Entrevistamos o atual prefeito de Betim, Vittorio Medioli

À frente da Prefeitura de Betim há seis meses, ele comemora bons números e queixa-se dos problemas herdados da administração passada. Ele recorda-se do tempo em que ficou internado esperando um transplante de fígado, critica a classe política e diz que vai participar das eleições ao governo do estado, no ano que vem, apesar de garantir que não será candidato

por Alessandro Duarte e Rafael Campos 14/06/2017 09:00

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"Eu me elegi sem prometer um cargo. A cota dos partidos é pela competência" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Vestindo camisa social por dentro da calça jeans, o empresário e prefeito de Betim, Vittorio Medioli, dispensa luxos condizentes à sua posição de fundador de um dos maiores conglomerados empresariais do estado. "Já disse numa reunião que, enquanto os outros estavam em traje a rigor, meu traje era um horror", diz o espiritusoso político, que prefere, em vez do carro oficial, deslocar-se pela cidade usando seu Fiat Palio Weekend 2009. E haja gasolina, pois Medioli tem um grande desafio pela frente. Betim, a terceira maior cidade da região metropolitana, amarga dívidas milionárias e problemas sérios na saúde. Contudo, apesar de estar no início do mandato, ele revela que já conseguiu colocar a casa em ordem. Amante dos estudos religiosos e filosóficos, ele remete à metáfora da guerra para explicar seu método de trabalho. "Primeiro deve-se conhecer o campo de batalha e depois o perfil do adversário", diz. Durante entrevista a Encontro, o italiano Medioli falou, com seu sotaque carregado, apesar dos mais de 40 anos que mora no Brasil, sobre desafios na prefeitura, os negócios de seu Grupo Sada - que faturou 3 bilhões de reais no ano passado - e da amizade antiga com o prefeito de BH, Alexandre Kalil.

Quem é
Vittorio Medioli, 66 anos

Origem
Parma (Itália)

Formação
Graduado em direito pela Università degli Studi di Parma e em filosofia pela Università degli Studi di Milano

Carreira
Eleito prefeito de Betim pelo PHS em 2016, foi deputado federal (1991-2006). É empresário e dono do Grupo Sada que abrange setores como de transporte e logistica, autopeças, siderurgica, biocombustíveis, mídia e esporte.

ENCONTRO - Como foi o início dos trabalhos na Prefeitura de Betim?
VITTORIO MEDIOLI - Encontramos uma situação conturbada, com o sistema de saúde quase paralisado. Depois de quatro meses já registramos um resultado positivo. Os últimos prefeitos não se reelegeram devido à rejeição provocada pelo atendimento na saúde. Recebemos um sistema abandonado. Os servidores estavam desmotivados e colocamos a casa em ordem.

Já consegue registrar melhoras?
Aumentamos 90% a quantidade de cirurgias e reduzimos pela metade o prazo de permanência nos hospitais. Tínhamos aqui forte relação com o Cismep (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraopeba) e o custo era muito elevado e ineficiente. Conseguimos absorver todo o serviço desse consórcio e vamos encerrar o contrato. Chegamos ao primeiro quadrimestre deste ano com 174 mil consultas realizadas. No mesmo período do ano passado foram realizadas 63 mil. Apenas no mês de março tivemos 211 cirurgias, bem mais que as 88 registradas no mesmo mês de 2016. Hoje, há medicamentos nas farmácias. Pela primeira vez em 10 anos os indicadores da saúde estão melhorando.

Por outro lado, muito se falou da dívida do município...
A dívida vem de precatórios. Há um precatório da Construtora Andrade Gutierrez de 350 milhões de reais. Mais as custas processuais, o valor chega a 500 milhões de reais. Mas começamos a contestá-la. A dívida seria de 1982. Dei sinal verde para uma defesa mais enérgica. Foram levantadas provas contundentes que fulminaram a base reclamatória. Conseguimos resgatar documentos antigos. O Ministério Público deu parecer favorável e a Justiça suspendeu o pagamento. O processo está indo para Curitiba e para o Rio de Janeiro. Portanto, há indícios de que a dívida não era devida e não foi atacada como deveria. Atualmente, 90% dos precatórios são referentes à Andrade Gutierrez.

