'Estudantes estão angustiados diante da crise', diz ex-presidente da SBPC

Pesquisadora que acabou de deixar o comando da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) afirma que só há saída se o governo deixar de tratar a ciência como despesa

por Rafael Campos 08/08/2017 16:07

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Paulo Márcio/Encontro
(foto: Paulo Márcio/Encontro)
A necessidade de se investir em ciência e em tecnologia foi propagada feito um mantra pela professora Helena Nader, enquanto presidente da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC), durante três mandatos consecutivos (2011 a 2017). No entanto, ao deixar o cargo em julho, não pretende se dar por vencida. "Vou continuar lutando pela ciência. É a minha vida", diz a pesquisadora, que critica a maneira como os governantes lidam com o tema. "É investimento, e não despesa", afirma, diante dos últimos cortes do governo federal. Apesar das barreiras, a professora reconhece os avanços do saber científico nacional e não se abate por ainda não termos tido um brasileiro ou brasileira entre os agraciados com Prêmio Nobel. Durante a 69ª Reunião Anual da SBPC, que neste ano aconteceu na UFMG, na Pampulha, milhares de pessoas, entre professores, estudantes e pesquisadores, estiveram no campus durante uma semana para debater e refletir sobre os rumos da ciência brasileira. Em meio a uma agenda apertada, Helena Nader conversou com Encontro em um hotel próximo à universidade, quando falou dos principais desafios para quem lida com ciência no país, da angústia dos estudantes e da importância do tema para o desenvolvimento de uma nação.

Paulo Márcio/Encontro
(foto: Paulo Márcio/Encontro)
ENCONTRO - O que achou da 69ª Reunião Anual da SBPC, realizada na UFMG?
HELENA NADER - Foi um sucesso. Ao longo dos anos estamos nos aprimorando. São 69 anos que a SBPC realiza o congresso anual e ininterruptamente. Só isso já é um motivo de orgulho para um país que tem, infelizmente, poucas tradições. A reunião abrange todas as áreas do conhecimento. Por isso, é uma oportunidade de colocar à mesma mesa pesquisadores de linhas distintas para debater temas como inovação, cultura e educação. Todas as salas tiveram debates altamente qualificados. Isso mostra que este país pode dar certo, sobretudo, pela quantidade de jovens participando.

Qual é a rotina da SBPC ao longo do ano?
É pesada. Nos últimos 10 anos começamos a desenvolver um diálogo com o parlamento brasileiro. E a partir do momento que estabelecemos esse caminho começamos a ser muito demandados e por diferentes temas. Vamos da ciência à defesa dos direitos humanos, pois está tudo interligado. A ciência é feita para tornar a sociedade mais sábia e para gerar conforto e perspectiva de melhora de vida para aqueles que nos mantêm, ou seja, o povo. Em geral, a ciência no Brasil e no mundo é mantida por dinheiro público. Portanto, a ciência é para o bem-estar do povo, e não do ego do cientista.

Com qual sentimento a senhora está deixando a presidência da SBPC?
Sentimento de dever cumprido (emocionada). Tudo começou com Maurício Costa e Silva, um dos maiores pesquisadores brasileiros, ao juntar um grupo de pessoas no Instituto Agronômico de Campinas. Ele disse que precisávamos criar uma sociedade para fazer o que as outras não faziam. Que reunisse todas as áreas de conhecimento e que se voltasse para o avanço da ciência no país. Assumi a presidência com toda essa carga histórica. Então, tinha de entregá-la pelo menos tal como recebi. Fui eleita para três mandatos consecutivos. No terceiro, relutei, mas o conselho pediu para que eu continuasse, pois já antevíamos que o país entraria num período crítico.

