo Bamberghi/Divulgação
Em um dos recantos, chamam atenção as poltronas LC1, de Le Corbusier, Charlotte Perriand e Pierre Jeanneret (foto: Filippo Bamberghi/Divulgação)

Ricardo Bassetti/Divulgação
Na loja Coven Printing, em um sobrado paulistano, as araras ora servem para expor vestidos, ora servem como luminárias (foto: Ricardo Bassetti/Divulgação)


Bebendo em outras fontes

Cláudio Cunha/Encontro
(foto: Cláudio Cunha/Encontro)
A casa de Marina Dubal, de 36 anos, localizada em condomínio em Nova Lima, é a tradução do estilo da arquiteta: elegante e minimalista - mas longe de ser sem graça. Na sala principal, a parede de pedra ganha calor com obras de arte como o quadro de tapeçaria do artista Kennedy Bahia. "Isso me faz lembrar a casa da minha avó. A composição de cores é incrível e é a cara do Brasil", diz. Tudo ali faz sentido. É assim também quando ela faz o projeto para um cliente. "Procuro escutar a história da pessoa", diz Marina. Com passagem rápida pela Anastasia Arquitetos, um ano após se formar pela UFMG ela abriu seu próprio escritório, em 2006. "Sempre busquei muitas referências e tinha uma inquietação, uma vontade de fazer as coisas do meu jeito. Logo percebi que tinha um perfil independente e que naturalmente precisaria do meu espaço."

Marina está sempre de olho em novos talentos, gente da sua geração. A cadeira da cabeceira de sua mesa de jantar é do designer carioca Gustavo Bittencourt, de 31 anos. "Comprei pela internet", afirma. Além da rede virtual, a arquiteta tem uma coleção com várias revistas de decoração do mundo inteiro, como Japão, China, Alemanha e Suécia. "Tem muita gente bebendo da mesma fonte, eu quero saber o que está acontecendo em outros lugares do mundo."

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Na casa dos anos 40, em Lourdes, Marina reaproveitou boa parte dos móveis antigos da família, criando um ambiente harmonioso (foto: Divulgação)

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Com paredes e teto de concreto, a arquiteta apostou no quadro de Fernando Lucchesi e no piso de madeira de demolição para aquecer o espaço deste imóvel em Nova Lima (foto: Divulgação)

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(foto: Divulgação)


Simplicidade com conteúdo

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Ele demorou a se encontrar. Nascido em Nova Serrana, a pouco mais de 100 km de BH, Pedro Felix, 31 anos, fez seu primeiro vestibular para direito. Foi até o sétimo período. Descobriu que não era esse o seu caminho. Largou tudo e passou um ano estudando na Nova Zelândia e Austrália. Ao voltar para sua cidade, começou a trabalhar com o pai na empresa de calçados da família. Ainda não era a sua história. Foi fazer um intercâmbio em Nova York. Ali, apaixonou-se por arte contemporânea. "Ao voltar, sabia que queria fazer design", conta. Três meses depois estava em Belo Horizonte, cursando design de interiores na UNA - atualmente está no 8º período de arquitetura no Izabela Hendrix.

Pedro está em todas as listas de novos talentos mineiros. Divide sala com a arquiteta Ana Clara Mattar, de 22 anos. Atualmente, eles trabalham em 15 projetos simultaneamente. "Não acho que quem procura um arquiteto está apenas atrás de funcionalidade. Isso é nossa obrigação. O cliente quer mais. Quer conviver com o belo." Muitos vão até o escritório em razão do Instagram dele - são mais de 18 mil seguidores. Pedro está sempre conectado e não dorme antes das duas da manhã. "Já cheguei a trabalhar mais de 12 horas por dia. Agora, quando chego da faculdade, faço questão de ter um tempo para o que gosto, normalmente pesquisa", diz, rindo.

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A cadeira de 1950 de Joaquim Tenreiro contrasta com a luminária de xangai de Ana Neute (foto: Divulgação)

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Em um ambiente em que o caramelo é predominante, o pendente Melt, do inglês Tom Dixon, dá um ar futurista à mesa de Aristeu Pires e às cadeiras do Estúdio Bola (foto: Divulgação)

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Conhecido pelo minimalismo, o arquiteto transformou uma antiga copa em sala de estar (foto: Divulgação)


Liberdade máxima

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Três arquitetas fazem a cabeça de Sarah James, de 30 anos: a americana Ray Eames, mulher do arquiteto Charles Eames e uma das responsáveis por muitos ícones de design do século XX; Charlotte Perriand, francesa que foi parceira de Le Corbusier; e Florence Knoll, que mudou completamente a forma como as pessoas moravam nos anos 1950. "O que elas fizeram será importante para sempre. Então, acho que, inconscientemente, sigo esse modelo. É a minha luta particular pelo feminismo", diz a designer formada pela PUC Minas em 2011.

