| Beth Leite |
Arte caliente

O atelier fica na Floresta, região leste de Belo Horizonte. Paredes, cantos e recônditos estão impregnados de arte, quadros, muitos deles de várias épocas, livros, catálogos de exposições das quais já participou e memórias. Por ali se respira a arte intensa, provocativa e colorida do artista chileno Patricio Solo, 73, nascido em Santiago, e há 48 anos vivendo no Brasil. “Vim para cá para esquecer uma noiva”, relembra Solo que acabou se casando com uma mineira.
Leonino, organizado e vaidoso, divide o tempo entre as tintas e pincéis e os cálculos estruturais. No Chile se formou engenheiro construtor, e na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, em engenharia civil. Trabalhou em grandes empresas, foi o construtor da ponte sobre o vertedouro da barragem da Hidrelétrica de Furnas “que não caiu até hoje”, brinca ele, mas nunca deixou de pintar.
Autodidata, nunca frequentou escolas de arte. “Leio muito, estudo e observo”, explica o artista que começou com a aquarela aos 15 anos. Aos 19, ainda no Chile, fez sua primeira exposição individual. “Pintava velhinhos e fachadas”, lembra o artista. Foram inúmeras exposições no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e vários prêmios. Suas obras estão espalhadas em quase todos os estados brasileiros e no exterior. No ano passado ganhou duas medalhas de ouro no 33º Salão Nacional de Artes Plásticas com as obras Ouro Preto, Naturezas vivas na paisagem 1 e 2. E ainda a comenda grau de comendador no Centro Cultural da Marinha, em São Paulo.
Solo é irrequieto, assim como sua arte. Senão, como explicar quadros como Essa mulata nunca seria pintada por Gauguin ou por Di Cavalcanti, Duas mulheres, uma à moda de Picasso e a outra à moda do Solo ou ainda Natureza viva com flores e frutas? Neste último, ele faz uma releitura da obra de Matisse da coleção particular de Yves Saint-Laurent, leiloada este ano por 96 milhões de reais.
A arte figurativa de Solo, por vezes abstrata e geométrica, tem nas cores do fauvismo, movimento francês que tem como características marcantes a simplificação das formas e o primado das cores, seu ponto forte. Ele abusa de combinações perfeitas e provocantes para retratar as mulatas: “sensuais, mas não cheguei a namorar uma”, brinca. Há ainda em sua obra espaço para personagens como os Rolling Stones aos pés do Cristo Redentor, Oscar Niemeyer em frente à esplanada dos ministérios e Michael Jackson com sua famosa luva branca.
A carreira de Solo, ou seria a carreira “solo” do artista, é uma provocativa releitura de grandes pintores como Picasso, Van Gogh, Matisse e Gauguin. “A obra de Solo se apresenta na sua essencialidade e sua mensagem é rica de imaginação e de significados às vezes indecifráveis”, diz Emanuel von Lauenstein Massara no livro Itália-Brasil, Arte de 2005. O crítico Gustavo Gavião escreveu sobre ele: “O desenho livre e as cores alegres de Solo são, sem dúvida, a marca maior de seu trabalho. As mulatas e as paisagens tropicais parecem saídas de terras fantásticas, animais multicoloridos e de gente bem-humorada e sadia”. Inimá de Paula fez um retrato dele com cavanhaque, elegante. “Foi seu último quadro; dois dias depois de me mostrar a pintura, morreu, antes mesmo de assiná-la”, recorda o artista que com sua natureza forte, e ao mesmo tempo sensível, vai elegendo matizes quentes para imortalizar nas telas o seu olhar sobre o mundo.
Twitter
Rss