Apesar do momento complicado, tivemos avanços científicos?
Conseguimos avançar muito. Por exemplo, em relação ao vírus da zika. Quem deu a resposta para o que estava acontecendo e que chamou aquilo não de uma microcefalia, mas de uma síndrome com microcefalia, foram os cientistas brasileiros. Isso porque existiu toda uma preparação iniciada com a criação do Instituto Oswaldo Cruz. Lá foi desenvolvido um saber para tratar doenças tropicais. Portanto, na hora que precisou, tivemos resposta. O pré-sal é resultado de outro impacto positivo e direto na sociedade. As pessoas acham que falar da Petrobras, hoje, é xingamento, mas elas confundem o desvio de alguns indivíduos com a instituição da qual temos de nos orgulhar. O pré-sal foi inteirinho fruto de descoberta brasileira. Temos ainda a Embraer, a terceira maior fabricante de jatos do mundo. Sem falar da agricultura e pecuária. O Brasil é quem vai alimentar o mundo. Estamos plantando soja com a maior produtividade por hectare. As escolas de agricultura continuam fazendo ciência pesada. Tem ainda a medicina, a Marinha com as centrífugas de urânio.

Paulo Márcio/Encontro
"Os nossos cientistas, professores universitários e estudantes são verdadeiros heróis" (foto: Paulo Márcio/Encontro)
E de onde tiramos tanta força, mesmo com pouco investimento?
Adoraria ter a resposta. Acredito que a nossa ciência é feita com pouco recurso, mas é muito bem desenhada e pensada. Apesar de soar como exagero, os nossos cientistas, professores universitários e estudantes são verdadeiros heróis. São pessoas determinadas. Eles enfrentam uma corrida de barreiras para alcançar um nível de competição internacional. Por exemplo, temos dificuldades para conseguir reagentes, que têm de ser importados. Você não imagina a quantidade de papéis que precisamos ter para conseguir. Pode levar meses ou chegar a um ano de espera.

Diante de tantos avanços importantes, por que ainda não conquistamos um Prêmio Nobel?
Sabia que você perguntaria isso. Mas discordo. Para mim, tivemos vários. O problema é que o Prêmio Nobel é muito político. Vou lhe dar alguns exemplos. Carlos Chagas foi proposto. Nenhum cientista do mundo fez o que Chagas fez. No entanto, houve brigas internas e ele foi tirado. Outro foi o Sérgio Ferreira (farmacologista), que descobriu que o veneno da jararaca gerava um composto que deu origem a um dos medicamentos mais vendidos no mundo, o Captopril (para reduzir a pressão alta e tratar da insuficiência cardíaca). Depois ele trabalhou com outro pesquisador, o Robert Vane, que ganhou o Prêmio Nobel (1982) por descobrir os mecanismos da dor. No trabalho tem o nome do Sérgio, mas o Nobel foi para Vane. Fico meio tiririca com essa pergunta. Até o Obama foi agraciado com o Nobel da Paz, mas ele não tinha feito nada ainda. Tivemos Dom Helder Câmara, Henfil, ou seja, por tudo o que fizeram, eles não mereciam? Sem falar na nossa literatura. É como se eles olhassem apenas o Hemisfério Norte. É claro que seria legal ganharmos, mas a falta do Prêmio Nobel não mede a qualidade da nossa ciência.

Este cenário de crise favorece ou não a inovação?
Não favorece. É contra a inovação. Eu me coloco na posição de um empresário para quem investir em inovação é risco. Por isso, muitas firmas não estão, de fato, inovando. Elas compram a inovação das startups. Elas correm atrás das pequenininhas que deram certo. E neste país onde jogar dinheiro na ciranda financeira é retorno certo, você quer que o empresário arrisque? Nos EUA, por exemplo, quem mais investe é o próprio Estado, e não as empresas. A Coreia do Sul investe 5% do PIB em ciência, tecnologia e inovação. Enquanto aqui estamos mantendo 1,1%. Nossos governantes têm de entender que ciência não é banco, onde você coloca dinheiro para resgatar depois. A ciência leva tempo, pois significa buscar o novo.