Esse pensamento acaba influenciando seu trabalho. A maior parte de sua clientela é formada por mulheres. "É engraçado porque muitas estão vivendo um recomeço de vida, quando os filhos saem de casa e elas estão se reinventado." Para Sarah, o mais importante em um projeto é exatamente respeitar a história de cada cliente. Em um apartamento no tradicional edifício Niemeyer, vizinho à Praça da Liberdade, ela criou na sala um ambiente onde o banco de papelão de Frank Gehry dialoga com esculturas de Alfredo Ceschiatti e castiçais barrocos vindos de Tiradentes. "Não existe certo ou errado. O futuro da arquitetura é exatamente explodir as regras."

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O piso de pastilha hexagonal estilo anos 50 e o tapete que lembra um brasão conferem uma mistura de sensações a este closet (foto: Jomar Bragança/Divulgação)

Henrique Gualtieri/Divulgação
Neste escritório, a estante ganhou objetos de arte popular e peças de memória (foto: Henrique Gualtieri/Divulgação)

Henrique Gualtieri/Divulgação
Em um apartamento do edifício Niemeyer, Sarah refez a iluminação segundo o projeto original do arquiteto carioca (foto: Henrique Gualtieri/Divulgação)


A rainha dos consultórios

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Filha do oftalmologista Almir Werdine, Ana Lívia Werdine, de 34 anos, não quis seguir a carreira do pai. O universo médico, no entanto, nunca deixou de existir na vida da arquiteta. Ela acabou se tornando queridinha entre os doutores da cidade. Já assinou o projeto de mais de 15 consultórios na capital. "Hoje os médicos estão preocupados com o requinte no atendimento. Os ambientes têm estilo, com peças de design", afirma.

Um dos maiores diferenciais de Ana Lívia é acompanhar pessoalmente todos os processos, da criação à execução das obras. "Não passo de 10 projetos por vez", diz ela, que aposta sempre em linhas retas e ambientes mais limpos. "Não gosto de ambientes cheio de coisas. É importante circular, até mesmo energia." A arquiteta é uma estudiosa de feng shui e abusa dos materiais naturais. Constantemente, tenta convencer seus clientes que menos é mais. "É importante mostrar que é mais importante ter uma peça bacana e de qualidade do que um monte de coisas mais ou menos", afirma Ana Lívia, que é fã do designer catarinense Jader Almeida e do mineiro Marcelo Ligieri. Formada pela Fumec em 2008 e com especialização em design de interiores no Istituto Marangoni, em Milão, Ana Lívia tenta fugir do que está na moda. "Pendente de cristal e papel de parede com arabesco já deu, né?"

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No apartamento no Santo Agostinho, o uso de tom sobre tom criou uma atmosfera "acolhedora e atemporal" (foto: Divulgação)

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Neste escritório de 400 m2 em São Paulo, Lívia usou o pé-direito duplo e panos de vidro a seu favor (foto: Divulgação)

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Já no apartamento de um jovem casal no Vila da Serra, Ana Lívia quis criar espaços para eles receberem os amigos (foto: Divulgação)


Respeitando a história

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Pão de queijo, musse de limão e café quentinho sobre a mesa bem arrumada. Foi assim que a empresária Jussara Queiroz recebeu Camila Ferreira, de 35 anos, sua arquiteta há uma década, em sua casa em um condomínio em Nova Lima. "Costumo dizer que não tenho cliente, tenho amigos. Um projeto leva tempo e acabamos criando laços muito fortes", diz Camila, que também reformou o apartamento do filho da empresária, no Vila da Serra. "É uma delícia, porque entro para a família."

Formada pela Fumec em 2007, Camila conta que desde menina sabia que seria arquiteta. Ela ainda tem guardados seus cadernos da 4ª série do ensino fundamental. Ali estão, entre contas de matemática e lições de português, vários desenhos de plantas de edifícios que ela replicava de anúncios de jornais. O tempo passou, mas o desejo de construir a casa dos sonhos para os outros a acompanha ao longo da vida. Uma das grandes preocupações de Camila é o aconchego. Madeira está sempre presente em seus projetos. Ela também não tem medo de cor. "Cor traz alegria e traduz muito da personalidade dos moradores." Outra característica é respeitar a história dos objetos de família. Para uma cliente que coleciona relógios de parede antigos, ela criou um corredor com vista para as montanhas. Uma vitrine de antiguidades. Mais moderno, impossível.

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Em um apartamento de Lourdes, Camila usou os objetos adquiridos pelas proprietárias ao longo da vida, como a cadeira colorida, com a estante de Jader Almeida (foto: Divulgação)

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Neste dormitório, os quadros com fotos coloridas se destacam no papel de parede branco e prata (foto: Divulgação)

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No consultório de psicologia, a poltrona foi reformada e ganhou um tecido com padrão pied de poule (foto: Divulgação)

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