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Esporte

| Daniele Hostalácio |


Subsede dos jogos olímpicos de 2016, BH já se prepara para aproveitar os benefícios trazidos pelo evento


Efeito olímpico

* Geraldo Goulart
0s judocas mineiros Amanda e Arthur Ribas, com o técnico Floriano de Almeida: sonho de serem atletas olímpicos foi realimentado

Sete anos parece muito tempo, mas passam num piscar de olhos. Em breve, estaremos às vésperas das primeiras Olimpíadas a serem realizadas na América do Sul. Jornalistas esportivos, redes de televisão e apaixonados por esporte em todo o mundo estarão com corações e mentes voltados para o Rio de Janeiro, a fim de acompanharem os jogos olímpicos de 2016. Belo Horizonte também terá seus dias de fama, durante o evento, já que será subsede dos jogos de futebol feminino e masculino. Mas, outras oportunidades deverão surgir para a capital mi­neira e o restante de Minas, pois um evento de tal magnitude acaba ge­rando impactos que ultrapassam suas “fronteiras”. A expectativa é de que, na esteira da Copa, em 2014, e na iminência dos jogos olímpicos no Rio, programas de qualificação de mão de obra sejam impulsionados e sejam acelerados projetos de modernização de hotéis, bares, restaurantes e pontos turísticos do es­tado. Clubes e atletas mineiros também esperam ser beneficiados com a escolha – afinal, o Brasil vai querer brilhar no pódio.
 
Aproveitar os holofotes sobre o Rio, para iluminar a diversidade tu­rística de Minas, é o que pretende fazer o diretor geral do Instituto Es­trada Real, Baques Vladimir Sanna. “Temos planos para atrair turistas, e isso irá movimentar toda uma gama de serviços. Já estamos preparando toda a rede hoteleira para a Copa de 2014, que será uma ‘prova’, e o evento em 2016 se beneficiará disso”, avalia. O esforço não se restringirá aos turistas. “As equipes olímpicas po­derão vir para Minas treinar em nossos hotéis-fazenda, nas nossas cidades históricas. Temos excelente estrutura hoteleira para isso – hospitalidade, mão de obra qualificada, segurança. Vamos explorar a vantagem da nossa proximidade com o Rio de Janeiro, de onde Belo Ho­rizonte está distante apenas 45 minutos de voo; e muitas de nossas cidades estão até duas horas de ônibus de lá”.  Segundo Sanna, o Rio de Janeiro estará vivendo um grande burburinho nos dias que irão anteceder as Olimpíadas. Em Minas, os atletas olímpicos poderão treinar num ambiente de muito mais tranquilidade.

* Cláudio Cunha
Márcio de Oliveira Pinto, da Federação de Basketball: jogos serão oportunidade para o desenvolvimento esportivo dos jovens

Na visão do professor da Fun­dação Dom Cabral, Haroldo Vale Mota, são oportunidades como essa que podem promover um efeito multiplicador sobre a economia mineira – e a brasileira – como um todo. “Serão movimentados todos os setores, especialmente o de serviços, com benefícios diretos e indiretos para toda a economia. Sem dúvida, a proximidade de Belo Ho­ri­zonte com o Rio de Janeiro é uma vantagem”. Mas, lembra ele, deverá haver ações específicas do governo de Minas e das diversas prefeituras das cidades mineiras, para atrair para o estado o fluxo de pessoas que virão ao Brasil, em função dos jogos olímpicos e da visibilidade que o país ganhará, ainda antes do evento. Além de incentivar o turismo, o go­verno terá a responsabilidade de adotar medidas, como incentivos fiscais, para estimular a participação da iniciativa privada nos eventos olímpicos. Também não está descartada a possibilidade de serem construídos novos ginásios e de serem reformulados os já existentes, a fim de se garantir acomodação de atletas e turistas. Obras que seriam de­pois aproveitadas pela comunidade e investimentos que trariam desenvolvimento econômico, para além das Olimpíadas.
    
O legado esportivo que o evento pode deixar para o país, no entanto, é o aspecto mais ressaltado pelos dirigentes de clubes, treinadores e presidentes de federações das diversas modalidades esportivas. “Tenho ouvido falar muito no inves-4   timento em infraestrutura física,  mas  é­ preciso investir na formação de atletas. Precisamos formar equipes de alto nível, visando à participação vi­toriosa do Brasil nas primeiras O­lim­píadas realizadas na América do Sul. Estamos diante de uma excelente oportunidade para a criação de u­ma nova cultura do esporte no nos­so país e em Minas”, destaca Sergio Bruno Zech Coelho, presidente do Minas Tênis Clube, uma das maiores instituições desportivas do país, que possui cerca de mil atletas federados, em equipes competitivas de todas as categorias, em oito esportes olímpicos.
 