Então, o que tem de mudar para, realmente, começarmos a investir mais em ciência e tecnologia?
Em primeiro lugar, temos de entender que ciência é investimento, não é despesa, que se corta. No investimento você tem a expectativa de um retorno, enquanto a despesa é um gasto que vai embora. Agora, outra coisa que tem de mudar é a questão dos juros. Nós temos a maior taxa de juros do mundo. Está aí uma coisa que devemos parabenizar os nossos governantes. É uma economia que não pode dar certo, a não ser que queiramos ser um paraíso fiscal.

E qual o papel da educação nisso?
Tem um papel crucial. Temos de investir, de fato, numa educação de qualidade. O que você vê nas escolas do Sistema S, que é profissionalizante, mas que qualifica, é impressionante. Até porque aqui as pessoas acham que ensino superior está só na universidade. Acreditam que existe o doutor e o não doutor. Não é assim que funciona. E sim o competente e o não competente. Temos de mudar essa cultura. As escolas técnicas estão dando show de bola. Precisamos estar atentos a outro problema. Os professores estão sendo cobrados a fazer de tudo, mas temos de entender que as pessoas não são iguais. Aquele que tem mais vocação para graduação tem de ser tão valorizado quanto aquele que tem para pesquisa. Isso, ainda não conseguimos resolver nas universidades brasileiras.

Paulo Márcio/Encontro
"A falta de um Prêmio Nobel não mede a qualidade da nossa ciência" (foto: Paulo Márcio/Encontro)
O programa Ciência sem Fronteiras teria um papel importante neste processo, mas ele foi extinto para a graduação...
Ele tinha começo, meio e fim. Mas, para a pós-graduação, ele está sendo ampliado. Na graduação, se voltar, tem de ser avaliado, para ter outro formato que envolva a universidade, o tutor do estudante no Brasil e no exterior, para que seja elaborado o programa acadêmico que o aluno vai desenvolver. Acho que o que falta também no Brasil são cursos lecionados em inglês ou em espanhol para atrair também estudantes do exterior.

Hoje a academia é atraente para os jovens?
O que percebi nesse congresso é que os jovens, sobretudo os da pós-graduação, estão angustiados. Há uma crise grave e ninguém do governo aparece para dizer que há luz no fim do túnel. Além disso, há as reformas da previdência e das leis trabalhistas, que geram questionamentos. O que vou batalhar, mesmo depois de deixar a presidência da SBPC, é em relação aos nossos estudantes que estão empobrecidos. Tivemos de abonar muitas inscrições no congresso. As bolsas de mestrado são muito baixas também. Imagine viver com 1,2 mil reais por mês nas grandes capitais?

Qual a saída?
Temos de continuar insistindo. O Brasil não pode perder os seus jovens. Precisamos aproveitar este momento, pois ainda temos jovens que podem ser altamente qualificados e que podem dar um impacto positivo para grande parcela da população que vai envelhecer. Ou aproveitamos isso agora ou o barco passa e, daqui a 30 ou 50 anos, vamos reconhecer que erramos. Na pirâmide do envelhecimento brasileira, o que a França levou 100 anos para alcançar, conseguimos em 20. Ou fazemos a lição de casa ou, do contrário, não vai ter casa. Não consigo nem pensar sobre o nosso futuro sem o investimento no conhecimento científico. Aconteceria uma hecatombe. Não veria solução nem para as commodities, pois até para extrair minério é preciso ter ciência. Se não começar a fazer ontem, não haverá hoje e muito menos amanhã.

Durante o congresso, surgiu a ideia de criar um partido político em prol dos cientistas. Disseram que a senhora poderia ser uma das candidatas à Presidência...
Não tenho nada a ver com o partido. Sou contra. A SBPC nunca esteve envolvida nisso. Afinal, é uma sociedade apartidária. Se tiver um partido só para ciência, as outras siglas deixariam de se interessar pelo assunto. Acredito é no diálogo. Precisamos ter um movimento pró-educação. Nunca seria candidata à política. Já fui até chamada a assumir alguns cargos, mas recusei, pois estava no projeto da SBPC. Mesmo após a presidência da SBPC, vou continuar lutando pela ciência. É a minha vida.

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