Colégio Santo Agostinho tem respaldo de especialistas para abordar temas relacionados à diversidade de gênero

Apesar disso, grupo de 128 pais de alunos da escola quer barrar este tipo de ensino. Educadores alertam que o caminho da censura é perigoso

por Marinella Castro 09/08/2017 15:39

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Túlio Santos/EM/DA Press
Reunião de apoio à escola contou com cerca de 200 participantes, entre pais e alunos: abraço à unidade central do Colégio Santo Agostinho (foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
A despeito do que se espera da escola como lugar plural e de convívio com as diferenças que inundam o mundo contemporâneo - seja nas novelas, no cinema ou na vida real -, um grupo de pais do tradicional Colégio Santo Agostinho causou surpresa ao enviar à escola uma notificação extrajudicial com a intenção de barrar o ensino de temas relacionados à sexualidade, anticoncepção e diversidade de gênero a seus filhos. Para especialistas, a atitude é perigosa e um contrassenso, já que a escola deve ser um espaço para se promover o conhecimento e o respeito às diferenças, incentivando uma sociedade pacífica.

Responsável pela educação de 8 mil alunos em Belo Horizonte, Nova Lima e Contagem, o Santo Agostinho recebeu a notificação pouco antes das férias de julho. Entre os temas tratados, os pais acusam a escola de aderir à chamada ideologia de gênero, expressão usada pelos críticos da ideia de que os gêneros são, na realidade, construções sociais. Consiste na ideia de que os seres humanos nascem "iguais", sendo a definição do "masculino" e do "feminino" um produto histórico-cultural desenvolvido tacitamente pela sociedade. Na tarde do dia 10 de julho, diretores das três unidades do colégio, Clóvis Oliveira, Lorena Macedo e Aleluia Heringer, receberam o documento, assinado por 128 pais. Essa foi a primeira vez que um debate ganhou um caminho tão extremo na escola. Ainda que a notificação tenha sido assinada por apenas 1% das famílias, a discussão ferveu, extrapolou os muros da instituição, ganhou as redes sociais, a imprensa e cresceu em debates acalorados.

Ronaldo Dolabella/Encontro
Parte dos pais que enviou a notificação extrajudicial à escola: para eles, diversidade de gênero não é assunto para a sala de aula (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O Colégio Santo Agostinho está na capital há 83 anos, conta com três unidades e vai inaugurar uma quarta no início do ano que vem (leia matéria na página 46). A ordem agostiniana foi fundada no século XIV, antes mesmo de a esquadra portuguesa aportar na costa do Brasil. Como escola católica, o Santo Agostinho afirmou que é contrário à ideologia de gênero e, por isso, o debate não se sustenta em seu principal ponto. Superintendente executivo da Sociedade Inteligência e Coração (SIC), mantenedora do Santo Agostinho, Márcio de Aguiar Horta afirmou, em entrevista a Encontro, que a ideologia de gênero não é tema tratado pela escola, que discute, sim, sobre tolerância às diferenças. O professor explicou que, por "absoluto respeito aos pais", o colégio fez a opção de tratar o tema diretamente com as famílias. "Sem abrir mão de seus princípios e de seu carisma, o colégio vai manter a postura de diálogo", diz o superintendente. "Não queremos criar uma dicotomia com as famílias." Márcio de Aguiar ressaltou que o Colégio Santo Agostinho é uma instituição confessional, que segue o magistério do papa Francisco e as instruções da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Quando questionado sobre a possibilidade de questões como a anticoncepção serem vetadas a determinados grupos de alunos, Márcio Aguiar ponderou que não é possível adequar um projeto político-pedagógico à ótica de cada um e admitiu que conteúdos relacionados ao respeito às diferenças e educação sexual são um requisito da lei. "É papel da escola falar sobre os temas contemporâneos, da reprodução humana à inteligência artificial."

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Márcio de Aguiar Horta, superintendente executivo da Sociedade Inteligência e Coração (SIC), mantenedora do Santo Agostinho: "É papel da escola falar sobre os temas contemporâneos, da reprodução humana à inteligência artificial" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Para especialistas em educação, conflitos entre família e instituição de ensino não são incomuns. "A saída é o diálogo aberto, mas sem a tentativa de censura", aponta Teodoro Zanardi, professor do departamento de educação da PUC Minas e colunista da rádio CBN. Segundo ele, ainda que muitos pais queiram que seja assim, não é possível ter um colégio para cada família e por isso ele não vê como viável o que se exige na notificação, ou seja, excluir algumas crianças de determinadas aulas. "No caso do Santo Agostinho, entendo que a escola quer formar alunos para uma sociedade plural, comprometida com a diversidade e a tolerância", diz. Zanardi pondera que o diálogo e o esclarecimento aos pais, preocupados com a formação de seus filhos, é saudável, mas não pode significar distorções de uma linha pedagógica ou tentativa de controle.

