
“O agronegócio tem
demanda crucial da renegociação de dívidas, que subiram muito em função de problemas de políticas públicas, das quais os agricultores foram vítimas”

“O problema do etanol
e dos biocombustíveis
passa pela construção de um mercado. Só haverá
mercado quando, primeiro, houver maior número de países produzindo”
|
|
|
Esse e outros temas, como o futuro do etanol, foram tratados por Rodrigues, que afirmou ainda não sentir saudades dos tempos em que era ministro, embora não tenha explicado os motivos.
E. Rural – Como o senhor avalia a atual conjuntura do agronegócio brasileiro?
RODRIGUES – É o maior negócio do Brasil. Só para se ter uma idéia, é responsável por 92% do saldo da balança comercial do país. No entanto, vai aos trancos e barrancos pela inexistência de uma política estável de renda, cujas bases estão lançadas com o seguro rural, mas que falta ser estruturado definitivamente. Além disso, o setor sofre, neste momento, um grande desgaste por causa do câmbio, exigindo algumas ações corretivas nas áreas fiscal, tributária e monetária, rapidamente. O agronegócio também tem demanda crucial da renegociação de dívidas, que subiram exageradamente, em função de problemas que não foram dos agricultores, mas de políticas públicas, das quais eles foram vítimas.
E. Rural – De que forma o governo poderia intervir, principalmente na questão do financiamento agropecuário?
RODRIGUES – No caso específico da renegociação de dívidas agrícolas a discussão está em andamento. Os ministérios da Agricultura e da Fazenda e os órgãos de classe do setor estão trabalhando nesta direção. A idéia é encontrar um modelo de renegociação que viabilize aos produtores um longo prazo para pagar suas dívidas. Ninguém quer perdão de dívida, quer pagar em condições adequadas. Isso está sendo tratado agora e nós esperamos que estas coisas aconteçam rapidamente para arejar o sistema. O mundo vive um momento muito precioso, de preços bons das principais commodities agrícolas, mas os brasileiros não estão se beneficiando destes bons preços por causa da questão cambial. Então, é preciso que haja rapidamente uma solução da questão do endividamento para viabilizar novos créditos com taxas de juros adequadas. Assim poderemos aproveitar esta onda de bons preços, que ainda está varrendo o mundo inteiro.
E. Rural – Qual a opinião do senhor sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e sobre o posicionamento da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) com relação aos critérios estabelecidos para liberação de novas variedades de sementes?
RODRIGUES – Fui a favor da criação de uma legislação brasileira que permitisse a liberação dos Organismos Geneticamente Modificados sob circunstâncias de segurança absoluta. Nossa lei é muito boa, é positiva, mas a regulamentação dela permitiu uma dificuldade, uma prorrogação grande da liberação de novos produtos e cultivos. De fato, tem nos colocado na retaguarda do processo tecnológico. Mas aparentemente, o governo está muito ciente deste processo, disposto a mudar o regulamento. A idéia é avançar mais depressa nesta questão, que abre uma fronteira tecnológica importante para todos nós.
E. Rural – Então, o Brasil está atrasado na questão dos OGMs?
RODRIGUES – Eu não diria que está atrasado, mas está demorado.
E. Rural – O momento é extremamente favorável ao Brasil em termos de conquista do mercado externo já que tem área para ampliar a produção de carne, leite e de grãos. O Brasil está sabendo aproveitar isso?
RODRIGUES – Não, o Brasil não está aproveitando este momento por causa da questão cambial. A agricultura brasileira vai muito bem porque temos um produtor enormemente competitivo, brilhante, que usa tecnologia moderna. A agricultura vai bem, mas os agricultores vão mal.
E. Rural – E o cooperativismo, é um instrumento importante para ajudar no crescimento do agronegócio brasileiro?
RODRIGUES – Tem havido crescimento forte na participaçãodo PIB brasileiro, nas exportações dos principais produtos, na agregação de valor, que é uma coisa essencial porque você sozinho não pode fazer isso, mas faz através das cooperativas. Então, o cooperativismo é um sistema que ajuda a desenvolver vertical e horizontalmente a produção. O cooperativismo brasileiro tem papel fundamental no avanço do 4
agronegócio particularmente, quando reconhecemos que 80% dos associados às cooperativas são pequenos produtores rurais. Isto tem um valor importantíssimo. Há mesmo uma tese de que a reforma agrária, para ter êxito, é preciso ser feita através de cooperativas.