Como o senhor está acompanhando o atual cenário econômico?
O país está sendo reconduzido agora para um novo ciclo de crescimento, depois de ter sido esmagado. Mas o país poderia ser bem mais competitivo se simplificasse o seu sistema. Não há, no entanto, planos definidos. Não há planos de metas. Foi feito um investimento enorme no pré-sal, sem levar em conta a demanda de conversão para energia limpa, que é enorme. Esse investimento atendeu as empreiteiras, não o Brasil. Se tivessem apostado em energias limpas, estaríamos, hoje, num patamar diferenciado.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Quando você morre e ressuscita, a vida muda. Já tinha desistido" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Há saída para a crise?
É claro que, depois de três anos com a economia em queda, não há mais para onde cair. Temos 14 milhões de desempregados. E se você considera que a população do país cresce pelo menos 1,5% ao ano, o PIB teria de crescer, no mínimo, o mesmo 1,5%. Hoje, os indicadores de miserabilidade aumentaram assustadoramente. Aqui, em Betim, estão aparecendo doenças que tinham sumido. Estamos com epidemia de depressão, por causa do desemprego. Lançamos recentemente o programa Jovem do Bem (projeto que incentiva a contratação pela iniciativa privada). Imaginamos que teríamos 1,5 mil inscrições, mas chegaram 5 mil. Nosso objetivo é chegar ao final do ano com pelo menos 1,2 mil jovens empregados. Betim é o município que mais sofre com a crise. Houve queda brutal da produção industrial. Registramos o fechamento de 120 indústrias. Você anda pela cidade e vê 50% das portas fechadas. Nosso setor automotivo não é muito diversificado e sofreu com a queda de 40% nas vendas. A Fiat, ainda, transferiu grande parte de seu pessoal para Pernambuco.

O senhor fica assustado com rumores de que a Fiat vai se transferir totalmente para o Nordeste?

Não. A fábrica de Betim chegou a ser a segunda maior em produção do planeta. Eu a conheço pessoalmente e posso dizer que é muito eficiente, apesar de ter sido construída nos anos 1970. Ela tem a capacidade de produzir 3 mil carros por dia e hoje são poucas no mundo que conseguem. Nos últimos anos, a tendência do grupo FCA foi a de focar nos modelos VIP em vez dos modelos de entrada. Em seguida, entraram novas montadoras com fábricas mais modernas, mas a Fiat está fazendo um grande esforço. Está lançando o Argo, modelo com motor potente, econômico e com preços adequados. Eu já andei nele. A verdade é que a Fiat acredita muito nessa fábrica.

Seu governo traz marcas de gestão da iniciativa privada?
Há governos que são de tapar buracos e colocar esparadrapos. E há aqueles que são estruturantes. É como se fosse uma regra de guerra. Tem de conhecer o campo de batalha e depois o perfil do adversário. Tem de conhecer você mesmo, as suas potencialidades e gerar um plano de ação. É importante ainda ter o exército capacitado para enfrentar o plano de ação a fim de distribuir tarefas e metas. E, claro, cobrar. Em uma reunião recente, todos saíram radiantes, pois estavam vendo as coisas acontecerem. Na gestão, não há regras de público ou privado, há de se ter visão. Há o político da causa pública e o que se serve dela, duas coisas diametralmente opostas. Quando alguns preferem ser servidos, acontece a Operação Lava-Jato. Eu me elegi sem prometer um cargo. A cota dos partidos é pela competência.

Como surgiu a ideia de criar um aplicativo de táxi do município?
Durante a campanha eleitoral, todos os candidatos à Prefeitura de Betim foram procurados pelos taxistas. Eles queriam um compromisso  do poder público  para acabar com o Uber. Aí eu disse: "Só se mata uma coisa que funciona bem sendo melhor que ela". Tenho profundo conhecimento em logística. Nosso sistema operacional está sendo usado por 123 empresas do Brasil e do exterior. Temos um sistema que controla 5 mil caminhões. Aí criamos o Top Táxi. Todos os motoristas têm endereço, são habilitados, ou seja, eles são permissionários no sistema, e não é gente avulsa. O aplicativo oferece mais segurança que o Uber. Eles (Uber) vieram aqui querendo comprar o nosso aplicativo, mas negamos a venda. Só nas primeiras três semanas de uso, houve queda de quase 80% nas chamadas do Uber em Betim. Hoje, há cidades do Brasil inteiro querendo também.

Como é a rotina do senhor na prefeitura?
Pela manhã, geralmente, faço visitas, pois Betim é grande e tem de botar olho aqui e ali. E continuo usando meu carro particular, um Palio Weekend. Tem oito anos de idade, mas é blindado. Não gosto de ostentar. Esse relógio no meu pulso tem 14 anos. Uma vez, comprei um carro importado desses bacanas, mas ficou parado na minha garagem durante cinco anos. Tinha 240 km rodados. Uma pessoa insistiu para comprar de mim. Depois de um ano, ela espatifou o carro e morreu.