Sergio Zech, que preside também o Conselho Nacional de Clubes Formadores de Atletas Olímpicos (Confao) – entidade que integra clubes e times com tradição olímpica – reclama, no entanto, da falta de re­cursos para a formação de atletas, que tem pautado a política de esportes. A criação do Confao, por exemplo, foi motivada pela insatisfação dos clubes com a falta de reconhecimento ao trabalho executado por eles na formação e na manutenção de atletas e equipes e pela falta de apoio financeiro. “Hoje, são os clubes que formam os atletas; as escolas quase participam desse processo, com exceção de uma ou outra particular. Somos nós quem cumprimos esse papel”, explica. Por isso, o Con­fao reivindica uma participação nos recursos da Lei Piva, que destina 2% da arrecadação bruta das loterias fe­derais ao Comitê Olímpico Bra­si­leiro e ao Comitê Paraolímpico Bra­sileiro. Repartir uma porcentagem desse montante com os clubes seria uma oportunidade de garantir a formação de novos atletas, por parte de quem tem estrutura para isso.
* Cláudio Cunha
Sergio Bruno Zech Coelho, presidente do Minas Tênis Clube: “Precisamos formar ­equipes de alto nível”

Mas, lembra Sergio Zech, seria fundamental, também, investir na educação física dentro das escolas, pois elas têm capilaridade geográfica – estão em contato direto com crianças e adolescentes de todas as faixas etárias e sociais, em todos os recantos do Brasil. O presidente da Federação Mineira de Basketball, Márcio de Oliveira Pinto, faz coro com o presidente do Minas. “Essas Olimpíadas serão uma grande oportunidade para o desenvolvimento social e esportivo do jovem brasileiro. Esperamos que os dirigentes do país saibam criar estruturas para preparar atletas para participarem do evento, como fizeram a China e a Inglaterra”. Ele lembra que as equipes de ponta de diversas modalidades esportivas contam com patrocínios de empresas privadas, mas faltam investimentos na base. “Temos uma floresta humana diversificada, de onde podem surgir muitos atletas, mas temos um problema: faltam professores e técnicos. Estamos atrasados, pois a formação de atletas leva tempo. Nos próximos sete anos, no entanto, ainda podemos fazer muito, através de políticas para o esporte”, diz.

Nesse sentido, o secretário de Estado de Esportes e da Juventude, Gustavo Corrêa, declara que há possibilidade de o governo mineiro criar, a partir do próximo ano, bolsas-atleta, a exemplo do que já ocorre em nível federal. “Temos todo o interesse em fazer isso, pois precisamos trabalhar na base, buscando um retorno dos professores de educação física, para que eles detectem os alunos com aptidão em determinados esportes, para que possamos fazer os investimentos”. Para além do esporte, ele destaca que os benefícios por Belo Horizonte ter sido escolhida como subsede repercutirão em todo o estado. “Isso será um grande impulsionador para o nosso turismo”.

Para os mineiros que sonham em ser atletas olímpicos, a notícia traz entusiasmo, mas não muda a rotina desafiante. Os irmãos Ar­thur e Amanda Ribas, por exemplo, são dois jovens que, entre milhares de outros, acalentam o sonho de uma medalha numa olimpíada. Treinam todos os dias, de segunda a sábado; deixaram a família no sul de Minas Gerais e se mudaram para Belo Ho­rizonte, como contratados do Mi­nas Tênis Clube; e mantêm uma ro­tina de viagens e participação em diversas competições. Neste ano, Amanda foi campeã mineira, brasileira regional e brasileira de judô, e Arthur, campeão mineiro e vice-campeão brasileiro na mesma mo­dalidade. Até 2016, eles enfrentarão inúmeras horas de treinos, muitas disputas e, quem sabe, participarão das Olimpíadas de Lon­dres. “O de­safio permanece grande, mas a es­colha do Rio, sem dúvida, desperta ainda mais o sonho de muitos desses atletas, pois eles te­rão a oportunidade de disputar per­to de casa e da torcida”, acredita o treinador dos jovens Floriano de Almeida, técnico da equipe de judô do Minas Tênis Clube. Ele explica que a vantagem é que brasileiros não terão de participar de rankings ou seletivas internacionais para serem escolhidos para o Rio 2016. “Mas a competição interna será muito grande”, destaca.

O anúncio de que o Rio será a sede das Olimpíadas é recente e ain­da há um longo trabalho pela frente. O que irá representar para Belo Ho­rizonte e Minas Gerais, em termos econômicos, ainda é difícil mensurar. Mas, para o esporte mi­neiro, é uma injeção de ânimo, que pode de­sengavetar projetos e provocar in­vestimentos para o setor – é dessas ações que podem surgir oportunidades de me­dalha. Mo­tivação por par­te de quem dedica a vida ao esporte não faltará: “Sem dúvida, o glamour de levar uma me­dalha dentro do próprio pa­ís estimulará muito os atletas”, acredita o técnico Floriano.
 
E há, ain­da, a torcida: “O Arthur e a Amanda cres­­ceram dentro do ta­tame. Co­meçaram a praticar jiu-jítsu aos 4 anos; aos 8, o Arthur figurou no Guin­ness Book como o mais jo­vem faixa preta de kickboxing”, orgulha-se o pai dos judocas, Mar­celo Ribas. “Quando pequenos, perguntei se queriam ser atletas olímpicos e eles disseram que sim. Es­tamos, a família toda, correndo atrás desse sonho. Uma medalha, numa Olim­píada no Brasil, seria fantástico”. Nós também já estamos na torcida.

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