Na notificação extrajudicial questionam-se a formação dos professores para ensinar temas relacionados à sexualidade e a abordagem do livro de ciências do ensino fundamental. Os pais reclamam também de literatura e filmes adotados. Duas obras que causaram rebuliço foram a biografia Frida Kahlo para Meninos e Meninas, de Nádia Fink e Pitu Saá, indicada para alunos do 6º ano, e As Mentiras que os Homens Contam, de Luis Fernando Verissimo, para alunos do 7º ano. Por ocasião dos 110 anos de seu nascimento, a pintora mexicana está representada em muitos lugares e nunca foi tão popular no Brasil, sendo estampada, inclusive, em coleções infantis, de roupas a material escolar. No entanto, parte de sua vida pessoal, marcada por relacionamentos extraconjugais - inclusive com mulheres -, não agradou aos pais. Já o livro de Luis Fernando Verissimo, apesar de ser reconhecido pelo grupo autor da notificação como literatura de qualidade, foi questionado pelo conteúdo para a faixa etária. Depois da reclamação, a escola suspendeu a leitura do livro.

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Danielle Magalhães tem dois filhos na escola e defende o conteúdo passado pelos professores: "O Santo Agostinho sempre valorizou os princípios religiosos, morais e éticos. Não prega a ideologia de gênero" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A polêmica provocou também um movimento de apoio à escola, por pais que consideraram a notificação extrajudicial um exagero. No dia 14 de julho, pais e alunos promoveram um abraço simbólico à unidade central, em Belo Horizonte, em defesa da pedagogia da escola. Cartazes com a inscrição #somostodossantoagostinho mostravam apoio à instituição. Eles entregaram ainda uma carta com mais de 590 assinaturas. Inúmeras cartas individuais assinadas por pais da unidade Nova Lima, Contagem e Belo Horizonte também foram recebidas pelos diretores da escola.

Alunos do ensino médio reagiram assinando um duro documento em defesa do colégio. Lívia Oliveira e Pedro Viana, da 3ª série do ensino médio, escreveram um texto no qual declararam gratidão à escola. "O Colégio Santo Agostinho sempre pregou o respeito à diversidade como um valor essencial na formação do ser humano, e nós concordamos completamente com essa perspectiva", diz Lívia. Em um trecho do texto afirma: "Aos pais, fica a reflexão: com o que os senhores estão realmente preocupados? Com a vontade de manter seus filhos isolados de tudo aquilo que diverge do que lhes foi ensinado ou com o fornecimento de ensinamentos extremamente relacionados à convivência em comunidade e respeito ao diferente?"

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A psicóloga Marcela Gasparini, mãe de Gabriel, aluno do 6º ano, conta que sempre que precisou foi ouvida pela diretoria: "Nem sempre a resposta é a que gostaríamos e, na nossa sociedade, lidar com a frustração se tornou algo muito difícil" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
As opiniões contrárias e a favor foram tão estridentes que chegaram à cúria. O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor de Oliveira, dedicou um de seus artigos semanais no site da arquidiocese ao tema. No texto "Educação e ideologia de gênero", ele esclareceu sobre a doutrina das instituições católicas: "A Escola Católica está, frontalmente, na contramão do que significa e pretende a ideologia de gênero", ressaltou o arcebispo. "Isso não significa deixar de exercer uma tarefa urgente no mundo contemporâneo: é preciso ensinar que a dignidade maior, a de ser filho e filha de Deus, deve ser igual para todo homem e mulher."

Os 128 pais contam que antes da notificação extrajudicial já haviam se queixado com o colégio e foram recebidos pelos diretores, mas não obtiveram o retorno desejado. "Em geral não nos opomos à educação da sexualidade, desde que a instituição reconheça que assume um papel subsidiário nessa formação", diz o servidor público Reinaldo Oliveira, pai de dois filhos que estudam no Santo Agostinho. Segundo ele, toda matéria deve ter uma base científica comprovada e inquestionável. "Deve-se respeitar os pais que desejam oferecer eles próprios tal educação, sem intervenção da escola", afirma.