O senhor mora em Betim?
Tenho uma casa aqui em Betim, aliás, duas, uma no centro e outra num condomínio. Minha família continua morando na Pampulha. Pelo menos duas vezes por semana eu durmo na minha casa daqui. Na Pampulha, tenho casa desde 1982. Somos identificados muito com aquela região, mas minha vida empresarial e política é em Betim, desde 1986.

Continua tendo boa relação com o prefeito de BH, Alexandre Kalil?
Somos amigos há 40 anos. Ele sempre me admirou como político. A ex-mulher dele, a Gláucia, era muito amiga da minha mulher. A vida das duas amigas nos aproximou. Kalil sabe tudo de mim e a gente dele. Eu o conheci, praticamente, quando aterrissei em BH. Ele era amigo do meu sogro. Não discutíamos muito sobre política. Kalil sempre foi espirituoso, gostava de brincar e sempre demonstrou liderança. Disse-lhe, no início do ano passado, que ele tinha um caminho diferenciado dos políticos, não era contaminado. E, apesar da campanha curta, tinha índices de notoriedade elevados. Disse que ele era imbatível, era só não fazer besteira.

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O fato de ter ficado na fila de espera por um transplante de fígado e por sofrer as consequências da hepatite mudaram a maneira de encara a vida?
Quando você morre e ressuscita, a vida muda. Já tinha desistido. Se não fossem as minhas filhas (Daniela, 27, e Marina, 28), eu teria ido embora. Descobri a doença em 1994 e passei 10 anos de tratamento com Interferon, mas é muito penoso, pois poucas pessoas toleram. Minhas filhas e minha mulher, Laura, começaram a se aproximar mais dos negócios, pois eu passei dois anos mais para lá do que para cá. Entrei numa fila de transplante de São Paulo, pois aqui a fila não andava. Lá há um sistema logístico mais eficiente. Minas Gerais ainda não está preparada para isso. Fiquei na fila mais de seis meses. Cheguei a pesar 40 quilos, era pele e osso. Vivia fazendo transfusões e com a cabeça muito ruim. Quando você não produz mais proteínas, embaralha tudo. Aumenta o nível de acetona no sangue, que é como água no óleo. Uma experiência que marca muito. Alguma força o mantém vivo que não é a sua.

Qual é a sua crença religiosa?
Sempre estudei religiões e a filosofia. Tenho conhecimentos avançados sobre isso. Sou chamado para dar palestras em centros de estudos. Continuo estudando, sábado e domingo. Quando posso ler eu leio.

O senhor continua acompanhando o andamento das suas empresas?
Montamos em Betim um centro de serviços integrados do grupo Sada, que tem mais de 30 empresas. É o cérebro do meu grupo. Eu passo umas duas horas por dia lá, bem cedo. Até porque tem minha vida pessoal e prefiro manter separada. Aqui, é meu campo de guerra. Durante o dia recebo relatórios, mas as minhas filhas assumiram as rédeas. Apesar da crise, conseguimos sobreviver e dar um grau de eficiência. Tivemos uma queda de 45% de faturamento, especialmente de 2015 para cá. Sofremos redução do número de colaboradores também. Com a crise, o faturamento de 2016 foi de 3 bilhões de reais. Antes, havia sido de 4,5 bilhões.

Como explicar o sucesso do Sada Cruzeiro, que tem equipe de vôlei e, agora, de futebol americano?
A marca Sada Cruzeiro é muito forte. Talvez seja mais forte no exterior do que aqui.  Há muita curiosidade para entender como o nosso time consegue ter esse desempenho. Há um clima interessante na equipe. Não é apenas um esporte de individualidade, mas de entrosamento, coordenação. E estamos conseguindo extrair o melhor de cada um.

E por que resolveu investir no futebol americano?
Fomos procurados pelo Eagles (equipe de futebol americano de BH) e eles queriam de toda forma a parceria. O Cruzeiro disse que só liberaria a marca se a Sada estivesse no meio. A camisa impõe respeito. Emprestamos a eles também tecnologias de desenvolvimento atlético.

Quais as suas pretensões políticas? Pensa em ser governador?
Deus me perdoe (risos). Se Betim já é complicado... o estado tem tantas coisas ocultas. Agora, vou participar da próxima campanha. Interessa-me ver o estado melhor. Eu representei, por 16 anos, Minas na Câmara Federal e conheço o estado como poucos. Estarei com o Alexandre (Kalil), no PHS ou em outro partido. Hoje não conheço ninguém do PHS, não sei o que eles fazem. Ninguém me procurou. Mas, se o PHS se mantiver sem contaminações, é um partido que dá para ficar, do contrário, não. Já tenho convites de outros partidos para me filiar.

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