E. Rural – O senhor defendeu isto no governo?
RODRIGUES – Defendi isto a vida inteira.
E. Rural – A proposta do senhor não foi aceita, enquanto era ministro?
RODRIGUES – Está andando por aí. Vai caminhando positivamente.
E. Rural – Quando o país irá, definitivamente, alcançar o mercado externo na produção de etanol? Como o senhor vê o futuro do etanol, que está sendo uma das questões centrais do governo Lula?
RODRIGUES – O problema do etanol e dos biocombustíveis em geral, passa pela construção de um mercado e não existe este mercado. Por que não existe este mercado? Porque existe apenas um produtor exportador importante de etanol, que é o Brasil. Nenhum outro país exporta o etanol. Quem produz, consome internamente. Os americanos respondem por 35%, 40% da produção mundial de etanol, mas consomem 100% do que produzem. Então, só haverá um mercado quando, primeiro, houver maior número de países produzindo.
E. Rural – E essa não seria então a chance do Brasil?
RODRIGUES – Sim. O Brasil tem de criar estímulos para que os agricultores produzam etanol para vendermos não apenas álcool, mas, a indústria, a tecnologia, a informação, o conhecimento, a inteligência, que é o que nós temos para ajudar a mudar o planeta de maneira adequada. A segunda coisa é a criação de uma legislação nos países consumidores que obrigue maior mistura de etanol à gasolina. Por que no Brasil o Proálcool foi um sucesso? Porque a lei que criou o Proálcool obriga mistura de 25% de álcool na gasolina. No ano que vem teremos de adicionar 2% de biodiesel no diesel nacional. Então, há uma lei que exige isto, cria a produção e cria o mercado. Enquanto não houver isto no mundo, não teremos um mercado criado. Vai ficar sempre uma coisa ao sabor das circunstâncias e da demanda de cada país. A terceira questão é a comoditização do produto. Nunca vai existir uma commoditie com um único país produzindo. A comoditização depende de padronização e, eventualmente, também da certificação. O mercado somente será criado quando tivermos mais países produzindo, legislações compulsórias nos países consumidores e a padronização, certificação e comoditização do produto final. Tudo isto está andando lentamente porque não existe estratégia. Nem o Brasil tem uma estratégia.
E. Rural – O que o senhor chama de estratégia, nesse caso?
RODRIGUES – Temos que saber primeiro quanto de álcool o Brasil está produzindo. Eu não sei. E o mercado externo, o mercado interno? Ninguém sabe. Não há um projeto estratégico nesta direção. Quem vai cuidar da logística, da infra-estrutura, do financiamento, do zoneamento agrícola, dos recursos humanos, do desenvolvimento da tecnologia? Não existe uma estratégia nacional. Mais de dez ministérios estão cuidando do assunto no Brasil e não existe uma estratégia única. Mercado potencial existe, e é maravilhoso. Transformá-lo em realidade depende de uma grande estratégia do governo como um todo, negociada com o setor privado, que também não tem estratégia.
E. Rural – Pode-se falar que está havendo um pico de produção de milho também, já que os Estados Unidos estão utilizando o produto para produzir etanol?
RODRIGUES – O etanol de milho tem um custo de produção muito maior do que o produzido pelo Brasil, de cana. Para se ter uma idéia, para fazer etanol de cana, gasta-se uma unidade de fóssil para produzir oito unidades renováveis. Já com o milho, gasta-se uma unidade de fóssil para fazer uma unidade e meia de unidade renovável. Além do custo, o balanço energético é muito inferior. O problema é que o etanol não é mais uma questão de oportunidade, é estratégico. Da mesma forma que no século 20 a grande questão da agricultura foi a estratégia da segurança alimentar, no futuro, no século 21, a estratégia é a segurança energética, pois um país não se desenvolve sem energia. Se vai produzir mais caro ou mais barato, não importa. A questão é a definição estratégica de cada país, de modo que o milho continuará sendo a matéria-prima dos Estados Unidos porque é estratégico para se produzir etanol. Se não existe cana por lá, produzem com milho. Estão sendo desenvolvidas pesquisas com a celulose, que poderá ser a matéria-prima do futuro. Então, as tecnologias que o mundo está criando mudarão provavelmente as matérias-primas, não obstante, a cana-de-açúcar será para sempre a melhor matéria-prima, desde que invistamos em tecnologia no Brasil.
|