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O professor da Faculdade de Educação da UFMG Paulo Nogueira diz que o assunto deve levantar discussões em casa: "Não falar de diversidade é dar um cheque em branco para a violência" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A analista do Judiciário Tania Macedo tem três filhos no colégio e diz que, apesar de a ideologia de gênero ter sido retirada do Plano Nacional de Educação, na opinião dos 128 pais, a corrente de pensamento está sendo introduzida em sala de aula. "No livro de ciências do 6º ano confirmamos que a ideologia de gênero estava no conteúdo. Nele se afirma que existe uma "identidade de gênero" e que esta é só uma "construção social" e que não "depende do sexo biológico". Já a médica Márcia Faria, mãe de dois alunos, acredita que a ideologia de gênero pode causar confusão nas crianças que estão em fase de desenvolvimento. "A sexualidade é um tema precioso para os pais."

A favor da escola, pais e alunos se preocupam com uma "exposição desnecessária". A psicóloga Marcela Gasparini, por exemplo, observa que nunca notou conteúdo impróprio para a idade do seu filho, que tem 11 anos. "Se a intenção era evitar que o tema fosse abordado, o efeito foi contrário. Até em um restaurante onde fui com meu filho todos estavam comentando o assunto." Ela diz que confia na escola e classifica a notificação extrajudicial como "injusta". Marcela conta ter sido ouvida pela diretoria em todas as vezes que precisou. "Nem sempre a resposta é a que gostaríamos e, na nossa sociedade, lidar com a frustração se tornou algo muito difícil. Acredito que essa polêmica seja uma oportunidade para que as famílias abram o diálogo."

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Adla Teixeira, que tem pós-doutorado em educação pela Universidade de Stanford, nos EUA: "A criança não fará determinada opção sexual porque aprendeu sobre a diversidade de gênero" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A empresária Danielle Magalhães postou em sua página em uma rede social uma carta na qual defende o colégio. "O Santo Agostinho é uma escola que sempre valorizou os princípios religiosos, morais e éticos, não prega a ideologia de gênero." Segundo Danielle, foi no colégio, junto com o filho mais velho, Pedro, de 11 anos, que ela renovou o seu catecismo. "O que o Santo Agostinho enfatiza é o acolhimento e o respeito ao próximo, temas importantes para serem tratados com as crianças", diz. Ela cita o exemplo do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, descrito no livro de Gênesis, da Bíblia. "A fruta estava lá. Deus nos alertou, mas não escondeu. A escola não pode esconder que existe a diversidade de gênero, deixar de falar sobre o respeito às diferenças, sobre tolerância."

Mas, afinal, quais são os caminhos para uma sociedade mais pacífica e tolerante? De que forma educadores podem conversar com seus alunos sobre questões que ainda são tabus? E quando não há consenso? A discussão sobre a diversidade de gênero, a sexualidade e anticoncepção deve ser tratada na sala de aula? "Deve, sim", responde Adla Teixeira, professora da Faculdade de Educação da UFMG e com pós-doutorado pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. "A escola é parte do mundo, onde há discriminação, preconceitos e violência em relação ao diferente. É seu papel abordar a diversidade e discutir esses conteúdos na sala de aula."

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Teodoro Zanardi, professor da PUC Minas: "No caso do Santo Agostinho, entendo que a escola quer formar alunos para uma sociedade plural, comprometida com a diversidade e a tolerância" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
De acordo com Adla, os conteúdos devem ser introduzidos a partir da infância. "Com currículo cuidadoso, linguagem adequada para cada faixa etária e diálogo com as famílias", diz. "Alunos de uma escola privada considerada forte serão possivelmente líderes, e onde está a formação humana? Essa juventude precisa desenvolver um olhar de caridade e de perdão em relação ao próximo, ao diferente", defende a especialista. "E a criança não fará uma determinada opção sexual porque aprendeu na escola sobre a diversidade de gênero."

A educação sexual pode servir ainda para levantar questões em casa. "A família educa com as melhores intenções, porém dentro de uma moral privada. A moral pública vem da escola", observa o professor Paulo Nogueira, da Faculdade de Educação da UFMG. "Não falar de diversidade é dar um cheque em branco para a violência, que acontece também no ambiente doméstico." Um cheque que a grande maioria dos pais não quer que o Colégio Santo Agostinho dê a seus alunos.

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